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(Crónica sobre uma lição comuna-arouquesa)

A noite era de Feira de Colheitas em Arouca. Estavam algumas dezenas de Arouquenses a festejar, mas também a ver. O cartaz tinha dois metros, as fotografias a preto e branco, a assinatura do PCP, proclamando-se numa palavra de ordem: «Mais debate, maior consenso. Porque não, senhor presidente?». Um forasteiro meteu-se pela praça, de braços estendidos, a berrar fanfarrão:

– Temos serviço para fazer em Arouca!

 Quando chegou à beira do cartaz de dois metros rasgou-o de alto a baixo. Concluída a façanha, arrotou:

– Afinal já valeu a pena ter vindo a Arouca!

O serviço estava feito. Um minuto depois, a namorada e o amigo levaram-no em braços. Cinco minutos depois, alguns camaradas locais eram informados.

Os forasteiros, ao que parece, vieram de Cascais. Um era alto e loiro. O outro apresentava barba numa cara de boxeur. A rapariga ria sempre muito, uma espécie de galinha com dentes. O camarada C. foi ver o estrago, colocou um novo cartaz no mesmo lugar e regressou à festa. Acabada esta, finalmente localizou os forasteiros e interpelou-os delicadamente. O alto e louro, não estando virado para ajustes cívicos, antes pelo contrário, declarou logo: «os comunas sãos uns porcos», «afinal, ainda não acabei o meu serviço por aqui», etc.. A galinha com dentes continuava a rir-se muito. O boxeur deixava-se mesmo descansar, enquanto se preparava para a nova investida contra-comuna do seu amigo.

Ao que parece, está radicado na tradição direitista, e na tradição mais anti-comunista, o costume viril de erradicar, por uma violência exemplar, o PCP. Só através deste correctivo os comunistas sentiriam, na carne, o domínio do herói fascista. O que antes era, sobre um cartaz comunista, arbitrariedade e desbragamento convertia-se agora em entusiasmo circo romano. O alto e loiro lembra-se de Cascais e da História, os quais estabelecem precedentes ilustres em matéria de violência contra a democracia e a vida humana, a mão que rola, classicista, na Quinta da Marinha, o crânio que sangra, constitucional, em Peniche, o peito que estala, legal, em Caxias, selos também indispensáveis à sua apoteose em Arouca.   

Na verdade, sob o pretexto insidioso de uma autêntica cruzada anti-comunista na província, o loiro logo se atirou, sem delicadeza, sem tacto, sem etiqueta, bolçando para o C.:

– Sabes o que é eu faço aos comunas? Mato-os e como-os!

Dois a três minutos depois, a reacção do C. – que não estava para ali de mártir cristão – foi tão eficiente, tão arouquesa, que o loiro ficou inteiramente inanimado, sem ter, sequer, tempo, para se inquirir:

– Foi a Via Láctea ou um boi que me caiu em cima???

Então é o boxeur, arrastado por um torvo sentimento de vingança, que se atreve, inesperado, absurdo, a pôr a mão áspera no ombro de ébano do C.. Que outra coisa podia ter feito, ao boxeur, o camarada P. (ali presente também)? Como qualquer juíz de boxe, o camarada P. limitou-se a proceder à contagem até dez. Aparecendo de punhos fechados, inesperado, absurdo, o boxeur não tinha outra coisa a esperar senão um KO técnico. Não foi ele, a Arouca, buscar outra coisa. O que ele queria era uma esquerda directa ao queixo e escolheu, entre os dois comunistas presentes, o mais esquerdista. O P. garantiu-lhe a esquerda exacta, o impacto arrasador, a conclusão, a lesão. E, finalmente, a sua entrega à GNR.

Quando os forasteiros entraram, de padiola, em casa, embrulhados no esparadrapo, a galinha com dentes, fitando-os severamente e, finalmente, de bico já sem risos e gozos, disse-lhes na cara:

– Meus queridos, não é verdade que os comunistas sejam porcos, feios e maus. Depois da limpeza que nos fizeram, o que se pode dizer é que, pelo menos os de Arouca, sem dúvida serão – maus, mas também asseados e até mesmo bonitinhos!         

Álvaro Couto

Ver também: “A Praça”

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