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As recentes declarações de Fernando Ulrich, no momento da apresentação dos 249 milhões de euros de lucro (livres de impostos) em 2012 do banco de que é presidente – o BPI – trouxeram, uma vez mais, à luz do dia os objectivos da política de direita que o serve a ele e à classe que representa.

 O banqueiro não se coibiu de insistir novamente na tese de que o País «aguenta, aguenta» mais sacrifícios. Se a Grécia aguentou uma quebra do PIB superior a 25%, ou se os «sem-abrigo» aguentam viver na rua, por que razão, na opinião do cavalheiro, os trabalhadores e o povo português não poderão aguentar o rolo compressor do pacto de agressão?

Há quem lamente o sentido de oportunidade do banqueiro, outros há que lhe vangloriam a frontalidade. Mas há sobretudo os que não perdoam o insulto de quem, de barriga cheia à conta dos sacrifícios de todo um povo – relembremos que uma parte dos resultados apresentados pelo seu banco, cerca de 250 milhões de euros, foram alcançados à custa da especulação em torno da dívida pública que o povo português suporta –, dispara a cruel sentença da exploração e do empobrecimento, que este Governo, caso o deixem, concretizará.

Mas Fernando Ulrich não está sozinho na exibição sem pudor das intenções que tem para o País. O processo de recuperação capitalista e latifundista em Portugal leva já mais de três décadas e a contra-revolução, embora inacabada, destruiu muitas das conquistas de Abril; a União Europeia aprofunda o seu carácter federalista, neoliberal e militarista e assume-se cada vez mais como uma estrutura ao serviço dos monopólios; o capitalismo, embora mergulhado na mais profunda crise desde a «grande depressão», beneficia ainda das trágicas derrotas do socialismo nos países do Leste da Europa; o controlo dos principais meios de produção por parte do grande capital, o desemprego em massa, o recuo em históricas conquistas dos direitos dos trabalhadores, contribui para acentuar o poder das classes dominantes; e, por fim, o domínio dos principais órgãos de comunicação social pelo capital, cria a ilusão de que têm o terreno completamente livre para impor a sua lei.

Em lados opostos

Na actual conjuntura, com o País a ser alvo de um processo de intervenção externa e um Governo com espírito de missão, o grande capital solta a língua e exibe com cinismo e arrogância os seus objectivos. Traçam metas para o Governo, aplaudem as troikas, rejubilam com o «êxito» dos ministros e detractam os que se tornaram descartáveis. São convidados, entrevistados, agraciados. Sem intermediários, assumem pela sua própria boca que a política que está em curso é aquela que os serve. Américo Amorim, em entrevista ao Expresso neste fim-de-semana, põe os «pontos nos iis» e afirma que, se pudesse, a primeira coisa que faria era alterar a Constituição; Ricardo Salgado não cabia em si de contente com o embuste do «regresso aos mercados», ou não tivesse ganho largos milhões à conta dessa operação; Alexandre Soares dos Santos confrontado com a fuga aos impostos que pratica dispara «tenho o direito de defender o meu património»; o cumprimento do pacto de agressão é defendido em uníssono; figuras como Mário Soares, Balsemão, Cavaco, Passos, Portas ou Gaspar são elogiadas desbragadamente; os cortes nas funções sociais do Estado, os despedimentos na Administração Pública, o roubo nos salários e nas pensões são defendidos com unhas e dentes, em nome do equilíbrio das contas públicas, ou seja, como mal necessário para a reconfiguração de um Estado cada vez mais à sua medida.

E há em tudo isto uma pressa, uma urgência, que não conseguem disfarçar. O ajuste de contas com Abril está em fase acelerada e a perspectiva de retomar os níveis de exploração de quem trabalha, de concentração e acumulação de capital, próximos daqueles que se registaram no fascismo, está aí.

Mas há, no entanto, uma enorme pedra no seu caminho. Tal como nós, os grupos monopolistas conhecem o motor da história. Sabem que os seus planos para mil anos, pela força da luta dos trabalhadores e dos povos, podem ser derrotados. Temem, como sempre temeram, o papel do nosso Partido, a sua organização e capacidade de influência, os seus objectivos imediatos e o seu projecto.

Nos tempos mais recentes, a situação nunca esteve tão clara. De um lado o grande capital e os seus serventuários. Do outro, os trabalhadores e todas as classes e camadas antimonopolistas. De um lado, o Governo, o Presidente da República e os partidos da política de direita. Do outro o PCP, todos os democratas e patriotas, as organizações e forças empenhadas na ruptura com a política de direita e num Portugal com futuro. A derrota deste Governo e desta política é um objectivo justo e mobilizador, difícil de concretizar, mas decididamente ao nosso alcance.

in Avante a 7 de Fevereiro

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