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Numa coisa há hoje unanimidade em Portugal: toda a gente malha, à uma, no Governo Passos Coelho e na sua santíssima Tríade – Passos, Gaspar e Relvas.

Imagine-se que até já veio a terreiro Ângelo Correia, o longínquo governante PPD da «insurreição dos pregos» e, nos últimos anos, uma espécie de «tutor» da carreira de Passos Coelho (a começar no seu 1.º emprego como «gestor», quase aos 40 anos, no «universo empresarial» do desenvolto Ângelo). Pois o Ângelo chegou-se à RTP2 e disse: «Eu fiz as contas e pago sete meses de trabalho, do meu salário, ao Estado. Eu trabalho para o dr. Gaspar, não trabalho para mim e a minha família». E para que ficasse vincado o seu novíssimo repúdio, acusou Passos e Portas de «falta de estudo», considerou «imperativa» uma remodelação do Governo, mas, todavia, «não acredita» que haja gente disposta a integrá-lo. Enfim, o regresso da famosa argúcia do Ângelo.

Mas antes dele já todos malharam, desde consignadas cabeças do PSD e do CDS a todos os partidos da oposição, passando pela generalidade dos comentadores em jornais e televisões – com destaque para os que se espojavam em terreiro a vitoriar o «novo paradigma» nacional prometido por Passos.

O «paradigma» aí está, escarrapachado numa vigarice travestida em «proposta do FMI» e que, linearmente, quer esportular mais quatro mil milhões de euros sobre o saque ignominioso previsto no OE de 2013, cortes que corresponderiam à eliminação imediata do Estado Social, com o despedimento de 100 mil funcionários públicos, mais 50 mil professores, cortes definitivos de 10 a 20% sobre salários e pensões e por aí fora.

Este é o verdadeiro programa de Governo que Passos trazia escondido na bagagem, quando chegou ao poder: a destruição de todos os resquícios da Revolução de Abril, sobretudo os direitos sociais e laborais consagrados no regime democrático, satisfazendo-se, quiçá, a si próprio e, sem dúvida, à ala mais acrisoladamente fascista que sobreviveu ao regime salazarista.

Como – apesar do seu inaudito descaramento – não teve coragem para encabeçar tal proposta (de resto, displicentemente anunciada há meses por Marques Mendes, outro «guru» de Passos), o PM Coelho não se tirou a si próprio da cartola, mas um espúrio «documento do FMI» a propor o corte dos quatro mil milhões.

É isto que já toda a gente percebeu e, por isso, conduziu este malfadado Governo ao isolamento mais completo da história democrática, com erosão do próprio eleitorado que lhe deu a magra vitória eleitoral e lhe abriu as portas do poder.

É tempo de lhe abrir as portas da saída, através de novas eleições.

Rectificação: Na recente crónica «O Natal dos Kruges» foi referido que o ministro Miguel Relvas havia conseguido a sua «licenciatura relâmpago» na Universidade Lusíada. Trata-se, obviamente, de um lapso – que lamentamos e de que pedimos desculpa –, já que foi a Lusófona a realizar o prodígio. (HC)

in Avante a 17 de janeiro