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Alguém viu um palco a voar por aí?

Alguma alma penada terá, ao menos, chegado a arrepiar-se com o caso de um palco camarário – novinho em folha – entretanto destruído, numa noite destas, por um irado deus das águas e dos ventos?

Dito sem cerimónias: alguém deu por alguns milhares de euros dos contribuintes espandeirados pelo ar?

Quem tenha visto aquelas notas todas a voar ao deus-dará sem um estremecimento de coração, não merece senão o lado podre da economia.

Parece ser o caso do senhor presidente da C.M. de Arouca.

Daí que esta crónica tenha que ser lida, por ele, com uma calculadora e as próximas previsões metereológicas ao lado.

A puxar, então, o fio desta crónica temos um palco comprado e estreado, recentemente, pela Câmara Municipal com o objectivo de, ali, realizar os seus espectáculos. O primeiro foi a propósito da Feira das Colheitas. Já lá vai mais de um mês. Na semana passada, ainda no relento do parque de estacionamento do Estádio Municipal, continuavam escancarados sobre um estrado de madeira (15x15m), coberto por uma estrutura de alumínio forrada a acrílico, cerca de quarenta mil euros do erário público. Foi quanto custou o dito, que a câmara não desmontou e, entretanto,  a tempestade levou.

Sabe-se que este presidente da Câmara tem uma obsessão por palcos de espectáculo. Daí que tenha comprado mais um e nunca o tenha desmontado, para também nele, apesar dos sinais adversos do tempo, não só político e economico, mas do próprio tempo metereológico, produzir, ininterruptamente, os mais variados efeitos cénicos da sua gestão camarária.

Anteontem, nos cantos do palco da imprensa, aí o tínhamos com a solução miraculosa para o desemprego nacional, através da disseminação pelo município de umas fantasmagóricas «quintas sociais». Depois, foi o centro do palco televisivo, com uma aparatosa suspensão de funções – que durou, apenas, um dia – e uma não menos espalhafatosa despedida até Lisboa, proclamando ao povo de Arouca e do País que, devido à quebra de uma promessa eleitoral relativa à construção do restante troço da variante, ia lá abaixo, sózinho, escaqueirar o governo. Mais recentemente, e ainda a este propósito, foi mesmo o cabeça de cartaz em toda a comunicação social, quando se pôs a entoar acordes e tramas, ainda mais ricas, com a garantia camarária de um empréstimo bancário, no valor de alguns milhões de euros, a um organismo do Estado (Estradas de Portugal)  Amanhã, com um anfiteatro no lugar da praça, que novas comédias tem para nos oferecer este presidente tão obcecado nas luzes da ribalta dos palcos? A coisa promete em Arouca, dizem os jornalistas. Para já, para os próximos dois anos de mandato, estão assegurados mais palcos e mais comédias. Do mesmo modo, seguras devem estar as lágrimas – que são do riso – nas audiências nacionais e locais.

Eis o que a força do vento sugere: a breve história do tempo, em palco.  

Daí que se imponha em palco, ao lado do presidente, a calculadora e as previsões metereológicas para os próximos tempos.

Sejamos claros: é que com os ventos (atmosféricos e eleitorais) nunca se sabe. Se os ventos podem destruir palcos e dinheiros públicos de impostos pesadíssimos, num destes dias levam mesmo os leves presidentes de câmara – como este – pelos ares!

Álvaro Couto