Uma Década de Provas de Aferição – um balanço

Passada a primeira década, que balanço fazemos das provas de aferição? Para que servem?

O que se pretende medir, avaliar?

A última questão despoleta inúmeros equívocos. Supostamente o objectivo seria avaliar o sistema educativo, fornecer informação sobre o nível de aquisição das competências de ciclo e, dessa forma, promover as afinações necessárias à prossecução desse objectivo. Seria. Não parece ser.

Desde logo se questiona o método: uma prova escrita cujo tipo de enunciado e tempo de execução têm variado ao longo da experiência, aplicada a todos os alunos no 4º e 6º anos de escolaridade. A regra, nos outros países da OCDE, é a amostra representativa, só uma pequena parte dos alunos fazem as provas se aferição. Ironicamente, os únicos dados disponíveis sobre a aquisição de competências específicas desenvolvidas pelos alunos em Língua Portuguesa, no Ensino Básico, foram obtidos a partir de uma amostra representativa de 4600 alunos e constam do PISA 2000, da responsabilidade da OCDE. Se o lema fosse, fazer melhor com menos recursos, não poderíamos fazer pior. Dez anos e mais de um milhão de provas depois, sabemos que a coisa vai, só resta saber para onde. Continua a haver quem pense que serve para avaliar os alunos, e não serve. Os professores interiorizaram a responsabilidade pelos resultados, principalmente após o desvario do modelo de avaliação de desempenho docente, e, objectivamente, adequam o seu trabalho em função da prova. No fim da linha insiste-se muito numa determinada forma de aplicação dos critérios de avaliação, no sentido de conseguir melhores resultados. Se olharmos para os resultados, por si só, ficamos todos contentes, ou quase todos, o que não admira pois, de uma maneira ou doutra, torcemos todos para o mesmo lado. Os professores treinam os alunos, os alunos habituam-se, os classificadores são treinados para adivinharem excelsas intenções onde há algaraviadas e gatafunhos e, após esotérico processo de conversão de códigos em valores numéricos, os resultados chegam às escolas, cada vez melhores. Ensinamos melhor? Aprendemos a ler e escrever melhor? O serviço nacional de educação forma cidadãos de pleno direito, capazes de ler as linhas com que os “cozem”? Duvido.

Se não servem para avaliar os professores nem os alunos, porque não se opta por medir por amostragem? Seria menos dispendioso e menos pernicioso. Porque se enviam os resultados para as escolas, por turmas? Porque não se define um modelo de prova que permita comparar resultados de diferentes anos? Porque não se desfazem todos estes equívocos?

Passada esta primeira década de vida das provas de aferição podemos concluir que estas servem para caucionar a benevolência do sistema educativo português – os resultados têm melhorado nos últimos anos – apesar de persistirem sérias dúvidas quanto à real eficácia de todo o processo inerente.

Está tudo bem, só desconhecemos como e porquê.

Tadeu Saavedra  Andrade