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Os pseudo-debates sobre a reforma/refundação/ou lá o que seja do Estado estão a tornar-se uma verdadeira epidemia. O frenesim para convencer tudo e todos da «inevitabilidade» do corte de quatro mil milhões de euros nas funções sociais do Estado não só parece não ter fim como começou a ser apimentado, digamos assim, nos últimos dias com a possibilidade de, a curto prazo, ser necessário descobrir onde cortar mais quase outro tanto. Ao que parece, a agendada poda de quatro mil milhões não chega para fixar as contas públicas nos mínimos impostos pelas troikas quando chegar ao fim o prazo dos cortes provisórios aplicados pelo Governo aos funcionários públicos, pelo que será necessário cavar ainda mais fundo a cova do desastre nacional.

Perante tamanha calamidade, o número de comentadores e analistas de serviço foi reforçado, repescou-se do baú das antiguidades velhas caras conhecidas, foi-se à cata de outras tantas menos conhecidas, e não há dia nem hora em que o incauto cidadão não tropece com conferências, mesas redondas, entrevistas, análises e reflexões sobre o assunto.

Por coincidência – ou talvez não – entre tanta hora e latim gastos na matéria nem à lupa se encontra mais do que escassos minutos de opinião em contra-corrente. Por mais críticas que pareçam algumas das vozes com efectivo acolhimento nos meios de comunicação dominantes, nem uma chega sequer a aflorar o que deveria ser a conclusão lógica dos respectivos discursos: o problema está no sistema político e não há reforma possível que conduza a soluções justas e duradouras. Mais, nem sequer é admitida a possibilidade, dentro do sistema, de qualquer outra política que não a mesma que conduziu o País ao estado a que se chegou.

Um episódio recente ilustra bem esta realidade. Num desses pseudo-debates de que falamos, onde o contraditório é só de faz de conta, concluiu-se a páginas tantas o óbvio: que os milhares de milhões de empréstimo que o povo paga com a sua crescente miséria de nada serviram para o desenvolvimento do País. Certamente por descuido, o moderador de serviço fez a pergunta fatídica: quer isso dizer que o Partido Comunista tem razão quando diz que o resgate só serviu para salvar a banca? Sem poder fugir ao escrutínio da câmara, o comentador de turno engoliu em seco – com a maçã-de-adão em manifesto desatino – antes de começar a alinhar palavras atrás umas das outras, numa tentativa desesperada de, sem se contradizer, não dar o crédito a esses inconvenientes dos comunistas. Não respondeu à questão. Desviou o assunto.

Entretanto, o massacre continua. Martela-se até à exaustão na inevitabilidade dos cortes porque vivemos acima das nossas possibilidades, com isso se querendo justificar que a saúde e o ensino, sendo para todos, são mais para uns do que para outros, em função do tamanho da bolsa de cada um; que as prestações sociais, garantidas pelas contribuições do trabalho, são um alvo a abater para que a mão-de-obra volte a ser escrava e a caridade triunfe sobre o direito à dignidade.

É por estas e por outras que no sábado é preciso sair à rua, e voltar a fazê-lo quantas vezes for preciso para – como não nos cansamos de dizer – mudar de governo e mudar de política.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2046, 14.02.2013

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