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Enquanto Barack Obama continua a sua ridiculamente super-elogiada volta à Europa, o brilho dos média não consegue disfarçar a renovada ambição imperial dos agressores ocidentais da Líbia.

Quando a Grã-Bretanha perdeu o controlo sobre o Egipto em 1956, o primeiro-ministro Anthony Eden disse que queria o presidente nacionalista Gamal Abdel Nasser “destruído…assassinado. … e estou-me nas tintas se houver anarquia e caos no Egipto.” Esses árabes insolentes deviam ser lançados “no esgoto de onde nunca deviam ter saído”, foi também a recomendação de Churchill em 1951.

A linguagem do colonialismo pode ter-se modificado, mas o seu espírito e a sua hipocrisia são os mesmos. Está a desenrolar-se uma nova fase imperial em resposta directa ao levantamento árabe que tanto chocou Washington e a Europa, provocando um pânico idêntico ao de Eden. A perda do tirano egípcio Hosni Mubarak foi séria, ainda que não irrecuperável: está em curso uma contra-revolução apoiada pelos EUA, à medida que o regime militar do Cairo vai sendo seduzido com luvas e o poder muda das ruas para os grupos políticos que nem estiveram no início da revolução. O objectivo ocidental, como sempre, é acabar com a democracia autêntica e tomar o controlo.

Roubar e bombardear

A Líbia é a oportunidade à mão. O ataque da NATO, com o Conselho de Segurança da ONU encarregado de emitir um fraudulento mandato de “zona de exclusão aérea” a fim de “proteger civis”, é impressionantemente parecido com a destruição final da Jugoslávia em 1999. Não houve cobertura da ONU para o bombardeamento da Sérvia e “protecção” do Kosovo e contudo a propaganda ainda hoje tem efeitos. Como Slobodan Milosevic, Muammar al-Gaddafi é um “novo Hitler”, planeando o “genocídio” do seu povo. Nenhuma evidência existe disso, tal como não havia qualquer genocídio no Kosovo. Na Líbia, passa-se uma guerra civil tribal e o levantamento armado contra Gaddafi foi apropriado pelos EUA, franceses e britânicos, bombardeando com os seus aviões as zonas residenciais de Tripoli com mísseis de ponta de urânio e com o submarino HMS Triumph disparando Tomahawks, numa repetição da operação “choque e pavor” que no Iraque fez milhares de mortos e feridos civis. Tal como no Iraque, as vítimas incluindo um número incontável de soldados líbios incinerados são não-pessoas para os media.

No leste “rebelde”, o terror sobre os imigrantes africanos negros e seu assassínio não são notícia. A 22 de Maio, um artigo raro no Washington Post descrevia a repressão, o caos sem-lei e os esquadrões da morte nas “zonas libertadas”, exactamente enquanto a chefe da política externa da UE, Catherine Ashton, declarava ter encontrado simplesmente “grandes aspirações” e “qualidades de liderança”. A demonstrar tais qualidades, Mustafa Abdel Jalil, “o líder rebelde” e ministro da justiça de Gaddafi até Fevereiro, brindava assim: “Os nossos amigos . . . terão as melhores oportunidades nos futuros contratos na Líbia.” O leste tem a maior parte do petróleo da Líbia, as maiores reservas em África. Em Março, os rebeldes transferiram para Benghazi e sob orientação de especialistas estrangeiros o Banco Central da Líbia, instituição totalmente propriedade do Estado. Trata-se de algo sem precedentes. Entretanto, os EUA e a UE congelaram quase 100 M$ de fundos líbios, “a maior quantia alguma vez bloqueada” de acordo com declarações oficiais. É o maior roubo de bancos da História.

A elite francesa está entusiasmada com os roubos e os bombardeamentos. O projecto imperial de Nicolas Sarkozy é uma União Mediterrânica dominada por franceses que permitiria à França “regressar” às antigas colónias do norte de África e tirar partido de investimento privilegiado e de mão-de-obra barata. Gaddafi descreveu o plano Sarkozy como “um insulto” que nos “toma por parvos”. O governo Merkel em Berlim concordou, receando que o velho inimigo diminuísse a Alemanha na UE e absteve-se na votação do Conselho de Segurança sobre a Líbia. Tal como no ataque à Jugoslávia e na trapalhada do julgamento de Milosevic, o Tribunal Penal Internacional está a ser utilizado para perseguir Gaddafi enquanto as suas repetidas ofertas de cessar-fogo são ignoradas. Gaddafi é um Árabe Mau. O governo de David Cameron e o seu verborreico general supremo querem eliminar este Árabe Mau, da mesma forma que o governo de Obama liquidou um famoso Árabe Mau no Paquistão recentemente.

O príncipe real do Bahrain, por outro lado, é um Árabe Bom. Foi recebido calorosamente na Grã-Bretanha por Cameron a 19 de Maio, com sessão “photocall” à entrada do 10 da Downing Street. Em Março, o mesmo principe real chacinara manifestantes desarmados no seu país e autorizou forças sauditas a esmagar o movimento democrático do Bahrain. O governo Obama recompensou a Arábia saudita, um dos regimes mais repressivos do mundo, com um negócio de armas de 60 M$, o maior na história dos EUA. Os sauditas têm a maior parte do petróleo.
São os Árabes Melhores.

O assalto à Líbia, um crime à luz dos critérios de Nuremberg, é a 46ª “intervenção” militar da Grã-Bretanha no Médio-Oriente desde 1945. Tal como os seus parceiros imperiais, a Grã-Bretanha pretende controlar o petróleo da África. Cameron não é Eden, mas quase. Mesma escola. Mesmos valores. No pacote dos media, as palavras colonialismo e imperialismo já não se usam, por isso os cínicos e os crédulos podem celebrar a violência de Estado na sua forma menos desagradável.

Chaves do reino

Quando “Mr Hopey Changey” (nome que o grande humorista americano Ted Rall dá a Obama – N.T.: jogo de palavras aproximadamente traduzido por Sr. Esperança Mudança) é cortejado pela elite britânica e desencadeia nova e insuportável campanha, o reino anglo-americano do terror prossegue no Afeganistão e por todo o lado com o assassínio de pessoas por drones não tripulados, uma inovação americano-israelita acarinhada por Obama.

No registo das misérias impostas a outrem, desde prisões e julgamentos secretos, à perseguição de denunciantes, à criminalização dos dissidentes e ao encarceramento e empobrecimento do seu próprio povo, sobretudo negro, Obama é tão mau como foi George W Bush.

Os palestinianos percebem isto. Enquanto os seus jovens enfrentam corajosamente a violência do racismo israelita, guardando as chaves das casas roubadas de seus avós, nem sequer são incluídos por Mr Hopey Changey na lista dos povos do Médio-Oriente cuja libertação de há muito é devida. O que os oprimidos precisam, disse ele a 19 de Maio, é uma dose de “interesses americanos essenciais para eles”. Insulta-nos a todos.

Tradução: Jorge Vasconcelos

Publicado 26 de Maio 2011

in Diário.info

 

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