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Face à anunciada «retoma das negociações directas» entre Israel e a Autoridade Palestiniana, às circunstâncias que rodeiam o seu início e ao quadro em que terão lugar, torna-se imperioso desmontar o que configura vir a ser mais uma operação de branqueamento das responsabilidades de Israel e dos EUA no drama que vive o povo palestiniano.

A «convite» da administração Obama realizar-se-á em Washington, a 1 e 2 de Setembro, um conjunto de reuniões e encontros cujo objectivo apontado é o reinício do processo negocial e a conclusão de um acordo dentro de um ano.

Israel regozijou-se pelo facto de as negociações se iniciarem sem o estabelecimento de condições prévias, o que significa a imposição de facto da cobertura e impunidade dos seus crimes contra o povo palestiniano e do seu desrespeito pelo direito internacional. Aliás, mal conhecida a resposta da Autoridade Palestiniana, Israel começou logo a enunciar condições que mais não visam do que possibilitar e «estatuir» a continuidade da ocupação e da ilegalidade.

As negociações «mediadas» pelos EUA arrastam-se, pelo menos, desde 1993, quando foram estabelecidos os Acordos de Oslo, já de si dolorosos para os palestinianos. Desde então têm-se sucedido múltiplas iniciativas e propostas, cada vez mais desviadas do estabelecido no direito internacional, apresentadas pelas sucessivas administrações norte-americanas. Ao longo deste processo, Israel tem desrespeitado todos os compromissos assumidos e tentado impor – facto consumado após facto consumado, ilegalidade após ilegalidade, crime após crime – mais duras e inaceitáveis concessões e compromissos ao povo palestiniano, a que este tem respondido com a sua heróica e firme resistência.

Aliás, só pode ser um exercício de pura hipocrisia e intrujice por parte dos EUA – agora liderado pela administração Obama –, arvorar-se ou tentar apresentar-se como «mediador» de um conflito pelo qual é cúmplice e responsável.

É com a administração Obama que se eleva a um nível «sem precedentes» a assistência militar norte-americana a Israel, que é o principal beneficiário do «Programa de Financiamento Militar Exterior» dos EUA, recebendo anualmente mais de metade dos 5 mil milhões de dólares deste fundo, que é actualmente dirigido a 70 países. Em 2010, a administração Obama fornecerá a maior assistência militar alguma vez prestada pelos EUA a Israel, cerca de 2,775 mil milhões de dólares.

Para 2011, a administração Obama propôs já cerca de 3 mil milhões de dólares de apoio militar a Israel (a que se deverá acrescentar, por exemplo, mais 205 milhões de dólares para o desenvolvimento e instalação de sistemas míssil), cumprindo um acordo de fornecimento de cerca 30 mil milhões de dólares em assistência militar, durante 10 anos. Os meios que, afinal, permitem a Israel ameaçar, chantagear e oprimir no Médio Oriente e ser um «aliado vital» e um pilar da estratégia de ingerência e de domínio dos EUA nesta região.

É igualmente pela mão da administração Obama que se realizaram, em 2010, as maiores manobras militares conjuntas entre os EUA e Israel e que foi, uma vez mais, impossibilitada a condenação de Israel pela sua agressão à frota que transportava ajuda humanitária para a bloqueada população palestiniana na Faixa de Gaza.

É por isso que é momento de reafirmar a solidariedade para com a luta do povo palestiniano e que uma solução justa, e por isso duradoura, para o conflito no Médio Oriente terá que passar pelo respeito do inalienável direito do povo palestiniano a um Estado soberano, viável e independente, nos territórios ocupados em 1967, com capital em Jerusalém, e o respeito das resoluções das Nações Unidas.

In Avante de 26/08/2010

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