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Desde que se tornou figura pública como «n.º 2» do Executivo de Passos Coelho, o ministro Miguel Relvas abraçou, a mãos ambas, a ribalta. Nos primeiros meses, falando «em nome do Governo» em cada esquina televisiva, tornou-se omnipresente e cedo foi aparelhado como o «Rasputine por trás do trono», em versão paroquial. Nesse tempo, o sorriso penteadíssimo exudava felicidade e quase dava gosto vê-lo, em tão aprumada alegria. Depois foi o descalabro em catadupa: ameaças a uma jornalista doPúblico, conivências espúrias com o ex-chefe das «secretas», Jorge Silva Carvalho, a vergonhosa licenciatura tirada – não se sabe a quem, como dizia o anedotário nacional – na Lusófona, num ano e sem fazer a maior parte das cadeiras. Exibindo um inaudito descaramento, seguiu em frente como se não fosse nada com ele, marchando, perante o País a rir-se, rumo à glória do mando e da vã cobiça (se é que há por ali umas luzes de Camões).

Tendo ao seu alvedrio um conjunto de privatizações – TAP, ANA e RTP –, o Relvas gerou em cada uma delas um corrupio de contradições desavergonhadas, avanços e recuos sem pinga de seriedade, anúncios sobre anúncios sucessivamente retirados à pressa, estudos opacos, improvisados e sem sustentação, de par com o aparecimento de candidaturas espúrias, como a de um senhor colombiano com nome russo e três nacionalidades a querer abotoar-se com a TAP por uns patacos, ou uns misteriosos «investidores angolanos» a apontar à RTP. Tudo gente das relações de Relvas que, como ironizava uma sindicalista da RTP, é muito dado a «negócios de corredor».

O «processo RTP» tem sido particularmente elucidativo: a sua privatização já foi dada, por Relvas, como «iminente» várias vezes, com variantes desde a privatização de um só canal à concessão de 49% do total – mas tendo o adquirente o direito pleno da sua direcção, rematando-se, esta semana, com a «garantia», dada por Relvas, de 42 milhões de euros para a «reestruturação» da RTP (leia-se despedimentos), enquanto o Governo anunciava que a RTP já não ia ser privatizada.

A proximidade de Relvas a Passos Coelho transbordou, há muito, das negociatas passadas e transformou-se numa simbiose tão intrincada que, manifestamente, o primeiro-ministro não quer ou não consegue governar sem ele, tendo-o sempre e explicitamente apoiado, malgré a escandaleira ambulante em que este se tornou.

Por isso, sendo já paradigma de tranquibérnia governamental, Relvas simboliza também um estilo de governação – um estilo eriçado de improvisos inconscientes, acções infundamentadas, decisões aventureiras, comportamentos totalitários e, sobretudo, uma ignorância e um desprezo chocantes pelos milhões de pessoas em cujas vidas intervém com arrepiante indiferença.

Um estilo, aliás, ideologicamente claro nos seus objectivos de revanchismo de direita, visando apenas destruir as conquistas sociais da Revolução de Abril e retornar o País à miséria do fascismo.

in Avante a 31 de janeiro

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