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Dia 27 de Fevereiro, 8 horas, as notícias do país embaraçam-me ao acordar: «Em Portugal existe um milhão e meio de desempregados», «Taxas de IRS de 2012 são excessivas», «O frigorífico das famílias está cada vez mais vazio», «Os talhos estão a fechar», «Em cada mês,  mil e quinhentas empresas tornam-se insolventes», «100 mil portugueses com os ordenados penhorados», «Diminuição de bolsas: um em quatro alunos, abandonam universidade», «4 em 10 portugueses não gozam férias», «Ourives baleado em assalto», «Cardeal apela à fidelidade», «Adele vive em casa assombrada», «James em dúvida para o derby na Luz», ÚLTIMA HORA: «3.000 pessoas morreram em Portugal nos últimos dois meses». Estas notícias são seguidas, depois, por gráficos e análises, oriundos dos mais variados quadrantes. Há quem seja mais optimista e há quem sofra do mais completo pessimismo. Entre uns e outros, fico eu sem pensar seja no que for, porque falam do que não me importa ou do que nunca me tinha sequer passado pela cabeça ou na certeza de que vivo noutra dimensão àquela hora da manhã. É então que, ao sair de casa, só me vem à cabeça aquela velha frase

– Sepultados os mortos, só falta tratar os vivos! 

Ainda no mesmo dia, mas já adiante nas 14 horas, compro cigarros, bebo café e um pirilau e, como de costume, verifico o registo dos óbitos locais nas fotografias depositadas na vitrina do Arouquense. Um amigo lembra-me que, hoje, é dia de nova reunião da Assembleia Municipal de Arouca. Dá-nos na veneta de ir até lá. Quatro horas depois, as notícias daquela Assembleia fazem com que eu saia mais sossegado. Por lá, à excepção do piegas do costume, um eleito que, ao cabo de dois anos, ainda anda a reivindicar a colocação de semáforos frente à escola do Burgo, o consenso é geral entre os autarcas presentes, os da situação e os da oposição: «Finalmente, a variante é capaz de chegar. Ministro Paulo Portas empenha-se pessoalmente»«Ninguém passa por dificuldades em Arouca, os frigoríficos estão cheios e os talhos estão abertos», «A Câmara está rica, até se dá ao luxo de emprestar dinheiro ao Estado», «Aqui, o desemprego não existe», «Dívidas, por cá, também não há», «as águas nos rios seguem livres e transparentes», «fogos deixaram de existir», «Crimes, idem idem, aspas aspas», «há médicos de família para toda a gente», «O comércio, a agricultura e a indústria florescem», «Os arouquenses ainda gozam férias na praia», «Todos os alunos locais têm apoio social», «Os transportes escolares rolam pelas estradas», «O pároco deu missa no domingo e realiza serviços fúnebres todos os dias», «o F.C. de Arouca ganhou o último jogo fora e recupera na tabela». Chegando cá fora, sossegado e satisfeito, resolvidos que estão outros problemas locais, puxo de um SG Filtro e despeço-me do meu amigo, parafraseando ainda a mesma velha máxima

– Por aqui, sepultados os mortos, tratados estão os vivos!

Em menos de cinco minutos estou, novamente, na esplanada do Arouquense. Sento-me a uma mesa para fazer como os demais clientes: colocar-me de mirone às obras e aos seus camartelos que avançam rapidamente pela Avenida 25 de Abril acima e pela Praça Brandão Vasconcelos abaixo (que só um verde taipal com fotografias não deixa antever). Recebo, por esta via e pelos outros mirones, lições intensivas de arqueologia, de política, de arquitectura. Sem falar nas lições de português; «Regeneração Urbana 2012», «Recuperar o Património», «Valorizar a Cultura», «Preservar a memória», «Apostar na modernidade», etc… entraram no vocabulário corrente de todos os mirones, que afirmam amar a sua Terra e a sua História. È o caso de um jovem que, deveras entusiasmado por Arouca se estar a transformar num imenso estaleiro, faz questão mesmo de me exibir tamanha raridade nacional, através de uma extraordinária fotografia. Temos, então, na foto, a pá de uma buldozer, essa para lá do verde taipal, entregue, por razões de empreitada, aos cuidados de um homem e de uma mulher, escavando toda a antiga praça enquanto, simultaneamente, se reconhece um esqueleto, meio desenterrado no chão, dando-nos a súbita ideia que se quer levantar, para se pôr rapidamente na alheta dali. De repente, não sei porquê, lá me vem à carga a mania de parafrasear a mesma frase matinal

– Sepultados os mortos e tratados os vivos, não há mais nada para fazer em Arouca! Ora bem, desenterrem-se os mortos, só falta ficarem vivos agora!

Álvaro Couto

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