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O País até está parvo. É o caso da Maria e, talvez, de mais milhão e meio de portugueses que, como ela, se encontram desempregados.
A Maria que, até sexta-feira passada, apenas se sentia inútil e maltratada. Que se sentia, apenas, vazia. Que andava, apenas, abatidíssima. Agora, também ela não quer acreditar. Há uns meses, regressara a casa dos pais, em Arouca. Com ela veio o filho e o marido, também ele desempregado. A sobrevivência desta gente vem da pequena horta caseira e dos cerca de 350 euros mensais da reforma de seu pai. O subsídio já se foi e, todas as semanas, ela cambaleia, durante horas, na fila do Centro de Emprego, onde estão, o Manel, marido, e o Zé, cunhado, igualmente desesperados. O funcionário, incomodado, todas as vezes explica-lhes que não, que não há trabalho, o que os faz sempre regressar a casa, profundamente deprimidos. Assim têm passado os dias neste último ano e meio. Só lhes restava ficar parvinhos de todo. Foi o que lhes aconteceu, ontem, via TV.
A família estava como todas as noites, à hora certa preparava-se para o último traumatismo do dia. Ligou a televisão para ver e ouvir os telejornais. Com Victor Gaspar a abrir, ainda pior! Que ferro, este homem! Maria sempre o achara arrogante e antipático. Nunca o tinha visto como gente. Contudo, ontem, embora ela não escutasse o espanto de uma vida, até concordou com ele, quando o ouviu dizer – «a satisfação de vida de um desempregado não se recupera».
É então que, logo depois, à esquina de outra notícia, surge, sorrindo docemente, Passos Coelho. Toda a família votou nele nas últimas eleições, mais do que por qualquer outro motivo, como castigo ao Sócrates, já que foi ele que lhes abriu as portas do desemprego. Eles esperam ouvir do primeiro-ministro qualquer coisa cintilante e encorajante. Talvez um: «Há que apertar agora o cinto até virem melhores dias!». Talvez mesmo um: «Caramba! Em Portugal poucos se queixam, o povo está connosco! Os portugueses estão a dar uma lição de anatomia social ao mundo!. . .»
Nada disso. Febril, ao acaso, Passos dispara:
- O desemprego não pode ser considerado como negativo, mas antes como uma oportunidade para mudar de vida!
Para Maria, que vinha de deitar a sopa no prato do filho, isso suscitou-lhe, ali mesmo, na televisão, no CCB da cavaqueira e da intrigalhada entre burgueses, uma profunda indignação.
Há muitos anos, quando era míudo, a mercearia lá do bairro era mais pequena e pacata, o matagal de artigos que a debruavam escondiam-se atrás de um balcão de madeira, para lá dele havia prateleiras para cada lado que só o merceeiro – o senhor Abílio – tinha a humanitária incumbência de subir e descer, por um banco de pau, quando tinha que satisfazer os meus recados levados de casa,
na mercearia do senhor Abílio não havia corredores de prateleiras pelo meio da casa e era costume não deixar dinheiro e as compras serem apenas apontadas no livro, coisa indispensável à sobrevivência mensal de cada família lá do bairro,
mesmo dos que tinham dinheiro e não costumavam deixar calotes
não havia carrinhos ou sacos de plástico (cada um já levava o seu de casa) nem meninas por detrás de caixas electrónicas como há, por exemplo, na mercearia do senhor Jerónimo Martins, onde eu estou agora
nem revistas cor-de rosa, pasquins com programas de televisão e fulanas decotadas no peito e nas pernas pastilhas elásticas espanholas, carne das vacas espanholas leite espanhol produtos espanhóis para dar brilho aos estofos ou humedecer plásticos mata–moscas espanhóis remédios espanhóis de tirar cheiros ou eliminar ferrugens do corpo bolachas espanholas, pizzas, hambúrgueres sanduíches com queijo de barra e pão (por que será que, em apenas duas horas, este pão fica duro que nem cornos) embrulhados na hora em plástico transparente e pegadiço,
tudo o desejável, tudo o sonhável pelo comum dos utentes, um mar de felicidade para os insaciáveis consumidores, enfim, referências ideológicas da civilização
não havia nada disto, e as pessoas que, como já não acontece hoje, precisando abastecer minimamente a casa e os estômagos, faziam-no apenas comprando o essencial na mercearia do senhor Abílio, o que contribuiu para que se sentissem muito menos felizes do que agora
bom,
o que eu queria dizer é que, vindo ao Pingo Doce, de Arouca, tratar do meu almoço (um frango espanhol, uma garrafa de vinho e meia-dúzia de pães – os tais duros como cornos se não os comer já), a caminho da manifestação do 1º Maio em Aveiro, estou empacado, há horas, numa fila, que vai desde o talho das vacas espanholas até às meninas das caixas registadoras,
vá-se lá imaginar a lógica disto, o merceeiro Jerónimo resolveu desmoronar os preços dos produtos pelas prateleiras abaixo, 50%, todos partidos em compras acima do valor de 100 euros, e a malta aos gritos amontoou-se com carros e carrinhos cheios de coisas,
compreende-se, mas
o que já não se compreende, nem se pode compreender, é que ele tenha feito esta promoção no 1º Maio – DIA DOS TRABALHADORES,
«O DIREITO À INSURREIÇÃO
CONTRA A EXPLORAÇÃO DE QUE SE É VÍTIMA»
Cerca de cinco dezenas de pessoas participaram, sábado, em Arouca, num jantar comemorativo do dia 25 de Abril de 1974. Gente determinada, que continua acreditar nos valores de Abril que, através do Movimento das Forças Armadas, «fez nascer, há 38 anos, uma nova esperança ao povo e tornou possível conquistas fundamentais na sociedade portuguesa que, como diz a canção, deram pão, saúde e educação para todos» afirmou Ilda Figueiredo no discurso de encerramento desta jornada, que lembrou ainda a Constituição e o seu «direito à insurreição», no momento em que os portugueses, na sua opinião, «estão a ser vítimas de exploração».
Com a noite a principiar, dezenas de pessoas, lendo na vitrine «É possível uma vida melhor», subiram a escadaria de acesso à sala principal do restaurante Manjar e encontravam, num convívio fraterno, uma banca com livros, onde se destacava o «Caderno da Educação – Do Mundo Rural às Escolas Rurais em Arouca». De dentro para fora, os ritmos de Zeca Afonso e Carlos Paredes e os vídeos com diálogos, textos e fotografias evocativas daquela data chamavam e preenchiam os poucos lugares que ainda restavam.
Depois da apresentação do evento por Tadeu Saavedra, foi a vez de Ilda Figueiredo, reconhecida ex-eurodeputada, rebobinar os acontecimentos do dia 25 de Abril de 1974 e os principais valores inscritos, a partir daí, na Constituição Portuguesa e, com 38 anos a passar pela data, a rebobinar também o actual filme da crise europeia «agora tendo como principal protagonista o nosso País». Leia o resto deste artigo »
Botswana. Meio-dia. Um simba, no topo da árvore, tronco nu e pé descalço, vigia, na savana, a manada cinzenta.
De súbito, louco de fúria, colossal, abanando as orelhas e soltando urros, irrompe, no vasto panorama africano – o elefante. Ele.
A arraia míuda zoológica, espalhada por entre o capim, meia adormecida sob o sol escaldante, foge, desconcertada, sob a carga monstruosa, surrealista, do elefante.
É então que começam a despontar, dos jeep’s, de caçadeira de dois canos, camisa de linho branco, calção e colete, capacete de cortiça de fita de pantera, com mais carregadores simbas atrás, – os caçadores. Entre eles, o rei de Espanha, D. Juan de Bourbon, e uma amazona baronesa.
Os caçadores aristocratas visam o corpo formidável da fera e crivam-no de balas blindadas, que abrem, no couro da pele, na massa da carne, buracos por onde cabem punhos. Caem, na savana, toneladas de elefante.
A espingarda mais certeira galga para o costado da fera. Um simba, que vinha de carregador, ajoujado de caixas, dispara, ao sol, a máquina fotográfica.
Poucos minutos depois, regista-se um acidente com algumas consequências graves para D. Juan. Este tropeça na amazona, cai em cima dela e fractura uma perna. Por sorte, a amazona não se aleija e consegue mesmo transportá-lo para um hospital local, a fim de ser radiografado. Sendo grave, o monarca segue, de urgência, para o seu país, onde é submetido a uma intervenção cirúrgica.
A fotografia do simba, entretanto, aparece em tudo o que é jornal e televisão. Rebenta então o escandâlo – mundial e doméstico. Alguns dias depois, o rei sai do hospital e, publicamente, pede desculpa aos espanhóis pela sua furtiva caçada africana em tempos de austeridade castelhana. Para lá das portas do palácio da Moncloa, promete à rainha Sofia que, com ou sem austeridade, acabaram as suas aventuras com as amazonas baronesas.
Este caso propôe à meditação um novo tipo de relações entre a aristocracia, o desporto da caça e estes tempos de austeridade.
As medidas de austeridade na Europa e o que se passou no Botswana, entre as casacas escarlates espanholas, simbas e um elefante, abre, também, caminho a situações poderosamente espectaculares em Portugal.
De travesti em travesti, de país em país, estamos, nestes tempos de austeridade, em plena caça ao homem. Sobretudo aos europeus. Entre estes, a caça ao português é a mais poderosamente exótica. Porque, afinal, em vez do elefante, de pata grossa, tromba e dente gigantes, e um reformado, um desempregado, talvez mesmo um funcionário público português – a caça ao homem em Portugal é muito mais emocionante.
(dedicado ao meu amigo Quim «Pinga»)
2012, quinze de Agosto. Fora sombria a última noite em Arouca, mas o dia rompe claro e sem nevoeiro, somente com um ligeiro vento de nordeste que torna a manhã fresca. A linha do horizonte, desde o vale até ao alto da Freita, está nítida e luminosa. O trânsito começa o seu constante vai-e-vem. E, desde o nascer do sol, sucedem-se transeuntes nas ruas, vestidos a condizer para dia de feriado religioso. A autarquia aproveita a ocasião para inaugurar o regenerado centro histórico da vila de Arouca. Nessa direcção, por volta das nove e meia, sai dos paços do concelho, com pompa e circunstância, um cortejo de gente: músicos e instrumentos, crianças e velinhas, padres e doutores da Igreja, empresários e executivos de todos os matizes, gente importante e povo anónimo. À cabeça do desfile, avenida abaixo, estreando calçada nova, seguem com paramentos e gravatas que mais parecem votos, o presidente da câmara e os restantes autarcas, um ministro do governo e um cardeal italiano em representação da Santa Sé. Deveras encantado, este caminha com o Pinga pendurado na sua batina vermelha
- Mio Dio, come tutti è bello!
- É. . .é. . .é. . .Pimenta!
- O que é que eles estão para aí a dizer? – pergunta, curioso, o ministro Paulo Portas ao presidente.
- O cardeal está a dizer como tudo é belo, enquanto o Pinga lhe explica, à maneira dele, que isto foi feito pelo Pimenta, o empreiteiro das obras – traduz o autarca satisfeito, pelo elogio e por descobrir quanto pesca melhor, em matéria de línguas, do que o ministro dos Negócios Estrangeiros.
Bruscamente, no preciso momento em que, às ordens da batuta do maestro, a multidão estanca e a banda se prepara para os primeiros acordes no novíssimo anfiteatro – substituto da antiga praça – ouve-se um horrível ruído subterrâneo, semelhante a um bramido de terra ou a longínquos tiros de canhão.
- Só quem mora no convento, é que sabe o que lá vai dentro!
Ia começar uma crónica centrada no convento, depois logo se via o que isto ia dar, mas a praça bem perto, mudou-me a direcção da esferográfica. Tinha aqui à mão o Nuno Brito, a quem fui visitar à sua casa junto à praça. O caminho do texto seria sobre o que faláramos ali, à janela, enquanto íamos olhando para o Convento: Fátima, exorcismos, Heidegger, Lili Caneças (não lembra ao diabo, mas lembrou-se ele), das antigas namoradas, e fazíamos intenção de seguir por aí fora, se ele não fosse interrompido pelo toque do telemóvel, que acabou por o levar dali por uns instantes.
Guardei a conversa a manhã inteira para a enfiar no papel e eis, afinal, o que conservo: o que me aparece, já depois da saída repentina do Nuno, é o alvoroço no seio de um grupo de pessoas lá em baixo na Praça Brandão Vasconcelos, olhando para o chão com ar preocupado, cuja terra revolvida parece atingida por um achado estranho
- Senhor Presidente, acabámos de descobrir este esqueleto humano. Afinal, a existência aqui de um antigo cemitério, não é nenhum mito nem nunca foi trasladado!
Ante o grupo o presidente parece sonhar com um dilúvio de fantasmas. Fala, enquanto estende os seus acesos braços para o ar
- Mito ou não, esta coisa de esqueletos já é um autêntico pesadelo a assombrar-me dia e noite!
A partir de certa altura, um dos arqueólogos baixa-se para apanhar um alfinete de mortalha junto ao esqueleto. Um outro colega apalpa-o, respira-o. Parece estar ouvindo o cadáver. Os dois cientistas são quem tenta lavrar o seu sentido. Mas é o padre – também presente – quem expande a sua vigília
- Seja como for, trata-se de um defunto. Assim sendo, por mais antigo que seja, estamos a falar de um cristão que terá tido nome e família. . .
e o padre a aumentar o pulsar daquela existência humana como se o cadáver resistisse ainda ao longo acorde do tempo. Os arqueólogos concordam
- Absolutamente. Há que saber quem é e a quem pertence!
mas o presidente, com os azeites e voltando a estender para o céu os acesos braços, não estava, para aí, virado
- Quero lá saber se é Zé ou Manel, até podia ser o D. Fuas Roupinho! Nesta terra só importa um nome – Progresso! Portanto, também não é este tipo que vai parar as obras nesta praça!
e, novamente, voltou-se a ouvir o ruído das máquinas a abalar o chão da velha praça. Neste efeito, o esqueleto estremece, ou por causa das máquinas ou porque se afadigou a escutar os comentários daqueles homens no seu ouvido. Seja como for, lá sentiu que não havia modo de arranjar sossego. É aqui que começa, de repente, o calafrio generalizado: no instante do estremecimento do cadáver, este libertou-se da sua sepultura e, olhando, olhando a luz, rugiu mesmo
- Outra vez a vida!
É aí, então, que eu (ó pernas para que te quero) fujo dali a sete pés, enquanto dentro de mim aquele zombie ou lá o que era (sem que me apercebesse de início, nem ainda hoje), aumentava, precisava-se, tornando-se real, com carne e cheiro e vida e alma. Sossegado, sossegado, só minutos depois de me fechar em casa, onde a minha mulher, segurando-me com as palmas abertas, lá ia procurando acalmar-me
- Ó homem, estás branco como a cal, até parece que viste um fantasma!
Sinceramente, custando-me confessar que estive a ponto de chorar pela vida de um esqueleto, só lhe disse então o que, hoje, vos afirmo
– Só quem mora na praça, é que sabe o que lá se passa!
Meu Portugal, minha pátria, para onde te levaram?
Sarcástica Europa para onde atiraste o teu mais ocidental bocado,
e o afastaste do mar e o adentraste na terra de bárbaros?
Para onde levaste o meu país?
Por que lhe proíbes assim praias e mar,
por que o aprisionas em cobiças alheias, porventura a mais alemã,
por que lhe impedes a fama das tempestades do Atlântico?
(As que só ele soube enfrentar e a única que lhe é merecida).
Meu Portugal, minha pátria, onde te enfiaram?
Onde meteram os teus versos que falam em partir e voltar?
Por que te negaram a rota do teu destino?
Meu país, como é que te deixaste levar assim?
A gente tem um pedaço de destino que não podemos partilhar.
Destino, agora onde me queres levar?
Dia 27 de Fevereiro, 8 horas, as notícias do país embaraçam-me ao acordar: «Em Portugal existe um milhão e meio de desempregados», «Taxas de IRS de 2012 são excessivas», «O frigorífico das famílias está cada vez mais vazio»,
«Os talhos estão a fechar», «Em cada mês, mil e quinhentas empresas tornam-se insolventes», «100 mil portugueses com os ordenados penhorados», «Diminuição de bolsas: um em quatro alunos, abandonam universidade», «4 em 10 portugueses não gozam férias», «Ourives baleado em assalto», «Cardeal apela à fidelidade», «Adele vive em casa assombrada», «James em dúvida para o derby na Luz», ÚLTIMA HORA: «3.000 pessoas morreram em Portugal nos últimos dois meses». Estas notícias são seguidas, depois, por gráficos e análises, oriundos dos mais variados quadrantes. Há quem seja mais optimista e há quem sofra do mais completo pessimismo. Entre uns e outros, fico eu sem pensar seja no que for, porque falam do que não me importa ou do que nunca me tinha sequer passado pela cabeça ou na certeza de que vivo noutra dimensão àquela hora da manhã. É então que, ao sair de casa, só me vem à cabeça aquela velha frase
- Sepultados os mortos, só falta tratar os vivos!
Ainda no mesmo dia, mas já adiante nas 14 horas, compro cigarros, bebo café e um pirilau e, como de costume, verifico o registo dos óbitos locais nas fotografias depositadas na vitrina do Arouquense. Um amigo lembra-me que, hoje, é dia de nova reunião da Assembleia Municipal de Arouca. Dá-nos na veneta de ir até lá.
Quatro horas depois, as notícias daquela Assembleia fazem com que eu saia mais sossegado. Por lá, à excepção do piegas do costume, um eleito que, ao cabo de dois anos, ainda anda a reivindicar a colocação de semáforos frente à escola do Burgo, o consenso é geral entre os autarcas presentes, os da situação e os da oposição: «Finalmente, a variante é capaz de chegar. Ministro Paulo Portas empenha-se pessoalmente», «Ninguém passa por dificuldades em Arouca, os frigoríficos estão cheios e os talhos estão abertos», «A Câmara está rica, até se dá ao luxo de emprestar dinheiro ao Estado», «Aqui, o desemprego não existe», «Dívidas, por cá, também não há», «as águas nos rios seguem livres e transparentes», «fogos deixaram de existir», «Crimes, idem idem, aspas aspas», «há médicos de família para toda a gente», «O comércio, a agricultura e a indústria florescem», «Os arouquenses ainda gozam férias na praia», «Todos os alunos locais têm apoio social», «Os transportes escolares rolam pelas estradas», «O pároco deu missa no domingo e realiza serviços fúnebres todos os dias», «o F.C. de Arouca ganhou o último jogo fora e recupera na tabela». Chegando cá fora, sossegado e satisfeito, resolvidos que estão outros problemas locais, puxo de um SG Filtro e despeço-me do meu amigo, parafraseando ainda a mesma velha máxima
- Por aqui, sepultados os mortos, tratados estão os vivos!
Em menos de cinco minutos estou, novamente, na esplanada do Arouquense. Sento-me a uma mesa para fazer como os demais clientes: colocar-me de mirone às obras e aos seus camartelos que avançam rapidamente pela Avenida 25 de Abril acima e pela Praça Brandão Vasconcelos abaixo (que só um verde taipal com fotografias não deixa antever). Recebo, por esta via e pelos outros mirones, lições intensivas de arqueologia, de política, de
arquitectura. Sem falar nas lições de português; «Regeneração Urbana 2012», «Recuperar o Património», «Valorizar a Cultura», «Preservar a memória», «Apostar na modernidade», etc… entraram no vocabulário corrente de todos os mirones, que afirmam amar a sua Terra e a sua História. È o caso de um jovem que, deveras entusiasmado por Arouca se estar a transformar num imenso estaleiro, faz questão mesmo de me exibir tamanha raridade nacional, através de uma extraordinária fotografia. Temos, então, na foto, a pá de uma buldozer, essa para lá do verde taipal, entregue, por razões de empreitada, aos cuidados de um homem e de uma mulher, escavando toda a antiga praça enquanto, simultaneamente, se reconhece um esqueleto, meio desenterrado no chão, dando-nos a súbita ideia que se quer levantar, para se pôr rapidamente na alheta dali. De repente, não sei porquê, lá me vem à carga a mania de parafrasear a mesma frase matinal Leia o resto deste artigo »
Uma meia dúzia de professores pergunta-se: «O próximo sábado, descemos a Avenida, na manifestação da Administração Pública?»
O grupo sabe que, a cada nova manifestação, são sempre os mesmos a palmilhar o caminho de Arouca até Lisboa. É o caminho da indignação que, mais uma vez, sai à rua, ainda que aqueles funcionários que não saíram de casa estejam igualmente indignados, justamente porque o espectro do desemprego, os cortes nos salários, nas indemnizações, nos subsídios de Natal e férias, tanto atingem os que ficam como os que vão até à capital.
Diz o Francisco (dirigente sindical) que esta indignação é irmã dos que se amontoam nos Centros de Emprego ou dos que dormem sem abrigo – são os mesmos olhares que, em todos os lares, denunciam o roubo e a barbárie nacional. Leia o resto deste artigo »
Alguém viu um palco a voar por aí?
Alguma alma penada terá, ao menos, chegado a arrepiar-se com o caso de um palco camarário – novinho em folha – entretanto destruído, numa noite destas, por um irado deus das águas e dos ventos?
Dito sem cerimónias: alguém deu por alguns milhares de euros dos contribuintes espandeirados pelo ar?
Quem tenha visto aquelas notas todas a voar ao deus-dará sem um estremecimento de coração, não merece senão o lado podre da economia.
Parece ser o caso do senhor presidente da C.M. de Arouca.
Daí que esta crónica tenha que ser lida, por ele, com uma calculadora e as próximas previsões metereológicas ao lado.
A puxar, então, o fio desta crónica temos um palco comprado e estreado, recentemente, pela Câmara Municipal com o objectivo de, ali, realizar os seus espectáculos. O primeiro foi a propósito da Feira das Colheitas. Já lá vai mais de um mês. Na semana passada, ainda no relento do parque de estacionamento do Estádio Municipal, continuavam escancarados sobre um estrado de madeira (15x15m), coberto por uma estrutura de alumínio forrada a acrílico, cerca de quarenta mil euros do erário público. Foi quanto custou o dito, que a câmara não desmontou e, entretanto, a tempestade levou.

(Crónica sobre uma lição comuna-arouquesa)
A noite era de Feira de Colheitas em Arouca. Estavam algumas dezenas de Arouquenses a festejar, mas também a ver. O cartaz tinha dois metros, as fotografias a preto e branco, a assinatura do PCP, proclamando-se numa palavra de ordem: «Mais debate, maior consenso. Porque não, senhor presidente?». Um forasteiro meteu-se pela praça, de braços estendidos, a berrar fanfarrão:
- Temos serviço para fazer em Arouca!
Quando chegou à beira do cartaz de dois metros rasgou-o de alto a baixo. Concluída a façanha, arrotou:
- Afinal já valeu a pena ter vindo a Arouca!
I
No prédio em frente há uma única luz acesa, madrugada alta. Dentro de casa, uma ventoinha está sempre a rodar.
Reparo muitas vezes nessa luz, a única luz acesa, já todas as televisões se apagaram, a vila toda dorme. Quem habitará a casa da luz tardia?
Uma vez por outra pressinto um vulto breve, fugidio. Há roupas de homem na corda junto à janela iluminada, mas é tão tarde.
Quem quer que ali viva não corre persianas para aconchegar a vigília ou o medo do escuro. A janela iluminada está aberta, o ar empurrado pela ventoinha embala as cortinas, um vulto breve cruza a sala, terá pousado na mesa de cabeceira um romance de cavalaria, terá estado a navegar na Internet?
Eu próprio saído da leitura labiríntica de um livro, mais três ou quatro horas e o despertador vai tocar, espreito a noite da rua e lá está a mesma única luz acesa, há-de estar ainda acesa quando o despertador tocar, às sete da manhã, a mesma única luz acesa no prédio em frente. E, de novo, pressentirei um vulto, os movimentos então mais apressados, provavelmente alguém que prepara uma nova jornada. Na rua, soam o fecho da portada do Arouquense, logo seguido de uns passos rápidos (para aí o Toninho ou o Zé Fontes), até que alguém põe em marcha um automóvel.
Finalmente, esta noite de Setembro, por volta das três da manhã quando, interrompido o meu labirinto literário, fui à cozinha fumar um cigarro e espreitei distraidamente para o luar no céu, lá estava a luz acesa. Lá estava, desta vez mais nítido, o vulto até agora indefinido, quase sempre pressentido. Agora nítido. A janela escancarada. O homem à janela, debruçado para a noite quente, sufocadamente quente, e uma leve impressão de o conhecer de qualquer lado. Reparo na fotografia que está na capa do meu livro. Olho para o homem pendurando mais roupa na corda. Eis quando, verificando a semelhança entre as duas caras, deixo soltar a voz no silêncio da noite
- Olha, é o mesmo tipo!
e fico a pensar cá dentro como é que é possível estar ali – o Nuno Brito.
II
Ali está o homem que pendura roupa numa corda. Aqui está o poeta que pendura a vida num livro.
E a coincidência espantosa desta criatura desconhecida, mas que é o principal alvo da minha reflexão literária desde há alguns dias, estar mesmo à minha frente em carne e osso.
Este é um momento importante para mim que comecei a filiar a minha admiração literária por Nuno Brito pela afinidade de uma simples frase
- Não sou um escritor, sou um navio!
o que foi suficiente para fazer-me sentar, ao longo deste tempo, também numa cadeira de baloiço, no convés desse navio.
Acabaram-se os três dias da Festa do Avante, é segunda-feira e ressaco. Não apenas copos: ressaco lembranças, o show do Cais Sodré Cabaret, sobretudo as camaradas Lolita e Scarlet, os encontros com amigos do peito, música, conversas, um tipo a promover inquéritos malucos a transeuntes embasbacados (acho que era o Tadeu, mas não é para dizer a ninguém), o deixar-me ir sem nexo entre a multidão, os petiscos de ocasião por aqui e por acolá. Recuso a ideia de que a festa já acabou, preciso ainda dos seus gestos, da alegria e da doçura daquela imensa massa de gente, deitar-me no chão e sonhar acordado com a impressão de estar a renascer. Ressaco das discussões políticas de estalinistas e troskistas com a sua própria sombra. Ressaco dos camaradas do Barreiro: o Lenine (juro que não é alcunha, chama-se mesmo assim) e o Zé Nunes, de camisa sempre aberta, peito feito contando histórias incríveis, umas atrás das outras, mas todas elas com o mesmo final
- Isto não tem piada nenhuma, mas eu adoro isto!
A força da razão
Primeira imagem: rostos de pessoas. Pessoas com pessoas. Pessoas em defesa dos seus rios – o Urtigosa e o Arda. Estes rostos não hão-de merecer logo à noite abertura de telejornais não obstante poderem dizer-nos coisas tremendas. São rostos sensíveis: à Cultura, à Natureza, à sua Terra. Eles mostram-nos como se luta bravamente contra a mais perigosa das abstenções – a abdicação do sentido de comunidade.
Sou de um tempo em que a criação artística, a animação recreativa ou desportiva, a defesa do património e do ambiente – enfim, a cultura! – só nos chegava pela carolice de uns tantos.
Hoje, muita coisa mudou!
O consumo cultural mais possível é o dos hipermercados e dos poligrupos. A arte mais fácil é a dos circuitos oficiais e comerciais, patrocinada pelas grandes empresas. A animação mais viável faz-se a partir do interior dos departamentos do Estado e da Câmara, com os seus subsídios. A defesa do património ou do ambiente está entregue a gestores e instituições profissionais, mas distantes do terreno e das realidades locais.. A “co-produção” a vários carrinhos é meio caminho para um êxito que, por via da propaganda, é sobretudo aparente.
À primeira vista, tudo parece dizer que as associações populares é chão que já deu uvas e são ao mesmo tempo o inverno do nosso (des)contentamento. Os produtos que nos oferecem não podem competir com os que o mercado nos propôe. As pessoas parecem adaptar-se à sua categoria de «clientes-utentes». . .
E, no entanto. . .
Pára-se em Rossas e vê-se que a cultura e a defesa do ambiente não é uma flor de lapela, mas o crescimento colectivo da população, onde uma associação – a UrtiArda – conjuga vontades e funções, desde a pesca ao repovoamento do rio, desde o lazer à limpeza dos rios.
Na Associação UrtiArda, trata-se tudo com cuidado.
E gasta-se tempo e energia a lutar contra as crescentes agressões. É o caso do lixo! Leia o resto deste artigo »
Ao lado deste texto, duas fotografias captadas pelo flash da máquina de Carlos Pinho, dialogam sobre os valores da vida humana, do meio ambiente e da religião.
Ambas nos mostram a velha capelinha de Ponte de Telhe.
Confuso? Na justa medida. É que, nas duas fotografias, a velha capelinha está e não está.
Numa imagem, um enorme guindaste fixa-se apenas a uma pisada deixada no chão, dando ares de autor da obra que colocou fim à existência da antiga capela naquele lugar: o aparecimento de mais irmãos reclama a construção de uma nova igreja. Mais moderna, com mais lugares. Daí que a antiquíssima capela fosse abaixo sob a égide de todos os poderes temporais e fabriqueiros.
Na outra imagem, apenas o entulho da capelinha, entretanto transladada para outro lugar. De cima abaixo, aí a temos, disposta em cascata por uma encosta, a que só o rio Paivô consegue travar o passo.
As duas fotografias podem ser olhadas como ilustração de um manual sobre danos e más práticas ambientais no Arouca Geopark, mas não dispensam um juízo moral, o pai de todas as lendas.
Daqui a um século, um novo Herculano escreverá certamente a lenda da capelinha de Ponte de Telhe. Leia o resto deste artigo »
Estou a escrever esta crónica à meia-noite de domingo para segunda-feira. Quando alguém ler isto, Artur Neves já estará de volta ao seu lugar na Câmara e à mesma borda da variante. Ali mesmo – em Tropeço. Ali, no mesmíssimo sítio, onde há um ror de anos, a variante tropeçou e, por lá, a deixaram.
Corro, assim, os olhos como garças pelo vasto vale e é daí que venho para vos dizer, comovido e desinteressadamente, que, por aqui, nada mexe. Isto é, o país stop continua stop, a autarquia continua envolta em nuvem de gás paralisante e a variante continua presa, ao seu décimo quilómetro, com cola-tudo. . . Ou seja, está tudo na mesma!
Pelo menos, tudo igual à semana em que Artur Neves apareceu a despedir-se pela televisão, com o perfil de um deus grego, rolando pela variante ao volante do seu VOLVO, em direcção à capital, ao mesmo tempo que brindava os jornalistas com um temeroso desabafo: «Vou a Lisboa e só regresso com a variante no bolso ou quando o governo voltar aqui para dar o dito por não dito aos Arouquenses». Leia o resto deste artigo »
Ontem e hoje passaram por Lisboa, no Parque das Nações, muitos senhores da guerra, mesmo alguns políticos portugueses. Todos tiveram o cuidado de não olhar muito para a cidade e para os seus habitantes, sobretudo para não terem o precalço de caírem no meio de algum grupo de cidadãos – nunca se sabe! Durante dois dias inteiros, milhares de agentes policiais e militares mantiveram vários locais da capital limpos e desimpedidos, observando atentamente tudo e todos, até as folhas das árvores que caem neste outono suave e limpando mesmo cuidadosamente o cocó dos cachorrinhos dos utentes privilegiados daquele espaço. Leia o resto deste artigo »
Meu caro Brandão, Brandão, Brandão, Brandão, Brandão de Vasconcelos
Dos factos mais notáveis do ministério de Artur Neves, certamente o mais lamentável para V. Senhoria, mesmo já não se encontrando entre nós, por merecido descanso – mais lamentável para todos nós do que a expulsão para árabes, castelhanos e monarcas de todos os matizes – será, sem dúvida, a reedificação da praça a que o povo, reconhecidamente, baptizou com seu nome.
Um passeio pelas ruínas de Úlisses, amparado ao pau ferrado das excursões difficeis, seria hoje, para os investigadores, para os estudiosos, e mesmo para a simples curiosidade dos touristes, muito mais agradavel, por certo, do que seguir o roteiro do futuro centro reconstruido da villa de Arouca, atravez da dita praça que o regedor planeia pelo proprio punho, muito funda, muito redonda, enfadonhamente semelhante, irritantemente monotona; despida do chafariz e apanhando degraus; ladeada por vias de transito únicas muito obliquas, muito exactas, que formam quarteirões iguaes a iguaes distancias, systematicos, cabeçudos, embirrentos, todos feitos por medida, cortados todos com profundo respeito da esquadria, obedecendo em geral a um implacavel rigor architectonico que lembra os rigores do Tribunal de Inconfidencia, e o sobr’olho carregado do rigoroso Artur Neves. Leia o resto deste artigo »
A estes ninguém os meteu em autocarros. A estes ninguém os levou ao toque das cornetas publicitárias.
São aos milhões e foram eles que escreveram os cartazes, arranjaram as bandeiras para os carros e varandas e correm para diante das tv’s.
Provam que a multidão pode ser um acto voluntário.
Provam que o entusiasmo pode ser um acto espontâneo.
A diferença entre a política e a sociologia chama-se Selecção Nacional de Futebol. Uma selecção que é o que é – indústria do músculo, fábrica de chutos, catedral de golos, montra de artistas – e mais aquilo que nada mais consegue unir.
A selecção foi inventada para substituir a Política.
Agora, que a Política quer regressar, encontra o lugar tomado. Milhões de lugares tomados.
Quem vai ao mar perde o lugar! Leia o resto deste artigo »
Conheci-te já lá vão uns 20 anos. Em Viseu. Ainda estavas longe do jogo inútil da fama e das hierarquias. Eu e mais alguns jovens camaradas, víamos-te como escritor, marginalizado e sem pensar no seu motivo. O motivo, todos o sabíamos, seria a tua militância no Partido Comunista Português.
Aceitaras o nosso convite para falares do teu mais recente livro. Naquela altura, ainda te publicavam sentindo que a ninguém roubava ou estorvava o ar dos teus livros.
Colocámos-te no centro do Rossio. No meio do silêncio e da gente. Diante do abismo da vida e o juízo dos beirões. Vinhas do sul e trazias um espelho de transparências livres e uma secreta herança de inteligência.
Como se fosse hoje, lembro-me desse teu rosto tatuado de grave intensidade, projectando os olhos altivos de uma estirpe – marcadamente severa, abandonada. E que talvez melhor do que ninguém, dá lucidez e força, emoção e caminho.
Muitos leitores e aspirantes a escritores, cada vez mais jovens, foram ocupando as cadeiras da esplanada que improvisaramos na praça. Ali chegavam de latitudes diferentes dos comunistas, com o único propósito de aprender o teu rigor.
Prontamente, começaste a usar palavras violentas, que abriam uma clara vertigem escondida. E, da tua boca, surgiam frases com movimentos lentos que estalavam na mente, com fulgor de beleza. Personagens solares como sorrisos resgatados de «Levantados do Chão», «O ano da morte de Ricardo Reis», «Memorial do Convento». Ou reflexões políticas que penetravam com um punhal de espanto em pleno cavaquistão. Estranhas histórias que passavam do mistério ao silêncio e que tu, descobrindo o seu sangue prisioneiro, transformavas depois em outras coisas que povoavam sonhos e visões que poucos puderiam entrever. Leia o resto deste artigo »







