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A escalada da violência na Síria não parece ter fim, alimentada pelas potências da NATO e pelas monarquias do Golfo que apoiam mercenários que não conhecem limites nas sua acção, e por provocações da Turquia visando a internacionalização do conflito.

O desvio de um avião da companhia aérea síria foi o mais recente episódio. A aeronove havia partido de Moscovo rumo a Damasco, e antes de chegar à capital da Síria foi interceptada por dois caças da força aérea turca.

A Turquia alega que a bordo do voo civil seguia material militar, vendido por uma empresa russa, cujo destino seria o Ministério da Defesa sírio. O primeiro-ministro, Recep Erdogan, apoiado imediatamente pelos EUA e pela NATO, afirmou mesmo, segundo a AFP, que a carga apreendida estava a ser analisada ao pormenor. Mas, posteriormente, desafiado pelos governos de Damasco e Moscovo a apresentar provas e detalhes, pouco mais adiantou, muito embora a gravidade da situação o justificasse.

Síria e Rússia rejeitam as acusações e qualificam o acto de pirataria. Contornos de provocação similar foram observados aquando do nubloso abatimento de um avião turco pela síria, há escassos meses.

Cabeça-de-turco

Dias antes da história do A320 da Syrian Air, já Ancara havia funcionado como cabeça-de-turco da agressão imperialista à Síria. O disparo de um morteiro a partir de território sírio contra a localidade de Akçakale, a 3 de Outubro, deixou cinco mortos, entre os quais quatro crianças, e motivou o reforço do contingente junto à fronteira. Cerca de 250 tanques foram enviados, juntando-se aos soldados, à artilharia pesada e aos mísseis terra-ar ali colocados anteriormente, informou o diário turco Hurriyet.

Em resposta ao alegado ataque das forças armadas sírias, a Turquia também bombardeou durante quase uma semana o território vizinho, mesmo depois das autoridades de Damasco terem pedido contenção enquanto procediam ao apuramento do sucedido.

Os sírios concluíram que os obuses disparados contra Akçakale não são da responsabilidade do seu exército, versão corroborada pelo jornal turco Yurt, citado pela Russia Today, segundo o qual o morteiro disparado é igual aos habitualmente usados pela NATO.

Num artigo assinado pelo editor-chefe da publicação, garante-se que esta informação é de fonte fiável, a qual terá inclusivamente acrescentado que o projéctil foi entregue por Ancara ao chamado Exército Sírio Livre (ESL).

A 4 de Outubro, um dia depois do disparo do morteiro, o ESL garantia à EFE que colaboraria com uma intervenção da Turquia contra a Síria, e que essa iniciativa devia ser levada a cabo com o apoio da comunidade internacional. Pela NATO, portanto, organização que a Turquia integra e cuja intervenção pode solicitar em caso de guerra.

A tentativa de internacionalização do conflito na Síria não é novidade, mas depois da violência na fronteira Sudoeste com a Turquia, outros episódios ilustram tal facto.

Os EUA confirmaram oficialmente o envio de 150 assessores militares para a Jordânia, isto após a informação ter sido avançada pelo New York Times.

Paralelamente, o primeiro-ministro do Iraque teve que vir a público desmentir, de novo, que pelo território do seu país transitem armas iranianas com destino às forças armadas sírias. A 20 de Setembro, a Reuters noticiava igual negação por parte de Nuri al-Maliki, mas a suspeita é insistentemente trazida à tona.
 

Violência alimentada

É neste contexto que no interior do território sírio prosseguem os combates entre o exército regular e os bandos armados. No balanço, somam-se diariamente mais e mais mortos. As Nações Unidas já falam em 30 mil.

Particularmente acesa nas últimas semanas tem sido a disputa em torno de Alepo, com os mercenários a procurarem cortar a ligação da cidade à capital, Damasco, o que equivaleria ao isolamento de uma parcela importante do território do país.

A investida contra a segunda cidade síria decorre há meses, mas parece ter sido reacendida pela dispersão das forças armadas sírias, motivada pelo incidente fronteiriço com a Turquia, e, sobretudo, com a chegada de fanáticos islâmicos de diversas origens e o reforço do fluxo de armas para a sua «causa».

Já esta segunda-feira, 16, o New York Times revelava que a maioria das armas enviadas pela Arábia Saudita e Catar acabavam nas mãos de grupos vinculados ao terrorismo. A situação aparentemente descontrolada preocupa os serviços secretos dos EUA a tal ponto que Barack Obama foi informado oficialmente. Em Setembro, o chefe da CIA, David Patreus, discutiu o assunto com as autoridades na Turquia, adianta também o periódico.

As autoridades sírias têm reportado grandes apreensões de armamento durante as pesadas investidas que realizam contra as posições «rebeldes», durante as quais, garantem, fazem um considerável número de vítimas. Não obstante, o total de efectivos da «oposição armada» e a sua capacidade logística e de municiamento parecem inesgotáveis, notam.

BBC News mostrou, por estes dias, grande quantidade de armas pesadas nas mãos dos denominados rebeldes. O material terá sido vendido por uma firma ucraniana à Arábia Saudita.

Por outras monarquias do Golfo passaram, igualmente, granadas fabricadas na Suíça, fotografadas nas mãos de «opositores» por um jornal helvético. A denúncia causou embaraço e os suíços terão pedido explicações aos Emirados Árabes Unidos, a quem forneceram o armamento. Estes justificaram dizendo que enviaram parte das granadas para a Jordânia, em 2004, no âmbito do… combate ao terrorismo.

De alguma maneira chegaram aos grupos armados sírios, constatou fonte do governo suíço, de acordo com a Russia Today.

Ao fluxo de armamento que alimenta os combates em vários pontos da Síria, acresce o de mercenários de todos os matizes. O governo sírio informava, no final de Setembro, que cinco mil homens a soldo haviam entrado no país, treinados e equipados no exterior, precisava então a Telesur.

No mesmo sentido, o britânico The Guardian reportava que em Alepo estariam a combater jihadistas iraquianos, iemenitas, afegãos, chechenos, sauditas, tajiques, turcos (quatro foram abatidos dia 6 em Alepo, noticiou a Lusa) e de outras nacionalidades.

A 19 de Setembro, a AFP dava mesmo voz a dois líbios – um afirmava até ser um ex-estudante em Londres –, que em Alepo combatiam Bashar al-Assad, tal como haviam combatido Kadafi até à tomada de Tripoli, disseram.

A partir de outra capital europeia preparavam-se para partir rumo à Síria, soube-se entretanto, alguns dos membros da alegada célula terrorista desmantelada dia 6 de Outubro, em França. Pelo menos assim o asseguram as autoridades gaulesas, citadas pela AFP.

Não é por isso de estranhar que, no passado dia 10 de Outubro, o governo sírio tenha reagido à proposta de cessar-fogo unilateral avançada pelo secretário-geral da ONU sublinhando que, antes de mais, Ban Ki-moon tem de enviar delegados aos países que «financiam, armam e treinam os grupos armados, especialmente a Arábia Saudita, o Catar e a Turquia». Países, acrescentou o governo liderado por Bashar al-Assad, segundo a EFE, com «influência sobre os grupos armados» e que podem levá-los a «cessar a violência».


Sem limites

O rol de acções levadas a cabo pela chamada «oposição armada» síria aponta para uma conclusão: trata-se de terrorismo, de facto.

Ainda no passado dia 9, as Nações Unidas repudiavam veementemente o uso de meios de assistência médica para a realização de atentados. No dia anterior, brigadas opositoras fizeram explodir em Damasco uma ambulância roubada carregada de explosivos. O alvo foi a sede dos serviços de inteligência da força aérea. O Ministério da Educação Superior também terá sido afectado.

Sobre este atentado circularam informações contraditórias quanto ao número de vítimas. As autoridades sírias asseguram que ninguém faleceu, mas a organização que reivindicou o ataque, a Frente al-Nosra, glorificou a acção através de uma rede social, precisando que após a primeira explosão um seu contingente havia disparado morteiros contra os escombros do edifício.

Anteriormente, dia 5 de Outubro, o Conselho de Segurança da ONU também condenou nos mesmos termos o atentado que, a 3 de Outubro, em Alepo, cobrou a vida a cerca de meia centena de pessoas e provocou ferimentos em pelo menos mais uma centena, acusando um grupo afecto à al-Qaeda pela barbárie.

Menos veiculadas foram acções similares perpetradas em Damasco por bandos armados que não conhecem limites. A 26 de Setembro, contra a sede do Estado-maior sírio, ceifando a vida a quatro guardas. A 30 de Setembro, na central Praça das Sete Fontes, com um balanço indeterminado de mortos e feridos. Dia 7 de Outubro, contra o quartel-geral da polícia (um morto e outro ferido).

Para além de espalharem o terror, os atentados e sequestros visam, simultaneamente, desorganizar o poder do Estado e a economia da Síria, de que servem de exemplo o rapto de 25 trabalhadores da empresa de electricidade que, nos últimos dias de Setembro, tentavam restabelecer o fornecimento de energia na martirizada província de Homs (Prensa Latina); ou a destruição de um oleoduto e o rapto do responsável da estação de bombagem, a 27 do mesmo mês, no Nordeste da Síria, objectivamente para provocar danos no abastecimento petrolífero (Lusa e France Press).

Caça aos jornalistas

Significativo no conflito e ao mesmo tempo demonstrativo da ausência de escrúpulos por parte dos grupos armados é, ainda, a sucessão de casos de jornalistas mortos ou desaparecidos.

Entre estes últimos está Austin Tice, de 37 anos, repórterfreelance ao serviço do Washington Post que, a tomar como autêntico um vídeo postado numa rede social, se encontra detido por mercenários. Agências internacionais especulam, no entanto, que o norte-americano está em poder do regime e que o vídeo é falso e com o único objectivo de incriminar os «insurgentes». Ulteriores desenvolvimentos podem desfazer as dúvidas.

Entre as vítimas, por outro lado, estão o operador de câmara da televisão Al-Ikhbariya, Mohammad al-Ashram, baleado por um franco-atirador, dia 10 de Outubro, nos arredores de Deir Ezzor, e o correspondente da iraniana Press TV, Maya Naser, igualmente atingido por um franco-atirador, a 26 de Setembro, quando cobria os acontecimentos em Damasco.

Acrescem, em Agosto deste ano, o assassínio de Musab al Oda Alah, do jornal Techrine, abatido em sua casa, em Damasco; da japonesa Mika Yamamoto, da Japan Press, morta nos combates em Alepo; do apresentador da televisão estatal síria, Mohamad al-Said, executado depois de um cativeiro iniciado em Julho, e do máximo responsável pela agência pública de notícias, SANA.

Antes, em Junho, um atentado contra a sede da televisãoAl-Ikhbaria matou sete jornalistas e quatro guardas.