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O seu «exemplo de firmeza ideológica e partidária constitui uma referência para todos os militantes comunistas»

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O salão do CT Vitória encheu, quinta-feira, para comemorar o centenário do nascimento de Manuel da Fonseca, militante comunista, intelectual insubmisso, amigo verdadeiro e leal, cujo exemplo e Obra «integrarão para sempre a nossa história colectiva».

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No dia em que faria 100 anos, Manuel da Fonseca foi lembrado pelo que amou incondicionalmente: o nosso ideal revolucionário, força de verdade, razão e justiça; os seus camaradas e o seu partido de sempre; o Alentejo, o povo trabalhador e a sua inesgotável capacidade de realização transformadora.

Muitos dos que estiveram na iniciativa não se cruzaram nas lutas travadas durante décadas pelo militante comunista e resistente antifascista. A maioria não teve certamente o privilégio de partilhar o amigo franco e leal que dizem que era. Mas o «escritor genial», o «cidadão exemplar que amava a vida e a verdade», o «amigo fraterno e solidário de todos os momentos», o «militante comunista, cujo exemplo de firmeza ideológica e partidária constitui uma referência para todos os militantes comunistas», como afirmou o Secretário-geral do PCP na intervenção de encerramento da Sessão, que ao lado reproduzimos na íntegra, tem lugar cativo em todos nós.

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Naquele final de tarde quente demais para o Outono que vivemos, Manuel da Fonseca conviveu de novo com o colectivo que nele continua a encontrar forças para semear a insubmissão. Fê-lo nas letras musicadas por Adriano Correia de Oliveira, cantadas na sessão por Samuel Quedas, ou nos poemas lidos por António Laio, Carmen Santos, Nuno Goís e Manuel Diogo.

E assim, de um modo muito nosso carregado de fraternidade, ficou claro que «o intelectual visceralmente ligado ao povo», como sublinhou um dia Álvaro Cunhal, reside no nosso colectivo, e afirma-se como exemplo para os que têm a certeza de querer construir um mundo liberto «dos comedores de dinheiro».

Tejo que levas
as águas

Tejo que levas as águas

correndo de par em par

lava a cidade de mágoas

leva as mágoas para o mar

Lava-a de crimes espantos

de roubos, fomes, terrores,

lava a cidade de quantos

do ódio fingem amores

Leva nas águas as grades

de aço e silêncio forjadas

deixa soltar-se a verdade

das bocas amordaçadas

Lava bancos e empresas

dos comedores de dinheiro

que dos salários de tristeza

arrecadam lucro inteiro

Lava palácios vivendas

casebres bairros da lata

leva negócios e rendas

que a uns farta e a outros mata

Tejo que levas as águas

correndo de par em par

lava a cidade de mágoas

leva as mágoas para o mar

Lava avenidas de vícios

vielas de amores venais

lava albergues e hospícios

cadeias e hospitais

Afoga empenhos favores

vãs glórias, ocas palmas

leva o poder dos senhores

que compram corpos e almas

Leva nas águas as grades

de aço e silêncio forjadas

deixa soltar-se a verdade

das bocas amordaçadas

Das camas de amor comprado

desata abraços de lodo

rostos corpos destroçados

lava-os com sal e iodo

Tejo que levas as águas

correndo de par em par

lava a cidade de mágoas

leva as mágoas para o mar

   Manuel da Fonseca

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Antes que seja tarde

 

Amigo

tu que choras uma angústia qualquer

e falas de coisas mansas como o luar

e paradas

como as águas de um lago adormecido,

acorda!

Deixa de vez

as margens do regato solitário

onde te miras

como se fosses a tua namorada.

Abandona o jardim sem flores

desse país inventado

onde tu és o único habitante.

Deixa os desejos sem rumo

de barco ao deus-dará

e esse ar de renúncia

às coisas do mundo.

Acorda, amigo,

liberta-te dessa paz podre de milagre

que existe

apenas na tua imaginação.

Abre os olhos e olha

abre os braços e luta!

Amigo,

antes da morte vir

nasce de vez para a vida.

 Manuel da Fonseca

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Dona Abastança

«A caridade é amor»

Proclama dona Abastança

Esposa do comendador

Senhor da alta finança.

Família necessitada

A boa senhora acode

Pouco a uns a outros nada

«Dar a todos não se pode.»

Já se deixa ver

Que não pode ser

Quem

O que tem

Dá a pedir vem.

O bem da bolsa lhes sai

E sai caro fazer o bem

Ela dá ele subtrai

Fazem como lhes convém

Ela aos pobres dá uns cobres

Ele incansável lá vai

Com o que tira a quem não tem

Fazendo mais e mais pobres.

Já se deixa ver

Que não pode ser

Dar

Sem ter

E ter sem tirar.

Todo o que milhões furtou

Sempre ao bem-fazer foi dado

Pouco custa a quem roubou

Dar pouco a quem foi roubado.

Oh engano sempre novo

De tão estranha caridade

Feita com dinheiro do povo

Ao povo desta cidade.

Manuel da Fonseca, in «Poemas para Adriano»

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Os olhos do poeta

O poeta tem olhos de água para reflectirem todas as cores do mundo,

e as formas e as proporções exactas, mesmo das coisas que os sábios desconhecem.

Em seu olhar estão as distâncias sem mistério que há entre as estrelas,

e estão as estrelas luzindo na penumbra dos bairros da miséria,

com as silhuetas escuras dos meninos vadios esguedelhados ao vento.

Em seu olhar estão as neves eternas dos Himalaias vencidos

e as rugas maceradas das mães que perderam os filhos na luta entre as pátrias

e o movimento ululante das cidades marítimas onde se falam todas as línguas da terra

e o gesto desolado dos homens que voltam ao lar com as mãos vazias e calejadas

e a luz do deserto incandescente e trémula, e os gestos dos pólos, brancos, brancos,

e a sombra das pálpebras sobre o rosto das noivas que não noivaram

e os tesouros dos oceanos desvendados maravilhando com contos-de-fada à hora da infância

e os trapos negros das mulheres dos pescadores esvoaçando como bandeiras aflitas

e correndo pela costa de mãos jogadas pró mar amaldiçoando a tempestade:

– todas as cores, todas as formas do mundo se agitam e gritam nos olhos do poeta.

Do seu olhar, que é um farol erguido no alto de um promontório,

sai uma estrela voando nas trevas

tocando de esperança o coração dos homens de todas as latitudes.

E os dias claros, inundados de vida, perdem o brilho nos olhos do poeta

que escreve poemas de revolta com tinta de sol na noite de angústia que pesa no mundo.

Manuel da Fonseca

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