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Acabaram-se os três dias da Festa do Avante, é segunda-feira e ressaco. Não apenas copos: ressaco lembranças, o show do Cais Sodré Cabaret, sobretudo as camaradas Lolita e Scarlet, os encontros com amigos do peito, música, conversas, um tipo a promover inquéritos malucos a transeuntes embasbacados (acho que era o Tadeu, mas não é para dizer a ninguém), o deixar-me ir sem nexo entre a multidão, os petiscos de ocasião por aqui e por acolá. Recuso a ideia de que a festa já acabou, preciso ainda dos seus gestos, da alegria e da doçura daquela imensa massa de gente, deitar-me no chão e sonhar acordado com a impressão de estar a renascer. Ressaco das discussões políticas de estalinistas e troskistas com a sua própria sombra. Ressaco dos camaradas do Barreiro: o Lenine (juro que não é alcunha, chama-se mesmo assim) e o Zé Nunes, de camisa sempre aberta, peito feito contando histórias incríveis, umas atrás das outras, mas todas elas com o mesmo final

– Isto não tem piada nenhuma, mas eu adoro isto!

e a mão a poisar-nos no ombro, a aproveitar o clima entretanto gerado. Ressaco rostos anónimos, e eu curiosissimo deles. Ressaco do azul na baía do Seixal, de uma gaivota assustada por cima do palco 25 de Abril. Ressaco do aroma de café da Colômbia, do paladar do “Terras do Demo” em Viseu, dos mujjitos cubanos, das mornas cabo-verdianas, do leitão da Bairrada, das tripas de Bragança, de um tipo qualquer agarrado a uma árvore a papar formigas com a língua (ia jurar que era o Tadeu), de mais uma bela fêmea que passa. Ressaco dos roncos e das noites dormidas à pressa na tenda de campismo (uma lona t2+ 1 anexo). Nos ouvidos ainda a ressaca de milhares de vozes, velhas e novas, agarradas a um só grito e aquilo tudo aos pulos. Ainda no cérebro a melhor expressão de força que conheço a um político: os olhos, a boca e as mãos do Jerónimo, como se cada palavra dita fosse um martelo e o microfone uma bigorna. Para não falar da ressaca da minha tarefa militante: aviar ovos moles no stand de Aveiro

– Isto não tem piada nenhuma, mas eu adoro isto!

eu que tenho à espera uma ressaca dos diabos no final de cada festa. E eu, agora, com a cabeça à roda. E eu a precisar de dormir, como ainda fazem os restantes inquilinos do nosso t2+ 1 anexo: o Ataíde e o Celso. Está bem, casa, trabalho, minha gente cá de Arouca. Que querem que eu faça? Hei-de me recompor. Afinal, isto é como confirmava o Tim lá de cima do palco «Não há festa como esta!». E vocês a lembrarem: vê lá se acordas. O governo ainda nos rouba todos os dias, até nos três do Avante! E a minha cabeça sempre a girar. Eu sei. . . eu sei. .

– Isto não tem piada nenhuma, mas eu adoro isto!

Pertence-me. E mais nada importa. Ó Ataíde, chega-te lá para aí que ainda não é hora para acordar deste sonho.

Ó pá, não resmungues. Tu sabes. . . tu sabes. . .

– Isto não tem piada nenhuma, mas eu adoro isto!

6 de Setembro de 2011

Álvaro Couto

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