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Várias vezes responsável da Saúde, Correia de Campos (CC), num artigo publicado em Dezembro no “Público”, resolveu reconhecer pecadilhos de “despesa grossa”, enumerando-os:
“Renovação profunda dos dois grandes hospitais universitários de Lisboa e Porto, construção, em parcerias público-privadas, dos novos hospitais de Braga, Cascais, Loures e Vila Franca de Xira, arrastados desde o século passado.”

Até aí, a expiação de CC é tão ténue que mais parece um auto-elogio. O pecador esclarece:
“Mas nada disso me pesa: os hospitais novos aí estão e pena tenho eu de não ter podido iniciar o Hospital de Todos os Santos, o IPO de Lisboa e outros. Pesa-me sim o ter deixado avançar a monstruosa instalação do Pediátrico de Coimbra, sem ao menos o ter agregado a uma das maternidades ou até as duas e sem o ter integrado nos hospitais da Universidade”. 

Subfinanciando o Serviço Nacional de Saúde, CC não se arrepende de ter impulsionado decisivamente a hospitalização privada que, entre 2008 e 2009, aumentou as receitas em 27% predominantemente à custa das parcerias público-privadas (PPP), conseguindo, só em 2009, 950 milhões de euros*. Espantosamente, o seu pesar centra-se “em ter deixado avançar a monstruosa instalação do Pediátrico de Coimbra”. 

Ora o novo Pediátrico é uma “pequena” unidade, com pouco mais de uma centena de camas, que correspondeu a uma necessidade premente por todos reconhecida, tendo demorado década e meia (!) a ser construído, com um orçamento inicial de 50 milhões de euros, verba pouco significativa, num tempo em que se construíam hospitais próximos em exagero (Abrantes – 278 camas, Torres Novas – 224, Tomar – 144), estádios a mais (1.000 milhões – 20 Pediátricos) e se davam 1350 milhões em créditos fiscais à PT para negócios no Brasil (14 Pediátricos). Mesmo depois do orçamento “derrapar” (nas habilidades do costume) até noventa milhões, o novo HPC continuou a ter um custo modesto se comparado com o enorme gasto nas parcerias de que CC pouco se arrepende (só os juros que se irão pagar pelo Hospital de Braga davam para um novo HPC).

O projecto arquitectónico do Pediátrico (considerado medíocre) foi sendo imposto pela Tutela (pouco sensível às tentativas dos profissionais do HPC para o melhorar), tendo áreas exageradas e outras subdimensionadas, estando longe do gigantismo que CC começou a propagandear, tendo pegado de estaca em mentes predispostas ou mal informadas, a que se juntou agora o actual Ministro, Paulo Macedo, aproveitando a deixa do seu antecessor.

De resto, um hospital pediátrico (até aos 18 anos) não significa um hospital “pequenito”, necessitando de espaços extra para actividades lúdicas e educativas, um Centro de Desenvolvimento e zonas para instalação de pais e acompanhantes, que não existem nos hospitais “normais”.
“Um investimento desproporcionado”, “com várias áreas que nunca foram abertas continuando encerradas”, disse, no passado domingo, Paulo Macedo, levantando o protesto unânime de todos os partidos representados na Câmara de Coimbra.

Quanto ao investimento, para além do que atrás foi dito, muito ainda haveria para dizer. Quanto às áreas encerradas, o ministro omitiu que elas permanecem assim porque a Administração proibiu os Serviços a que estavam destinadas de as ocuparem, criando problemas que quase levaram à demissão dos seus directores.

Como disse o Presidente da Câmara de Coimbra (PSD), Barbosa de Melo: “fazer considerações sobre o novo HPC esquecendo as anteriores instalações é quase uma afronta a quem lá trabalha e aos seus utentes”. 

O HPC, hospital prestigiado, paradigma do que deve ser uma unidade hospitalar do Serviço Nacional de Saúde, tem sido, talvez por isso, alvo dos mais descabidos ataques, que também visam a sua necessária autonomia, hoje mais ameaçada. Todos devemos defendê-lo.

*Médico

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