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Eu não apoio as tropas, e tu, América, também não. Estou farto desta partida que estamos a pregar aos corajosos cidadãos nas nossas forças armadas. E, não sei se já repararam, muitos destes soldados, marinheiros, aviadores e fuzileiros percebem bem a treta nas palavras “Eu apoio as nossas tropas!”, proferidas por norte-americanos com pretensa sinceridade; pretensa porque as nossas acções não correspondem às palavras. Estes jovens homens e mulheres aceitam arriscar as suas vidas para nos proteger; e é isto que recebem em troca:

1. São enviados para combater em guerras que nada têm nada que ver com a defesa dos EUA ou com salvar as nossas vidas. São carne para canhão para que o complexo militar-industrial possa fazer milhares de milhões de dólares e os milionários dos EUA possam expandir o seu império. Quando eu afirmo “apoiar as tropas”, isso significa que tenho de calar a boca, não fazer perguntas, não fazer nada para parar a loucura e ficar sentado vendo milhares a morrer? Bem, eu já fiz muita coisa para tentar acabar com isto. Mas a única maneira de dizer honestamente que apoiamos as nossas tropas é trabalhar dia e noite para as tirar desses sítios infernais para onde foram enviadas. E o que fiz eu esta semana para trazer para casa as tropas? Nada. Então, se disser “eu apoio as tropas”, não acreditem em mim; claramente não apoio as nossas tropas, porque tenho coisas mais importantes a fazer hoje, tais como devolver um iPhone que não funciona e levar o meu carro à revisão.

2. Enquanto as tropas que dizemos “apoiar” servem o seu país, os banqueiros que dizem também “apoiar as nossas tropas” retomam as casas desses soldados e despejam as suas famílias enquanto eles estão fora! Fui eu ao departamento da polícia quando se preparavam para despejar a família de um soldado de sua casa? Não. E aí está a prova de que eu não “apoio as nossas tropas”, porque, se apoiasse, organizaria protestos em massa para bloquear as portas dessas casas. Em vez disso, tenho um belo prato de peixe para o jantar.

3. Quantos de vós, dizendo que “apoiam as nossas tropas”, visitaram um hospital de veteranos para ajudar e reconfortar doentes e feridos? Eu não o fiz. Portanto, poderiam bem dizer que eu não “apoio as tropas”, nem vocês.

4. Quem, de entre vós, entusiásticos “apoiantes das nossas tropas” sabe dizer-me o número aproximado de mulheres violadas no Exército? Resposta: 19 000 soldados, na sua maioria mulheres, são violadas ou vítimas de violência sexual, a cada ano, por companheiros de armas do Exército dos EUA . Que fizemos, eu ou vocês, para levar esses criminosos perante a justiça? Parece que vos estou a ouvir dizer: “longe da vista, longe do coração”. Estas mulheres sofreram e eu nada fiz. Portanto, não me deixem dizer “eu apoio as nossas tropas”, porque, infelizmente, não é verdade. E vocês também não o fazem.

5. Ajudar um veterano sem abrigo, hoje? E ontem? Na semana passada? No ano que passou? Ou alguma vez? Mas eu pensava que “apoiavam as nossas tropas”! O número de veteranos sem abrigo é impressionante; em cada noite que passa, pelo menos 60 000 veteranos dormem pelas ruas do país que orgulhosamente “apoia as suas tropas”. Isto é uma desgraça e uma vergonha, ou não é? Isto desmascara todos estes “apoiantes das nossas tropas” que votam sempre contra os programas sociais que ajudariam estes veteranos. Esta noite haverá pelo menos 12 700 veteranos do Iraque / Afeganistão sem abrigo a dormir na rua. Nunca estendi uma mão para ajudar um dos muitos veteranos que vi a dormir na rua. Não suporto vê-los e passo por eles a correr. A isso se chama não “apoiar as tropas”, que é o que faço, tal como vocês.

6. E sabem, o que é fantástico neste “apoio” que damos as nossas tropas é que eles sentem este amor e este apoio de tal modo que há um número recorde de soldados a suicidar-se a cada semana que passa. Em boa verdade, há agora mais soldados a suicidarem-se do que mortos em combate (323 suicídios em 2012 até Novembro, face aos 210 em combate). Sim, é mais provável morrer pelas próprias mãos no Exército dos EUA que ser morto pela al Qaeda ou pelos Taliban. Uns estimados 18 veteranos suicidam-se a cada dia que passa, ou em cada cinco, no cômputo de suicídios nos EUA (embora ninguém saiba exactamente quantos são, porque não nos preocupamos em manter esse registo). A isso que é que eu chamo apoio! Estas tropas sentem o nosso amor! Deixem-me ouvir-vos dizer: “Eu apoio as nossas tropas!” Mais alto! “EU APOIO AS NOSSAS TROPAS!” Isso, já está melhor. Tenho a certeza que eles nos ouviram. Não se esqueçam de agitar a nossa bandeira e de a usar na lapela, e nunca, mas nunca passem por um membro do exército sem dizer “obrigado pelo que fez”. Tenho a certeza de que é quando basta para os impedir de meter uma bala na cabeça. Façam o vosso melhor para manter o vosso “apoio”, porque, sabe Deus, eu já não posso mais.

Eu não “apoio as tropas” nem nenhum outro lugar-comum vazio e hipócrita dos que bradam os Republicanos e os assustados Democratas. Eis o que apoio: o seu regresso a casa. Que sejam bem tratados. Apoio a paz, e peço a todos os jovens que leiam isto e que estejam a pensar juntar-se ao Exército dos EUA, por favor, reconsiderem. O nosso departamento de guerra pouco tem feito para mostrar que não porão as vossas jovens vidas em risco por uma causa que nada tem que ver com aquilo que subscreveram. Não vos ajudarão depois de vos terem usado e hão-de marimbar-se para vocês quando regressarem à sociedade. Se forem mulheres, não vos protegerão dos violadores que existem no Exército. E porque vocês têm consciência e distinguem o certo do errado, não quererão ser usados para matar civis noutros países que nada nos fizeram de mal. Estamos actualmente envolvidos em pelo menos meia dúzia de acções militares em todo o mundo. Não se juntem às estatísticas apenas para aumentar os lucros da General Motors, entretanto livre dos impostos que vos poderiam pagar a prótese que há meses esperam receber.

Eu apoio-vos e tentarei fazer mais para vos apoiar. E a melhor forma que vocês têm de me apoiar, e aos ideais em que os norte-americanos dizem acreditar, é saírem do Exército assim que puderem, sem pensar duas vezes. E, por favor, na próxima vez que um qualquer “apoiante das nossas tropas” vos disser, com aquela expressão preocupada, “obrigado pelo vosso serviço”, têm a minha permissão para lhes partirem a cara (em sentido figurado, claro).

(Houve de facto uma coisa que fiz para apoiar as nossas tropas, para além de me juntar aos esforços para pôr fim a estas guerras sem sentido. Dirijo um cine-teatro em Michigan, onde me tornei no primeiro habitante a instituir um plano para contratar veteranos retornados do Iraque / Afeganistão. Estou a trabalhar para que mais negócios na cidade se juntem a este esforço de encontrar emprego para estes soldados retornados. Também permito o ingresso gratuito no cinema, todos os dias, aos membros do Exército).

3 de Janeiro de 2013 (Information Clearing House)

Tradução: André Rodrigues P .Silva

In Diário a 2 de Fevereiro de 2013

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