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No meio de uma feira, uns poucos de palhaços
Andavam a mostrar, em cima de um jumento
Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés nem braços,
Aborto que lhes dava um grande rendimento

Guerra Junqueiro, do soneto “Parasitas”

1 – O “VIRUS CAPITALISTA”
As televisões esmeram-se na promoção de uma mistela ideológica, o neoliberalismo. É o “vírus capitalista” (1) em ação, destruindo a economia e o social, liquidando a soberania dos povos e os avanços civilizacionais, com um único propósito: o enriquecimento sem limites de uma camada oligárquica. Pobreza, desemprego, estagnação ou recessão, são os sintomas mais evidentes. O antídoto a ser aplicado com urgência é a unidade e a luta popular. Melhor seria a prevenção. Infelizmente a rendição ao neoliberalismo dos partidos denominados de socialistas levou a que as defesas do organismo social se debilitassem.
O objetivo generalizado dos comentadores nas televisões é fazer a propaganda do conformismo perante falsas inevitabilidades, tornar opacos os verdadeiros problemas das pessoas e respetivas soluções, alardear as opções que agradam à oligarquia. Num recente programa “Prós e Contras” (07.janeiro – na realidade “Prós e Prós”) isto foi mais uma vez evidenciado. Pretendia tratar de crescimento, mas as soluções apresentadas não passaram de repetição das fórmulas que levaram o país ao descalabro, resumindo-se a captar investimento estrangeiro, exportar mais e, claro, mais propaganda.
Exportar mais, é nesta versão baixar salários, eliminar direitos (as reformas estruturais e laborais), políticas indiferentes ao consumo interno. Tem sido esta a política seguida, em 2012 alcançou-se uma taxa de cobertura na balança Comercial de 81% contra 64,4% em 2010. Resultado obtido fundamentalmente pela redução do consumo e do investimento, dos salários reais e direitos laborais – não tiramos contudo o mérito a algumas PME que evoluíram na exportação. Em contra partida aumentou o desemprego, a recessão, a dívida pública. O que não sai pelas importações, sai pelos juros.
O país ficou em piores condições para melhorar o consumo e o investimento produtivo. Nessa altura os défices voltarão a crescer drasticamente.

2 – CAPITAL EXTERNO: REMÉDIO OU ESTUPEFACIENTE? 
Diz-se que não podemos contar com investimento público, nem com capital privado nacional, o capital estrangeiro seria portanto a terapêutica. Há nisto alguma coerência, concedamos. Se o Estado não estimula a poupança interna, se o grande capital não é sujeito a impostos, se as transações financeiras não são taxadas, se os juros levas do país 5% do PIB – 8 630 milhões de euros do total das administrações públicas. Como é possível investimento nacional, se lucros e rendimentos saem do país sem pagar imposto?
No entanto, só não há investimento público produtivo porque a isso se opõem os dogmas vigentes nesta UE. Se o Estado pagasse os juros dos empréstimos à taxa com que o BCE promove a especulação Portugal pouparia, 4 713,1 M€. Porém, se a este montante somarmos as comissões da troika, os benefícios ao sector financeiro, e a redução da TIR nas PPP para 5% (algumas têm 17%), haveria uma poupança de 7 781,1 milhões de euros. A receita do OE poderia também aumentar com a tributação das transações financeiras e um escalão adicional do IRC das grandes empresas e respetivos lucros, poderiam ser obtidos 6 342,2 milhões de euros. Portanto, um total de 14 123,3 M€. (2)
É espantoso, afirmar que o capital estrangeiro é que vai empregar trabalhadores e dizer para onde caminhamos e o que temos de fazer. O governo dá o exemplo encomendando relatórios ao FMI, para “repensar o estado”. Eis o que estão a propor: venham para cá, explorem à vontade os trabalhadores portugueses, já submetidos à flexibilização laboral e precariedade, com um vasto exército de reserva de desempregados empobrecidos até à fome, além de termos uma concertação social em que a direção de uma central sindical está do nosso lado sempre que é preciso.
Em três anos, 2008 a 2010, saíram do país em lucros e dividendos, e rendimentos de carteira de títulos, 35 687 milhões de euros, enquanto o país se afundava na crise e se repete que os portugueses consumiram de mais e não há dinheiro para o “Estado Social”. (3)
O capital estrangeiro investe em setores não transacionáveis, recebe benefícios fiscais e outros apoios do Estado – que fica sem dinheiro para investir – ocupa monopólios naturais e serviços públicos que encarece, obtendo rendas. Na primeira oportunidade deslocaliza-se deixando para trás desemprego e compromissos não cumpridos – que os governos ignoram. Despede se assim bem entender, procede ao encerramento de empresas antes concorrenciais no mercado externo para proteger outras unidades suas, sendo o caso mais paradigmático a ex – Sorefame.
Assim ocorreu na Quimonda, na indústria automóvel, na eletrónica, na metalomecânica, na metalurgia. Tudo isto é escamoteado no discurso posto a circular.

3 – OUTRAS MISTELAS
Diz-se que não há trabalho se não houver capital. Falso! O capital só existe gerado pelo trabalho. O dinheiro da especulação, não serve para nada é fictício – capital virtual – como o provam os resgates financeiros deste e do outro lado do Atlântico. Nos EUA 13 milhões de milhões de dólares, para as entidades financeiras não desaparecerem na falência. Na UE 1,6 milhões de milhões de euros entre 2008 e 2011 com o mesmo fim, a que acrescem em 2012 resgates na Espanha e na Bélgica.
Que o capital é gerado pelo trabalho e não o contrário torna-se evidente imaginando uma sociedade sem capital, só com trabalhadores, por ex. uma ilha antes deserta. Havendo recursos naturais haveria a correspondente produção e criação não de capital (no sentido que lhe dá a economia politica) mas de excedente social!
Imaginemos agora nessa ilha, vários capitalistas com todo o dinheiro que quisessem, mas sem trabalhadores. Se não se tornassem também trabalhadores, morreriam de fome.
Foi esta evidência que Marx mostrou ao proletariado: o significado e a génese do capital. Por isso é odiado pelas oligarquias, que para combaterem as teses marxistas nada mais lhes resta que a calúnia, fomentarem a ignorância, além da repressão fascista ou fascizante.
Também se diz que os salários não podem vir do consumo privado. Disparate. Os salários vêm da produção que gera consumo, portanto da redistribuição do rendimento. Ao menos os bonzos do neoliberalismo podiam não esquecer o quadro que o do sr. Quesnay fez no século XVIII!
Mas no sistema que defendem, os salários nunca descem o suficiente. Em 2 anos (2011 -2012) os salários reais decresceram 10%, a que acresce negativamente o aumento de impostos e a redução das prestações sociais.
Claro que nestas arengas não pode faltar a questão do “valor” das mercadorias, que se diz ser dado…pelos consumidores. Não acreditamos que ignorem tudo o que as teses liberais, clássicas e neoclássicas disseram acerca dos monopólios, da formação de preços de monopólio e das rendas (o oligopólio é uma forma mitigada de monopólio). Não vale a pena repetir as objeções aquela formulação. Podemos é perguntar como é determinado o valor dos bens alimentares quando 1 000 milhões de pessoas passam fome no mundo e a especulação se apoderou deste “mercado”. A pobreza e a fome que crescem no mundo, bastaria para deitar por terra esta “miséria de economia, economia da miséria”, parafraseando Marx.
Cumprir o memorando da troika, que só pode ser classificado como um tratado de agressão e ocupação do país, é apresentado com o objetivo de dar confiança aos mercados, como se fossem uma entidade sobrenatural, uma espécie de deus Baal, ao qual os povos têm de se submeter.
Os mercados são dominados por oligarquias que se afundam na corrupção e na fraude. Os casos nacionais são demasiado conhecidos para os repetirmos, lembramos os escândalos da Goldman Sachs, da Lehman Brothers, da Barclays – envolvendo os maiores bancos europeus – do HSBC, dos recentes resgates na Bélgica, no afundamento da banca em Espanha, etc., etc.
Afirma-se então contra o Estado – democrático – que este não deixa respirar o país. A realidade é esta: em 2010: o Estado perdeu em isenções fiscais e benefícios à banca e grandes empresas 9 487 milhões de euros. (2) Em 3 anos (2008 – 2010) a diferença de taxas de juro deu à banca portuguesa um lucro de 3.828 milhões de euros; 13 grupos económicos tenham tido, nos primeiros seis meses de 2012, 10 milhões de euros de lucros por dia (3). Só na primeira década do milénio, a banca obteve 24 mil milhões de lucros.

3 – NACIONALISMO NEOLIBERAL E NEOFASCISMO
Dizer que o capital estrangeiro é que vai determinar o que fazemos e para onde vamos, é desistir do país, é ignorar a Constituição que determina a existência de um Plano económico, é colocar o próprio OE ao serviço de interesses estrangeiros. Vimos o que os move: exigências de dumping fiscal e laboral, deslocalizações, despedimentos, encerramentos de empresas, exportação de lucros.
Sem consistência de argumentos, propala-se então um otimismo voluntarista, desligado das realidades, próximo do cretinismo, de quem quer aliciar “carne para canhão” – neste caso para o máximo lucro – dizendo que se deve olhar para o futuro com confiança e não pensar no imediato.
Mas qual futuro?! O ministro Gaspar, vai dizendo que não há possibilidade de garantir com precisão (veja-se a subtileza da “precisão”) os resultados do processo de “ajustamento” havendo incertezas e riscos que não podem ser contornados. O ministro Santos Pereira diz o mesmo sobre projeções macroeconómicas.
Se estras personagens estivessem a falar seriamente poderiam indicar qual a margem de erro com que determinam as suas projeções, ou seja, a tolerância admissível, grandeza fundamental ao ser estipulado qualquer dado científico. Ao que temos visto a sua “ciência” limita-se a determinar quanto mais se vai tirar a quem trabalha, sejam proletários, sejam MPME.
A economia política vigente consiste em afirmar que um país deve ser gerido como uma boa dona de casa faz. Falso. Escamoteia o que sejam finanças públicas, o papel do OE na economia e a possibilidade de um país criar moeda, o que não acontece à dona de casa. Claro que na UE isso foi entregue *a banca privada, via BCE, sem qualquer justificação teórica e desastrosas consequências práticas, conduzindo à deformação do crédito para as atividades especulativas e não para as produtivas. Há que recordar o papel do(s) PS neste processo.
Temos então uma economia política feita à medida da “dona de casa” – ou da pequena loja – a que se acrescenta propaganda. Só não entendemos, para que são necessários pomposos títulos académicos, doutoramentos e pós-graduações. Para entregar o país às transnacionais e estas dizerem para onde temos de ir e como? Para gerir o país como uma locanda e mais propaganda?
A repulsa que a opinião púbica sente perante as iníquas medidas aplicadas e o desastre a que o país é conduzido é justificado por não terem sido bem “explicadas”. Em resumo, o mundo é perfeito, o sistema intocável, basta as pessoas submeterem-se e trabalharem com o que lhes dão…pois é o “mercado” que determina os salários! A economia não tem de ser redistributiva, mas competitiva! Lembremos Marx: “o proletariado liberta-se suprimindo a concorrência”. 
Como condimento final desta venenosa mistela, surgem “apelos” nacionalistas para debilitar as defesas do organismo social e o vírus atuar plenamente. Os portugueses deviam então não perder tempo a falar de salários, mas a pensar no país, numa “manifestação de orgulho nacional” (mas entregue às transnacionais…) e “fazer economia com enorme alegria”.
Aqui tínhamos de chegar! Vejamos as analogias. Os fascistas proclamavam a “Alegria no Trabalho” – copiando “Força pela Alegria” alemã – escondendo a arbitrariedade, a miséria, a repressão e as prisões. Os militares fascistas brasileiros no mesmo estilo diziam “Brasil, ama-o ou deixa-o”. Podiam acrescentar que se não o deixassem, o preço da dignidade como trabalhadores e do seu humanismo seria arriscar a prisão, a tortura, a morte. Também aqui o governo incentiva a emigração.
A propaganda fascista sempre insistiu para que o povo trabalhasse, não pela recompensa, mas pelo próprio trabalho e pelo “renascimento da nação”. Não diz agora a propaganda que “mais vale a precariedade que não ter emprego nenhum”?
Recordemos então: os fascistas “falam a todo o momento em Pátria, procuram apresentar-se como patriotas; mas na sua verdadeira fisionomia não se lê Pátria, mas traição, traição aos interesses do povo e do país” (4) 
O neoliberalismo, é como vemos, do ponto de vista teórico, escolástica; do ponto de vista da prática neofascismo. Eis o que pomos à consideração dos eleitores e em primeiro lugar dos simpatizantes do PS.

NOTAS
1 – Economic Domino Theory – Capitalista Virus – por Robert Hunziker- www.counterpunch – February 23, 2012.
2 – Segundo dados do doc. Propostas da CGTP-IN – para outro Orçamento – 26.outubro.2012.
3 – (Segundo o Banco de Portugal, em trabalho de Eugénio Rosa – http://resistir.info/ . 04/Jul/11)
4 – Álvaro Cunhal, Obras Escolhidas – Ed. Avante – T.I – p.148.