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franciscoPreparava eu  esta coluna e eis que surge, na televisão, o senhor Moedas    explicando, em tom paternalista, ao nosso bom povo – “o melhor povo do mundo (GASPAR, Vitor 2012) – que a “Refundação do Estado” não são cortes, mas sim poupanças, poupanças estas que a todos, no futuro, trarão bem estar e felicidade.

A “Refundação do Estado” para o senhor Moedas é poupança porque o Estado vai ficar mais barato nas áreas sociais (má despesa) e com mais recursos para a boa despesa, a dívida à troika, os benefícios fiscais à banca, as rendas aos empreendedores do Copacabana Palace (sempre a criar  boas PPP como as que, por estes dias, o senhor doutor Relvas anunciou).

Os portugueses não pagarão menos impostos, mas terão LIBERDADE DE ESCOLHA, entre propinas caras ou escola pública para indigentes, entre taxas moderadoras em hospitais PPP ou consultas em hospitais privados e para fazer, ou não, seguros saúde e de reforma. Quem não aguentar a pedalada, tem retaguarda garantida, a sopinha da Tia Jonet.

Não deixo de me interrogar: porque teimam alguns em ver cortes onde há poupança? Anda lá pela minha escola um sindicalista que, qual ave de mau agoiro, escora qualquer conversa, comentário, desabafo com a palavra CORTES, rematando sempre com um “Sabes que mais, estamos *******”.

É o jovem professor contratado (de 35 anos, porque jovens mesmo já não há) que pergunta: “E a suspensão do Concurso Extraordinário?” … e lá vem o corvo: “O concurso é um mecanismo, são os CORTES da “Refundação do Estado” que te vão pôr na rua. Sabes que mais …”.

É o professor do quadro de uma Escola nas faldas da Serra da Estrela, com  45 anos, destacado em Arouca, que comenta: “Para o ano a ver se fico mais perto de casa” …. e eis que surge o abutre: “Com os CORTES da “Refundação do Estado” e mais Megas, com turmas maiores, com o aumento do horário, vais é pegar na “mala de cartão” e voltar a correr o país. E tens sorte não pertenceres a um grupo excedentário, aí ias era para a rua,  via mobilidade especial. Sabes …”.

É o experiente professor, com as suas 60 primaveras, que desabafa: “Ai se acabam com as reduções do 79º do ECD, fico com os mesmos cargos que tenho e levo com mais três turmas!” … e lá aparece o urubu: “A troika mandou varrer de cima para baixo, por isso, com os CORTES na “Refundação do Estado,” vão-te infernizar a vida de tal maneira que tu vais-te embora, mesmo perdendo dinheiro. Sabes …”.

Como pode o país progredir com estes profetas da desgraça? Como não percebe esta gente que há professores e turmas a mais. Ponham os olhos no modelo afegão – uma centena no chão, sentada, decorando umas folhas esfarrapadas e o mestre de chibata velando pela progressão pedagógica dos rapazes.

 O que o país precisa é de gente que dê bons conselhos: estás a levar no lombo, mas é para teu bem!, gente que amplie a voz do senhor Moedas: “Bom Povo, não são cortes, são poupanças”.

in “Discurso Directo” a 15 de Fevereiro