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A força da razão

Primeira imagem: rostos de pessoas. Pessoas com pessoas. Pessoas em defesa dos seus rios – o Urtigosa e o Arda. Estes rostos não hão-de merecer logo à noite abertura de telejornais não obstante poderem dizer-nos coisas tremendas. São rostos sensíveis: à Cultura, à Natureza, à sua Terra. Eles mostram-nos como se luta bravamente contra a mais perigosa das abstenções – a abdicação do sentido de comunidade.

Sou de um tempo em que a criação artística, a animação recreativa ou desportiva, a defesa do património e do ambiente – enfim, a cultura! – só nos chegava pela carolice de uns tantos.

Hoje, muita coisa mudou!

O  consumo cultural mais possível é o dos hipermercados e dos poligrupos. A arte mais fácil é a dos circuitos oficiais e comerciais, patrocinada pelas grandes empresas. A animação mais viável faz-se a partir do interior dos departamentos do Estado e da Câmara, com os seus subsídios. A defesa do património ou do ambiente está entregue a gestores e instituições profissionais, mas distantes do terreno e das realidades locais.. A “co-produção” a vários carrinhos é meio caminho para um êxito que, por via da propaganda, é sobretudo aparente.

À primeira vista, tudo parece dizer que as associações populares é chão que já deu uvas e são ao mesmo tempo o inverno do nosso (des)contentamento.  Os produtos que nos oferecem não podem competir com os que o mercado nos propôe. As pessoas parecem adaptar-se à sua categoria de «clientes-utentes». . .

E, no entanto. . .

Pára-se em Rossas e vê-se que a cultura e a defesa do ambiente não é uma flor de lapela, mas o crescimento colectivo da população, onde uma associação – a UrtiArda – conjuga vontades e funções, desde a pesca ao repovoamento do rio, desde o lazer à limpeza dos rios.

Na Associação UrtiArda, trata-se tudo com cuidado.

E gasta-se tempo e energia a lutar contra as crescentes agressões. É o caso do lixo!

Jornada de limpeza

Segunda imagem: princípio da manhã deste sábado, dois grupos de homens partem para mais um raid fluvial. As suas mãos carregam enormes sacos negros para a recolha de lixo. A ideia é fazer uma nova limpeza ao leito e às margens do Urtigosa.

Nesse dia, lá fui no grupo do Sr. Alcémio  – amável nome entre tanta amável gente! -, rio acima até à ponte; é aí que os dois grupos se juntarão no final da manhã, já com a Freita dominando a paisagem. Os quilómetros que nos restam são um convite à lenta caminhada pelo chão que é de cultivo, mas que a praga de tojos, de vez em quando, vai invadindo.

O senhor Alcémio e o Rui Pedro passam, pouco abaixo dos nossos pés, pelo lençol de água. Por agora eles remam com os pés neste mar de restolho, por aqui o rio é revolto, há, adiante dos seus pés, fugas de bogas e trutas.

Meio-dia neste vale ardente e cândido, quanta sacada de lixo! Ao cabo de algumas horas, afinal,  quanto fragor de tempo, quanta sede e ausência e desvario para ver e ouvir o Urtigosa, novamente, encadeante na sua beleza, para senti-lo vivo e tempestuoso tão dentro do sangue destes homens. Homens que regressam ao seu leito, à sua despida brisa, ao seu egrégio silêncio, como se quisessem permanentemente imune um dos últimos rios portugueses que ainda corre natural, livre, rebelde, da nascente até à foz, no Arda.

Através de um mandato da terra, o Urtigosa e o Arda vão assim fluindo entre diáfanos meandros humanos até, ao repartirem-se intactos no Douro, cumprirem um último destino: ser vida entre as vidas até unir o seu caudal ao mar nascente. Ali onde a morte é parte da vida, e o mar é o fim e o princípio, o tempo criador, a luz total de um Deus rebelde que desde sempre nos habita.

A razão da força

Terceira imagem: Julgo que o que une esta gente aos seus rios é este espírito rebelde. É, em suma, um conceito libertador do indíviduo pelo que tem de colectivo (na aprendizagem das coisas, na organização das pessoas, na difusão das ideias), uma cultura que é informação e transformação, intervenção no mundo.

Daí que, o individualismo redutor que impera nas grandes cidades ainda não os pôde riscar do viver rural.

Contar com as suas próprias forças (colectivas e individuais), fazer com as suas próprias mãos e cabeças (individuais e colectivas), ensaiar num pequeno lugar limitado uma pequena sociedade democrática, onde cada um tenta ser dono do seu próprio destino e onde, com a força da razão, se sente ou se torna um pequeno contrapoder à razão da força do Poder que limita as nossas ideias individuais – eis as grandes razões dessa ideia colectiva que são as associações – como a UrtiArda -, que têm reunido os habitantes e as utopias, ora em abrigos de espera, ora em quartéis-generais de decisivas batalhas, conforme os tempos.

Locais de aprendizagem, portanto. De pessoas com pessoas, como pessoas, não especializadas – na cultura oficial, na política de gabinete, na ciência neutra, no comércio do espectáculo. Limpas, na recusa da ideia de elite, mas não nas de vanguarda e, por isso mesmo, fornecedores de verdadeiras elites culturais (e políticas), para quem as práticas democráticas se tornaram banais e parte integrante de si.

Locais de combate à solidão, ao fatalismo e à impotência, portanto. Locais de felicidade e de prazer, de plenitude individual na sintonia e no desacordo com os outros, nas próprias lutas internas, mais esclarecedoras e formadoras do que os consensos. Locais de rupturas e cisões, pequenas e grandes, embriões de umas outras vidas que trazemos dentro das cabeças.

Outra coisa é certa: quem não quis (ou não pôde) conhecer isto, de perto ou de longe, quem conseguiu manter-se alheio às aventuras dos colectivos, dificilmente será um cidadão inteiro.

Porque tudo isto, afinal, é tão simples como um rio: quando não há leito, ou quando o leito que há não serve, as pessoas organizam-se com os seus saberes comuns para serem elas. Com maior ou menor consciência do que fazem, mudam de algum modo os espaços e os tempos. Ou seja, como os rios, abrem sempre lugar ao caminho.

Aqueles que ainda hoje encontram fortes razões, vontade que chegue, força que baste, para se associarem culturalmente contra o estabelecido têm a ideia colectiva de umas outras maneiras de viver. É essa a força da sua razão. E é essa a razão da sua força.

Trata-se, em suma, de um modo de viver que dispensa o perjúrio e as fanfarronadas dos presilheiros. Em contrapartida não abre telejornais. Mesmo que haja tanto para dizer.

 

Rossas, 9 de Julho

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