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Entre os custos de produção que o capitalista tem de assumir, encontram-se os custos com o trabalho. A organização dos povos em Estados, libertos fossem de interesses particulares, resultaria na fixação de custos mínimos para elevar gradualmente as condições e a qualidade de vida da população. A organização do Capital em Estado, como se verifica, resulta precisamente no inverso sentido.

Em 1976, dois anos após a Revolução de Abril e do ascenso popular sem precedentes, com contributos dos Governos Provisórios, Portugal conseguiu a melhor distribuição de riqueza que jamais vira até então. E até hoje. Aproximadamente 50% da riqueza gerada era distribuída sob a forma de retribuição pelo Trabalho e os restantes 50% eram distribuídos sob a forma de juros, lucros e rendas, ou seja, Capital.

Em 1976 a distribuição de rendimentos, ainda injusta e iníqua, dada a dimensão do corpo de beneficiários de cada um dos lados dessa balança, era portanto de 50% para o Trabalho, 50% para o Capital.

Quando se coloca como central a questão salarial, a elevação do valor do Salário Mínimo Nacional, é porque esse aumento representa alterações na distribuição de rendimentos que favorecem o Trabalho em detrimento do Capital. Quando se defende a manutenção ou diminuição do Salário Mínimo Nacional faz-se o inverso.

Hoje, 38 anos depois da tomada do poder pelo Capital, através das vestes e camuflagens partidárias de que se cobre – PS, PSD, CDS – os rendimentos distribuem-se da seguinte forma: 60% da riqueza nacional é distribuída sob a forma de juros, rendas e lucros e apenas 40% é distribuída como retribuição salarial. Daí que a luta pelo aumento dos salários não seja uma fixação ou obsessão, mas porque nela reside parte da solução para a situação que atravessamos. Enquanto houver lucro de um patrão na miséria de milhares de trabalhadores, a pobreza será sempre o negócio principal, o core business, dos patrões. 

A batalha entre Trabalho e Capital é o elefante no meio da sala. Bem no meio do Parlamento. Bem no meio das ruas. A luta de classes pode estar sob um manto de invisibilidade, não de Tolkien, mas de Balsemão, mas isso não lhe retira nenhuma centralidade na situação que Portugal atravessa.

A riqueza gerada em Portugal cresce pouco, e nos últimos anos, até decresceu. Mas uma coisa é certa, crescendo ou decrescendo, as rendas, lucros e juros, representam sempre uma fatia cada vez maior na distribuição entre Trabalho e Capital. Quem não percebe que esta corda não é infinita e que não estica para os dois lados, e sobretudo quem deixa de a puxar, não compreende o que de facto subjaz a todo o processo de erosão democrática a que o povo Português está sujeito. Quem deixa de puxar a corda por pensar que ela não existe, entrega-a de mão beijada a quem está bem consciente da sua existência. E não haja dúvidas de que quem tem neste momento 60% da “corda”, sabe bem que ela existe.

Em Portugal, ilustração maior da natureza política do Poder, a esmagadora maioria da população (os trabalhadores) ficam com 40% da riqueza que geram. No entanto, asseguram 73% dos custos de funcionamento do Estado. Uma pequena minoria (os patrões) retêm 60% da riqueza gerada pelos trabalhadores e apenas financiam 27% do funcionamento do Estado.

in “Kontra Korrente”

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