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Em 1894 V. Ulianov (1) publicou um texto com a designação em título. Os “amigos do povo” eram na realidade populistas que por detrás da demagogia de falsas promessas se conciliavam com o liberalismo. Segundo eles, a sociedade devia ser conduzida não por ideologias, mas por personalidades notáveis, líderes com dotes especiais, segundo as suas perspectivas, claro. Os trabalhadores, a “multidão” ou “o bom povo” folclórico, deveriam obedecer-lhes e acreditar que de alguma forma defenderiam os seus interesses.
Como se vê, estava a porta aberta para subordinar as classes trabalhadoras ao poder do capital, perdendo a sua autonomia, consagrando a passividade e combater a sua organização e defesa dos seus interesses. Era uma estratégia que procurava tirar vantagens duma aliança com as oligarquias, apresentando-se como intermediários credíveis para garantir o “bom comportamento” popular. Os “amigos do povo” ao mesmo tempo que proclamavam ter como objectivo o socialismo combatiam as organizações revolucionárias que procuravam eliminar as estruturas da exploração.
Populistas deste tipo fizeram o seu caminho em Portugal após o 25 de Abril, no mesmo sentido, enganando, manipulando, caluniando, tentando por todos os meios dividir e destruir o movimento sindical unitário e as políticas consequentes de esquerda e o marxismo. (2)
Vale a pena, pois, recordar como os “amigos do povo” procederam entre nós, até chegarmos à situação de desastre nacional em que o país se encontra.

O programa do PPD (actual PSD) aprovado em 24 de Novembro de 1974 dizia, nomeadamente:
– p. 12 – “A sua criação obedeceu ao reconhecimento da necessidade de oferecer aos portugueses a possibilidade de tornarem efectiva e actuante uma vontade política dirigida pelos valores do socialismo”; p.13 – “Não há verdadeira democracia sem socialismo, nem socialismo autêntico sem democracia”; p.14 – “O capitalismo multiplicou as desigualdades sociais”; p.15 – “O capitalismo conseguiu expandir a produção a um ritmo extraordinário (…) mas fê-lo à custa da exploração dos trabalhadores e das nações produtoras de matérias-primas, colocando a maioria da população na dependência de alguns directores de grandes grupos económicos incontroláveis e deixando afinal insatisfeitas muitas necessidades essenciais através da criação artificial de necessidades e da manipulação do consumidor”; p.17 – “A industrialização conduziu à acumulação do capital financeiro que deu um poder extraordinário aos grupos que dominam os grandes bancos comerciais”; p.19 – Um sistema económico baseado no lucro individual revelou-se incapaz de, por si só, sem intervenção do Estado, assegurar o pleno emprego e planear a satisfação das necessidades colectivas”; p.21 – “urgência da eliminação de outras causas de alienação e opressão e, desde logo, da superação de uma estrutura jurídica da empresa que a torna num espaço social estranho para a pessoa do trabalhador, da eliminação dos temores pela insegurança perante riscos da existência”.
Apenas mais algumas notas: na p. 80, defende-se um SNS “financiado na totalidade pelo Orçamento Geral do Estado”. Na p. 100 propõe-se a eliminação de monopólios ou privilégios de qualquer espécie para o sector privado. Na p. 102 e 103 pretende-se assegurar a efectiva submissão do poder económico ao poder político, pelo que o Estado intervirá directamente na produção, nacionalizando, e resumimos, monopólios naturais, empresas sectorialmente dominantes, indústrias básicas ou “de tal modo importantes que daí advenha poder excessivo”, etc. Na p. 104 defende-se a planificação económica democrática. Na p. 116 a expropriação ou arrendamento compulsivo da propriedade agrária. Quem diria…

Por seu lado o Partido Socialista (PS) não lhe ficava atrás. O seu objectivo, na Declaração de Princípios e Programa aprovado em Dezembro de 1974, era “a edificação em Portugal de uma sociedade sem classes, em que os trabalhadores serão produtores associados” “mediante a construção do poder dos trabalhadores, no quadro da colectivização dos meios de produção e distribuição e do planeamento económico com pluralidade de iniciativas”.
O PS “luta por uma nova sociedade que não tenha como fundamento o salariato e o lucro, a alienação do trabalho ou da consciência” (1.2).
O PS considera como inspiração teórica o marxismo permanentemente repensado como guia para a acção” (1.4).“O PS repudia o caminho daqueles movimentos que dizendo-se social-democratas ou até socialistas acabam por conservar deliberadamente ou de facto as estruturas capitalistas. (1.7). “O PS segue atentamente e considera de grande importância as experiências dos Partidos Comunistas que se propõem respeitar os valores do socialismo democrático” (1.9).
Pode dizer-se que a seguinte vale por todas as outras! “Consciente que o capitalismo é uma força opressiva e brutal o PS luta pela sua total destruição” (1.11).
Em 2.1.2 a refere-se a “necessidade da economia ser planificada”. Em 2.1.6 “considera-se “essencial que a agricultura portuguesa tenha já beneficiado duma autentica Reforma Agrária extinguindo os latifúndios”. Em 2.2.1 afirma-se que “A construção do socialismo exige o desenvolvimento progressivo de reformas estruturais, alicerçado na luta das classes trabalhadoras”. O Programa defende ainda “a planificação económica democrática” (2.2.3), “o reforço da acção do Estado como dinamizador e controlador do sistema económico” (2.2.4) um plano escalonado de nacionalizações (2.2.5), detalhado em 2.3.2.2, a intervenção do Estado nos circuitos de distribuição (2.2.8), a institucionalização de um processo que permita aos trabalhadores a fiscalização e controlo da gestão das empresas (2.2.12). A necessidade de Reforma Agrária é mencionada quer para a zona do minifúndio quer na do latifúndio segundo valores indispensáveis à construção do socialismo (2.3).
Quanto à política internacional pretende-se que esteja ao serviço da Paz, “impedindo que Portugal se veja envolvido em querelas que dizem respeito ás superpotências” (5.1). Quanto à construção europeia “deverá basear-se numa estratégia anticapitalista” “a construção da Europa não pode basear-se na exploração dos seus países pobres” (5.2.1) e defende os “legítimos interesses dos países do Terceiro Mundo na luta pela sua independência e contra o imperialismo” (5.3).
Assim, falavam “os amigos do povo” ao mesmo tempo que conspiravam com o Carlucci da CIA e com o candidato a ditador, mascarado de democrata, Spínola. Mas será que alguém de bom senso pode confiar em “amigos” destes, que mudam de opinião e procuram iludir da forma que se viu e que se vê?
A pergunta que pode surgir é: porquê Soares e Sá Carneiro propunham aquilo? A resposta é simples: o povo português incluindo largas camadas da classe média compreendiam que a alternativa ao fascismo no nosso país só podia ser o socialismo. O capitalismo tentaria “mudar alguma coisa para que ficasse tudo na mesma”. Como foi salientado então: a recuperação capitalista em Portugal representaria o subdesenvolvimento económico, social e político. Foi esta a realidade para onde nos encaminharam – sempre mentindo.
Houve contudo um Partido que quando teve acesso mesmo limitado ao poder do Estado, aplicou consequentemente o seu programa de Revolução Democrática e Nacional (3). Ainda hoje, o que há de progressista na sociedade portuguesa resulta desse período e dessas medidas. Que tal correspondia ao desenvolvimento das forças produtivas nacionais é demonstrado não só pelas realizações conseguidas, mas pelas consequências da sua destruição. Mas outra prova é feita pelo facto de que a grande burguesia e os seus aliados os falsos “amigos do povo”, não tendo internamente força para as destruírem, necessitarem das mais descaradas intervenções externas. Em nome desses interesses a soberania do país e o futuro do seu povo estão a ser vendidos a retalho.
Como nota final, não queremos deixar de referir um dos mais acabados exemplos de “amigos do povo” tão acarinhado pelos seus congéneres do lado de cá do Atlântico: o sr Barack Obama. Dele disse recentemente o prof. Michael Hudson: Obama revela-se um impostor republicano ao serviço da Wall Street, disfarçado de democrata (4) Que primeiro(s) ministro(s) esta descrição nos faz lembrar?

1 – Durante o consulado marcelista a “Seara Nova” publicou artigos em que as referências – de âmbito filosófico, geralmente – a Vladimir Ilitch Ulianov (Lenine) eram assim apresentadas.
2 – O livro de Álvaro Cunhal “A verdade e a Mentira na Revolução Portuguesa” é extremamente clarificador da forma como os populistas enganaram o povo e sabotaram as tentativas de, afinal, pôr em prática aquilo que eles próprios tinham afirmado defender.
3 – Ver “Rumo à Vitória” e “Passado e Futuro da Revolução Portuguesa” de Álvaro Cunhal.
4 – http://www.resistir.info – 29/Julho/2011 Michael Hudson is a former Wall Street economist. A Distinguished Research Professor at University of Missouri, Kansas City (UMKC), he is the author of many books, including Super Imperialism: The Economic Strategy of American Empire (new ed., Pluto Press, 2002) and Trade, Development and Foreign Debt: A History of Theories of Polarization v. Convergence in the World Economy. He can be reached via his website, mh@michael-hudson.com

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