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(dedicado ao meu amigo Quim «Pinga»)

2012, quinze de Agosto. Fora sombria a última noite em Arouca, mas o dia rompe claro e sem nevoeiro, somente com um ligeiro vento de nordeste que torna a manhã fresca. A linha do horizonte, desde o vale até ao alto da Freita, está nítida e luminosa. O trânsito começa o seu constante vai-e-vem. E, desde o nascer do sol, sucedem-se transeuntes nas ruas, vestidos a condizer para dia de feriado religioso. A autarquia aproveita a ocasião para inaugurar o regenerado centro histórico da vila de Arouca. Nessa direcção, por volta das nove e meia, sai dos paços do concelho, com pompa e circunstância, um cortejo de gente:  músicos e instrumentos, crianças e velinhas, padres e doutores da Igreja, empresários e executivos de todos os matizes, gente importante e povo anónimo. À cabeça do desfile, avenida abaixo, estreando calçada nova, seguem com paramentos e gravatas que mais parecem votos, o presidente da câmara e os restantes autarcas, um ministro do governo e um cardeal italiano em representação da Santa Sé. Deveras encantado, este caminha com o Pinga pendurado na sua batina vermelha

– Mio Dio, come tutti è bello!

– É. . .é. . .é. . .Pimenta!

– O que é que eles estão para aí a dizer? – pergunta, curioso, o ministro Paulo Portas ao presidente.

– O cardeal está a dizer como tudo é belo, enquanto o Pinga lhe explica, à maneira dele, que isto foi feito pelo Pimenta, o empreiteiro das obras  – traduz o autarca satisfeito, pelo elogio e por descobrir quanto pesca melhor, em matéria de línguas, do que o  ministro dos Negócios Estrangeiros.

Bruscamente, no preciso momento em que, às ordens da batuta do maestro, a multidão estanca e a banda se prepara para os primeiros acordes no novíssimo anfiteatro – substituto da antiga praça – ouve-se um horrível ruído subterrâneo, semelhante a um bramido de terra ou a longínquos tiros de canhão.

A terra é abalada por uma convulsão fraca a princípio e que, depois, se vai intensificando durante um minuto interminável e medonho. O chão fende-se, as  árvores vergam, o solo afunda-se, o palco desaba, levando consigo fliscornios e trompetes, saxofones e tubas, bombos e bombardinos, que caem num enorme estrondo instrumental. Durante um minuto, a terra acalma-se e os instrumentos calam-se, mas logo é percorrido por novo estremecimento, mais longo ainda que o primeiro. Finalmente, por um terceiro, que dura precisamente três minutos. O chão afunda-se mais ainda, abrindo uma enorme cratera. Do fontanário sobem jactos de vapores sulfurosos e uma poeira espessa sufoca todo o lugar. Os Correios e a Pensão Alexandre fazem-se em migalhas, abate a Igreja da Misericórdia e a antiga prisão, os sinos deslocam-se das torres e rolam, dando alarme na sua queda, voam telhas do telhado do convento fendido como grãos dum fruto rachado, os móveis caem lá dentro, cá fora a poeira é cada vez mais densa.

Centenas de pessoas estatelam-se contra as catacumbas do que terá sido a velhinha capela de S. Bartolomeu e do seu cemitério. O tremor de terra abre sepulturas, onde a poeira se instala, revelando cadávares que, entretanto, pelo efeito do brilho da luz do sol, parecem pairar, agora, no ar. 

– Mamma mia! – exclama o esfíngico cardeal, petrificado ao sítio onde parou pela última vez.

– Eles. . .eles. . ..eles. . . an. . .an. . .an. . .dam aí! – gagueja o Pinga, fugindo para debaixo da sotaina do italiano.

Tudo são trevas, gritos, estrondo, tumulto, pavor. As pessoas que caíram na cratera, galgam por cima umas das outras, tentando trepar de lá para fora. Quem não caiu, foge, ao acaso. Todas gritam, assustadas e asfixiadas, porque a atmosfera é irrespirável e aterrorizadora. Na bruma e na medonha desordem, as pessoas chamam umas pelas outras, procuram-se. Dos escombros das casas saem gritos. Duas seculares árvores, voltando a dar de si, tornam a vacilar e caem de todo. Ainda não refeitos do susto e da surpresa, crianças, mulheres e homens sentem-se numa ratoeira a que procuram fugir por qualquer lado. Sucedem-se os abalroamentos e a circulação pedestre e automóvel é impossível no meio da confusão. Alguns, perdidos no seu desespero, atiram-se para dentro do convento à procura de alguma protecção divina. Cá fora, há os que, tornados selvaticamente indiferentes a tudo o que não é o próprio terror, correm entre as ruínas, surdos aos apelos e às lamentações, em busca de um refúgio. Uns vão para o alto da senhora da Mó, outros, pelo contrário, precipitam-se em direcção ao espaço aberto do parque. Um beato, de cabeça perdida, esbarra contra o imobilizado cardeal, derrubando-o. Em vez de lhe pedir desculpas, o beato antes procura abrigo  nele. Vai daí, o cardeal não está de modas e enxota-o, enquanto se persigna   

– Va de retro, Satanás!

– Ce. . .ce. . .ce. . .(r)ca, só en. . .en. . .t(r)as se pingares! – diz ainda o Pinga, não deixando de aproveitar a ocasião para sub-arrendar tão protectora saia cardanalícia.

É então que o Arda descobre novamente o seu leito, mostrando profundezas e caudal nunca até então vistas. O rio recua para lá do sítio onde, há décadas, o meteram  encanado. Depois forma uma vaga monstruosa que se avoluma, cresce, sacode o leito, rompe as amarras e lança-se sobre as suas velhas margens, inunda-as, quebra lajeados, arrasta de escantilhão escombros, submerge ruas, edifícios, fustiga paredes arruinadas. Três vezes a onda sobe ao assalto da praça regenerada, três vezes recua, levando para o abismo tudo o que ceifara na margem. As ruas e as casas construídas sobre o rio separam-se do chão, e afundam-se. Assim emergem, à tona da água, uns e outros, como autênticos mortos-vivos. 

E como todos os elementos se conjugaram para aniquilar Arouca, depois da terra que treme, do ar tornado sufocante, dos terríveis redemoínhos de água, é agora a vez do fogo. Dentro do convento, onde as crianças se refugiaram mais as suas velinhas, havia pelo menos um fogo em qualquer recanto do enorme edifício. O incêndio parece declarar-se por todos os lados ao mesmo tempo. Vermelhas línguas de fogo atravessam a poeira e o fumo, cintilam. O vento recomeçara a soprar, mais violento, levantando turbilhões de faíscas nos claustros e em todos os cabos eléctricos.

E o fogo aumenta, devora alas inteiras do convento, funde as pratas, as jóias, os cofres, faz estalar os cristais, os espelhos, reduz a cinzas as tapeçarias, os quadros e os altares do convento. E a biblioteca e o museu. E os arquivos e os tesouros. Em suma, tudo o que sobrara ao tempo e às mãos de D. Domingos Brandão. Na horrível desordem, esquece-se a posição social, o pudor; a rainha santa Mafalda, em carne e osso, tendo saltado do seu túmulo, foi até às portas do convento conforme Deus a deitou ao mundo, onde Miguel Brandão de Vasconcelos, com pena dela, a cobriu com a capa do cardeal italiano

– Ma qué bella donna! – exclama o cardeal.

– É. . .é. . .é. . .na. . .na. . .na. . .morada! – faz lembrar o Pinga, que não deixou também de espreitá-la por uma frecha da batina.

Cá fora, os focos de incêndio propagam-se aos depósitos dos lojistas e aos haveres das famílias. Ninguém se ocupa em lutar contra o sinistro. Cada qual tem por única preocupação salvar a pele ou salvar a alma e, simultâneamente, procurar os desaparecidos mais próximos.

Arouca arde. Do Calvário a Várzea, do Burgo a Sta. Eulália. O centro, o coração, o núcleo vivo e rico da vila consome-se. Na praça, o calor é tão intenso que os que sobreviveram ao assalto do rio têm os cabelos incendiados, a barba e as sobrancelhas, chamuscadas. Do alto da Senhora da Mó, onde muitos se refugiaram, mede-se a extensão do braseiro. À medida que o vento dispersa as nuvens de poeira e de fumo, as chamas aparecem mais ardentes e mais altas. Mil anos de História que, assim, se apagam.

É tutti per niente! – clama o cardeal, virando as mãos para o céu.

– É. . .é. . .é. . . ca. . .ca. . .cas. . .tigo! – diz o Pinga, lá debaixo.

Orar, chorar, penitenciar-se. Uma tal catástrofe só pode ser castigo do céu. Os padres reúnem sob o crucifixo erguido, os penitentes desgrenhados, as roupas esfarrapadas. Os rostos descompostos de horror, manchados de cinza de sangue, estão irreconhecíveis. A terra estremece ainda, ruídos estranhos rolam no seu seio, o fogo estala e cresce e, nas ruínas, os cães ladram à morte. Os padres do convento, não tendo tempo e oportunidade para salvar a colecção de bólides automóveis estacionados no pátio dos fundos, tiveram que fugir pelos seus próprios pés. Cá fora, cercados pela multidão, resta-lhes  confessar e absolver no meio das ruas, enquanto homens e mulheres ajoelham entre os pedregulhos, berrando os seus pecados, implorando. Muitos espreitam um crucifixo, uma imagem santa. Parece ter chegado o fim do mundo. É preciso rezar, receber a absolvição e a benção, vai soar o grande julgamento. Misericórdia!

Arouca ruíu. Só verdadeiros arqueólogos poderão, mais tarde, encontrar vestígios dela. Uma nova Arouca há-de nascer. Porventura, menos sectária no sentido. Talvez, mais justa na repartição. Se calhar, mais inteligente na decisão. Provavelmente, é nisto que se ocupa, agora, o pensamento do esfíngico cardeal, pois ele já não olha para toda aquela desagregação geral. Agora, apenas fala, numa voz embargada de futuro, lá para baixo de si mesmo. Isto é, na direcção da sotaina vermelha

– É Pinga, te va laborare per il Pimenta! (em português: Ó Pinga, vai trabalhar para o Pimenta!)

O que é que o homem havia de se lembrar: foi tocar-lhe mesmo na mouche da ferida! O embaixador do Sumo Pontífice não estava senão a pedir a única frase dita, em bom português e sem gaguejar, pelo Pinga

Cala a boca, pá! 

 Dito isto, este desarreda-se da vestimenta pontífica e acelera o passo na direcção do caos. Não corre. Ninguém o persegue. Vai no seu andar habitual: primeiro, barriga para a frente para alavancar a perna direita e, com o balanço desta, lá aproveita para empurrar a esquerda. O seu, não é um olhar acossado, não há medo no olhar do Pinga. É um olhar, apenas, indignado. Venha o primeiro que, querendo lhe pôr um arreio às costas, não ficasse com a devida resposta!

No meio da confusão, talvez esse pormenor tenha escapado aos circunstantes aflitos. Mas alguém terá percebido, também, uma breve luz nessa desesperada indignação, uma breve e intensa luz no olhar do Pinga que atravessa, apressado, a avenida.

Esse alguém é a Rainha Santa Mafalda que o interpelará, adiante do pelourinho, fazendo pingar no seu copo de plástico um velho papel enrolado. Que valiosa nota ou fantástico troféu pingas aí, tu que mais pareces Madonna que Santa, mais Padeira que Rainha, e mais parecem asas os teus braços de Vénus flamejante? Parecem perguntar os olhos espantados do Pinga. Responderá a devota senhora: «Pinguei-te coisa bem mais importante que dinheiro: levas aí o foral de Arouca».

Passada a noite, caído o sonho, Pinga desperta do sono na sua velha casa, onde tudo está inteiro. Terá descido ao convento, até à beira das obras do Pimenta, terá deixado arder os olhos, até confirmar que terá passado a noite na twilight zone, onde Arouca virara louca, dentro de si mesmo. Depois, terá partido na peregrinação do pinga-pinga. Vai como todos os dias, mas sabendo, agora, que tudo está como de costume. Na certeza que, façam o que fizerem – obras ou sonhos, bonitos ou feios -, nada consegue alterar, profundamente, a verdadeira identidade dos homens e da terra.  Daí, todos  ainda vejam – gostem ou não –  o olhar pasmado e limpo do Pinga,  destacado à cabeça de uma multidão e, sempre, vibrantemente empunhando o seu copo de plástico, como se ele transportasse um menino salvo das águas. Como se transportasse Arouca.

Arouca, 10 de Abril de 2012

Ver também:

FOLHETIM PRAÇA (II) – Só quem mora na praça, é que sabe o que lá se passa! – Álvaro Couto

FOLHETIM PRAÇA: Ora bem, desenterrem-se os mortos, só falta ficarem vivos agora! – Álvaro Couto

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