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Ao lado deste texto, duas fotografias captadas pelo flash da máquina de Carlos Pinho, dialogam sobre os valores da vida humana, do meio ambiente e da religião.

Ambas nos mostram a velha capelinha de Ponte de Telhe.

Confuso? Na justa medida. É que, nas duas fotografias, a velha capelinha está e não está.

Numa imagem, um enorme guindaste fixa-se apenas a uma pisada deixada no chão, dando ares de autor da obra que colocou fim à existência da antiga capela naquele lugar: o aparecimento de mais irmãos reclama a construção de uma nova igreja. Mais moderna, com mais lugares. Daí que a antiquíssima capela fosse abaixo sob a égide de todos os poderes temporais e fabriqueiros.

Na outra imagem, apenas o entulho da capelinha, entretanto transladada para outro lugar. De cima abaixo, aí a temos, disposta em cascata por uma encosta, a que só o rio Paivô consegue travar o passo.

As duas fotografias podem ser olhadas como ilustração de um manual sobre danos e más práticas ambientais no Arouca Geopark, mas não dispensam um juízo moral, o pai de todas as lendas.

Daqui a um século, um novo Herculano escreverá certamente a lenda da capelinha de Ponte de Telhe.

Por agora, não retenho senão o essencial de uma breve história humana, aquando da captação destas duas imagens, ocorrida a meio da tarde de sexta-feira passada.

Algures, na estrada entre Ponte de Telhe e Rio de Frades, um carro pára na berma. Dele, quatro homens saem e debruçam-se no monte, acautelando, diante da matéria da encosta, os delicados narizes. Entre eles o meu e o do já citado fotógrafo.

A matéria tresanda.

Em bom rigor, tresanda mais aos olhos e menos ao nariz.

E foi, à primeira vista, que me socorri do O’Neil: «Entrincheiram-se, hostis, os mil narizes que há neste país».

Francisco G. assoa-se e passa, também, à chamada matéria do dia, com um irónico comentário e uma inocente notinha de rodapé: “Eh pá, olhem para este novo geossítio. Tratando-se isto de uma igreja. . . aqui há que ter algum cuidado. . . pois tal coisa, certamente, deve ser de inspiração divina!”.

C.Pinho que ia puxando, sucessivamente, a culatra atrás à sua NiKon, a qual nos ajuda muito mais a ler o mundo do meio ambiente local do que que a eloquência de dez gestores encartados do Arouca Geopark, e sem descolar o olho da máquina, atira-lhe logo à segunda: «Meu caro, se assim fôr, então este é o 42º geossítio do Arouca Geopark. De facto, isto é divinal. . !»

Igualmente presente no alto da encosta, será o A. Óscar, um homem antigo, sereno e de fala contida,  feito aos grandes espaços, ao cheiro da terra, mas pouco dado a liturgias, que se encarrega de rematar o diálogo: «Divinal ???. . .  Só se forem as tuas fotografias! E tão divinas elas devem ser, que o melhor é mandá-las também para as divindades que, brevemente, estarão reunidas no congresso do Arouca Geopark. Pode ser que divulgem, assim, ao mundo este 42º geossítio! ».

Nunca fui capaz de explicar por que se tornou esse diálogo, de imediato, delírio em mim.

É que, de repente, não sei como, tenho á minha frente o senhor director do Arouca Geopark, promovendo as potencialidades turísticas do parque,e a dirigir-se a uma vasta plateia:

Ilustres congressistas, tenho a honra de vos anunciar a constituição do 42º geossítio no Arouca Geopark: uma espécie de Fátima com menos Vaticano e, até ver, nenhuma loja dos 300, entre Ponte de Telhe e Rio de Frades, em plena encosta do Paivô, com legendas e mapas de uma relíquia católica. Uma verdadeira lenda natural e cultural, meus senhores! Aqui, nesta encosta repleta de cascalho da velha capelinha de Ponte de Telhe, toda a nomenclatura do velho império, e os poderes temporais de todos os cultos ajoelharam diante de um Cristo que a morte não matou de vez, talvez porque ele esteja, simplesmente, dormindo. Assim, em nome da Ciência, autorizei-me a incluir na ordem de trabalhos deste Congresso a celebração de uma missa campal, como consagração científica ao mistério de uma autêntica Babel de destroços e de lixeira que, embora parecendo afrontar, à primeira vista, a ausência de fé e a dignidade da razão, representa antes a lenda da exaltação de Deus em confronto com a serenidade da morte. Assim, caros colegas, ilustres cientistas e estimados políticos, lado a lado, com os digníssimos senhores representantes da comissão fabriqueira, do senhor empreiteiro e do senhor padre da paróquia de Ponte de Telhe – oremos!

A missa corre, então, no que só mais adiante percebo ser um sonho.

Confuso? Na justa medida.

Talvez faça mesmo sentido que um Herculano de um século futuro registe a lenda.

E que lenda nos cantará o Herculano de um século futuro?

Desconfio que, daqui a um século, Herculano ainda encontrará Cristo no mesmo lugar de sempre: crucificado numa cruz (ou, neste caso, pelos braços de um qualquer guindaste amarelo), anos a fio esperando e chorando pela construção da sua nova capela – uma casa (clara e lavada) feita pelas mãos (claras e lavadas) dos homens!

Aí, certamente, teremos o futuro Herculano a cantar-nos a mesma lenda de sempre: a do triste paradoxo de um Cristo condenado a pregar, de novo, no deserto mas, também, a regressar a um mundo, entretanto, desaparecido. A um mundo depois do fim.

Até lá, que nos baste o poema de Sophia, onde as cidades de Cristo são claras e lavadas. O poema de Sophia podia ter nascido para convocar os futuros esquissos da gestão das lixeiras no Arouca Geopark:

«Sei que seria possível construir a forma justa/ de uma cidade humana que fosse fiel à perfeição do universo».

Álvaro Couto – PCP Arouca

14 de Junho de 2011

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