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Estou a escrever esta crónica à meia-noite de domingo para segunda-feira. Quando alguém ler isto, Artur Neves já estará de volta ao seu lugar na Câmara e à mesma borda da variante. Ali mesmo – em Tropeço. Ali, no mesmíssimo sítio, onde há um ror de anos, a variante tropeçou e, por lá, a deixaram.

Corro, assim, os olhos como garças pelo vasto vale e é daí que venho para vos dizer, comovido e desinteressadamente, que, por aqui, nada mexe. Isto é, o país stop continua stop, a autarquia continua envolta em nuvem de gás paralisante e a variante continua presa, ao seu décimo quilómetro, com cola-tudo. . . Ou seja, está tudo na mesma!

Pelo menos, tudo igual à semana em que Artur Neves apareceu a despedir-se pela televisão, com o perfil de um deus grego, rolando pela variante ao volante do seu VOLVO, em direcção à capital, ao mesmo tempo que brindava os jornalistas com um temeroso desabafo: «Vou a Lisboa e só regresso com a variante no bolso ou quando o governo voltar aqui para dar o dito por não dito aos Arouquenses».Antigamente as coisas resolviam-se assim. Agredido na sua auto-estima, agora é Artur Neves a abrir, assim, o armário dos jogos da antiga Roma. Qual Pompeio, apanhado de surpresa, como um cônsul, como um enviado dos confins do império, também ele vai espadeirar tudo e todos na capital. Eis o homem que vai dar uma lição ao imperador Sócrates. Sim, esse mesmo que, agora, mandou às urtigas as promessas feitas, entretanto. Como os tempos são outros e as armas um pouco mais modernas, Artur Neves primeiro tenta manietar Sócrates na câmara de tortura, que é a nossa TV. Agora, queira ou não, Sócrates terá que o enfrentar, frente-a-frente, tendo a seu lado a sisudez do ministro das Obras Públicas. O tal, que ainda há uns tempos, era o mais prestável e falador em matéria de variantes.

Anota-se, o resignado desconforto do auto-suspenso presidente da Câmara relativamente aos actuais cortes orçamentais e à quebra da promessa eleitoral a que, ele e os seus camaradas de partido, se comprometeram, em Arouca, há pouco mais de um ano. A promessa da construção da variante, cuja quebra terá agitado os fígados a Artur Neves e o terá levado, agora, a desafiar Sócrates para um duelo à antiga, está registada em vídeo e é um dos mais saborosos capítulos do fogo-de-artifício verbal em redor da última campanha eleitoral autárquica.

Artur e Sócrates afirmam e reafirmam – Vota variante! Vota PS!

Sócrates move-se no palco com o perfil hierático das estátuas. Muito se abana ele, segurando um pequeno papel, com apenas dois dos dedos da sua mão direita. Cercado pelos jovens aspirantes a centuriões, parece transportado por uma invisível quadriga. O sorriso despido de afecto. Mas discursa direito ao encontro do coração dos Arouquenses, sabendo que é ali que lhes tomará conta dos votos: «só as novas acessibilidades, que iremos construir se ganharmos as eleições, poderão dar a conhecer a todos os Portugueses uma das mais belas terras de Portugal – Arouca!». Artur Neves está, em biquinhos de pé que não escondem a petulância, no centro do palco, batendo palmas com as mãos muito esticadas e um sorriso de orelha a orelha. Sócrates que, por um momento suspendera o seu abano, cruza agora os braços sobre o peito, tem o ar de um estóico em êxtase. Já arrumou os adeptos socialistas – e, não só – com a promessa de uma mala cheia de milhões para as necessárias e urgentes acessibilidades locais. Artur Neves não deixa de sucumbir a tantos milhões. Não pode, agora, atalhar o passo. Também discursa, indo ao encontro de Sócrates. Este volta a abanar-se. O suor corre no rosto de Artur Neves, quando dirigindo-se ainda aos notáveis, quase meia-hora depois, já em silêncio, lhes estende a mão, determinado. A mão de Artur Neves aperta a de Sócrates. A de Sócrates, fria como bronze, aperta a de Artur neves, o polegar virado para baixo. Maria de Belém aplaude. O povo, lá abaixo, exulta. Artur Neves ainda não sabe que não há nenhuma mala com milhões, nem variante alguma. Nota-se, no entanto, na rigidez facial com que Sócrates se despede de Arouca, um leve rubor. Daí que, ao sair daqui, ainda ele se continue a abanar, com aquele papelinho, o qual vai segurando com, apenas, dois dos dedos da sua mão direita.

Na campanha eleitoral autárquica em Arouca, a coisa esteve por uma unha negra ou pelo calor na pele da face? É claro que as promessas eleitorais são mais antigas, vastas e complexas que a tez das unhas e da face. Mas por alguma razão, a tez dos candidatos se transformou numa espécie de barómetro em andamento.  Não há candidato, abanando-se ou não, que dispense a sua promessa eleitoral misturada com abraços, elogios e beijos repenicados com cheiros a coentros. Mas não é este (o abano) o melhor dos ingredientes para manter fresca e limpa a pele de um candidato. Os esteticistas dizem que há truques mais fáceis e baratos para manter a frescura e limpeza de pele, com que Sócrates arrebatou o coração dos Arouquenses: mel e água, por exemplo. Mel espalhado no rosto, durante quinze minutos, e depois água fria.

Neste ponto da crónica a água fria pode ser a metáfora para o regresso à realidade pura e dura. Mas o que é a realidade pura e dura?  Sabe-se que a esta questão transporta um problema inultrapassável: não foi ainda testada a tez da vergonha na cara. E a tez da vergonha é, sem dúvida, a máscara mais abanada por um candidato aldrabão. A máscara da vergonha com que os candidatos são submetidos à decisiva prova de fogo: como manter a sedução, falando da beleza de uma terra, da importância das acessibilidades e, simultaneamente, da verdade sobre as opções económicas do regime em favor dos banqueiros?

Ainda há dias, alguns trabalhadores locais foram despedidos por sms, não obstante o tremendo abanão que levaram nas suas vidas, talvez só esta gente esteja em condições de nos dizer algo sobre a realidade pura e dura. Por palavras cheirando a urze e a fome, só mesmo poderiam explicar a Artur Neves que perjúrio é cada promessa eleitoral que fica por cumprir. E poderiam mostrar-lhe como se luta bravamente contra o mais perigoso dos gestos de um candidato ou de um patrão – o gesto de abanar todo e qualquer sentido de vergonha.

É tanto o que eles lhe poderiam mostrar e dizer – por sms.

Isto, por exemplo: «Caro presidente. Stop. Isto é mesmo um governo cão. Stop. Abana-se primeiro, ferra depois. Stop».

Álvaro Couto/PCP Arouca

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