Meu caro Brandão, Brandão, Brandão, Brandão, Brandão de Vasconcelos

Dos factos mais notáveis do ministério de Artur Neves, certamente o mais lamentável para V. Senhoria, mesmo já não se encontrando entre nós, por  merecido descanso – mais lamentável para todos nós do que a expulsão para árabes, castelhanos e monarcas de todos os matizes – será, sem dúvida, a reedificação da praça a que o povo, reconhecidamente, baptizou com seu nome.

Um passeio pelas ruínas de Úlisses, amparado ao pau ferrado das excursões difficeis, seria hoje, para os investigadores, para os estudiosos, e mesmo para a simples curiosidade dos touristes, muito mais agradavel, por certo, do que seguir o roteiro do futuro centro reconstruido da villa de Arouca, atravez da dita praça que o regedor planeia pelo proprio punho, muito funda, muito redonda, enfadonhamente semelhante, irritantemente monotona; despida do chafariz e apanhando degraus; ladeada por vias de transito únicas muito obliquas, muito exactas, que formam quarteirões iguaes a iguaes distancias, systematicos, cabeçudos, embirrentos, todos feitos por medida, cortados todos com profundo respeito da esquadria, obedecendo em geral a um implacavel rigor architectonico que lembra os rigores do Tribunal de Inconfidencia, e o sobr’olho carregado do rigoroso Artur Neves.  

A todos os respeitos, eram preferiveis as ruinas. Como Pompeia, o nosso centro histórico deveria ficar eternamente nos escombros das suas calçadas de marmores e granitos destruidos. Aos extrangeiros que nos visitassem, deveriam os cicerones, quando chegados frente do Mosteiro, recordar com grande cerimonial de phrases e paramentos ricos:

– «Foi d’ali – daquella praça -, que, ha para cima de trez seculos, homens e mulheres se vêm encontrando e juntando para defender as terras de Arouca e o bom nome de Portugal.»

E nunca:

– « É ali – naquelle buraco – que se acha installado o nosso pequeno anfiteatro que não serve para cousa allguma!.»

Mas não o entende assim o regedor Artur Neves. Grande ambicioso de glorias, sonhando já então a apotheose que terá, quer elle para si o emprehendimento de refazer, no centro da villa, a única e genuína História, que as mãos de gerações e gerações de Arouquenses ergueram.

A nossa villa vai perder, pois, todo o caracter pittoresco que incontestavelmente possue, e vai tornar-se grotesca.

E a gente da villa, porque o seu meio de todo se altera, terá de modificar-se tambem, e submetter-se ao natural phenomeno da adaptação. O Arouquense sempre possue um singular espirito de parodia, mas se lhe despertam a cubiça do novo-riquismo, a par de um espirito nada inventivo, não tarda muito aó o temos a perder a originalidade nativa e a abusar de neologismos burlescos no vestuario, na phrase, nos costumes. . .

D’antes era honesto, trabalhador, economico, regrado, jovial; divertido, mas pacato; folgazão, mas comedido. Agora, porém, o regedor quer transformá-lo por completo, fazendo-o em ralaço, desregrando-o ao ponto de, não pagando dividas velhas e deixando envelhecer as novas, vá de dispender 2 milhões de coroas com o estrago.

Haveria uma palavra genuinamente arouquense, que V. Senhoria adjectivava hoje com grande propriedade o estado de metamorphose em que este largo se  transformará: – Pelintra. . .!

Meu caro Brandão, Brandão, Brandão, Brandão, Brandão de Vasconcelos

Termino, em jeito de despedida, registando para memória futura este último momento, vivido por mim na sua bella praça que, a esta hora, ainda nos faz lembrar um pouco aquella extraordinaria festa da Implantação da República em que o povo saúda, em redor do seu chafariz donde se avista a aurora, o grande sol que para ele renasce, ao fim d’uma noite que durou séculos. . .O sol, o grande sol! Assomando à varanda da Freita, magnificente, bello, dardejante, em pleno tirumpho, lançando à turba que em baixo se agglomera e lhe canta victoria, mãos-cheias d’oiro, desperdicios regios, que os pobres e os ricos e os remediados podem colher, com igual direito . . .

Porque o sol é grande, imparcial, generoso, e quando nasce, quando de lá surge, vigoram sobre a terra comunismos de luz: o sol é para todos!

Muy respeitosamente

Álvaro Couto

Ver também: “A PRAÇA

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