Etiquetas

, , , ,

A crise de sobreacumulação capitalista e o processo de sobreprodução, aliado aos mecanismos de especulação financeira, foram o substrato para o desenvolvimento de uma crise económica e financeira sem precedentes, gerada no ventre profundo do sistema capitalista.

No entanto, depois de um período de culpabilização da banca, de desvario anti-capitalista, em que inúmeras gentes da alta política diziam que “nada poderá ficar como dantes” e que o próprio sistema estaria em causa, o discurso reorientou-se rapidamente para o extremo oposto. A crise rebentou nas nossas vidas, o sistema financeiro implodiu e os Estados de vários países acorreram com o dinheiro dos povos a salvar um sistema que havia desbaratado a riqueza que lhe havia sido confiada.

Desde crimes a desvios oficiais de dinheiro, uma pequeníssima parte dos expedientes e metodologias especulativas da banca, foi dada a conhecer. Mas foi o suficiente para gerar uma inversão temporária do discurso dominante. Os comentadores de direita falavam de necessidade de reforço do papel do Estado. Os partidos de direita tremeram na mensagem neo-liberal e, por um breve momento histórico, a cartilha neo-liberal foi vista com profunda desconfiança e, onde tal interesse, até como fora-de-moda.

Mas tal não durou. Os fazedores de opinião receberem ordens para mudar o discurso. Os partidos da burguesia dita de esquerda receberam ordens para virar mais à direita e os partidos da burguesia não ditos de esquerda receberam ordens para insistir com redobrada força na cassete ultra-liberal.

Muitos cantavam e quase decretavam o fim do capitalismo, como se de um fruto podre se tratasse. Muitos se prepararam para o ocaso do capitalismo, muito embora não tivessem sol que os guiasse. E outros tantos disseram que o capitalismo jamais caíria de podre. Uma vez mais, o capitalismo demonstrou admirável capacidade de adaptação e reconstrução, moldando o discurso, mas essencialmente investindo nos seus instrumentos de domínio. Ou seja, o capitalismo não se adapta à crise através de qualquer enfraquecimento dos seus mecanismos, antes pelo contrário, fá-lo – hoje, como no passado – intensificando a sua natureza predatória, exploratória e agressiva.

O momento actual demonstra como os serviçais do regime contorcem toda a espécie de bom-senso, de lógica dedutiva e de realismo, para continuar a louvar as virtudes de um sistema que atingiu as suas limitações históricas e que é, hoje, o rosto de um acumular de atrocidades por todo o mundo. A fome, a miséria, o sub-desenvolvimento, o desemprego, a precariedade, a aculturação, o crime, a toxicodependência, a prostituição, a poluição, são os reversos da medalha do lucro dos accionistas dos grupos económicos que se passeiam entre banquetes de negócio e caridade. E no entanto, eis que se nos apresenta como solução para o problema da nossa era: o aprofundamento do capitalismo, a liberalização total do mercado.

Se alguma coisa aprendemos com esta crise financeira, não foi apenas que ela é despoletada pela sobreacumulação capitalista e pela excessiva liberalização dos mercados, mas também que o capitalismo não hesita em carregar sobre os Estados toda a espécie de responsabilidades que pudesse ter. A crise passou de um dia para outro, de uma crise do sistema financeiro para uma crise do Estado Social. De crise por excesso de capitalismo passa a crise por defeito de capitalismo. De crise por defeito de direitos passa a crise por excesso destes.

A migração das responsabilidades para o povo e para os seus direitos é directamente proporcional à migração da dívida privada para a dívida pública. Os números falam por si:

  • no 2º trimestre de 2011, a dívida externa ascendia a 220 mil milhões de euros, dos quais 91 mil eram a soma da dívida da administração pública e do Banco de Portugal (58 e 33, respectivamente). 84 mil milhões é o valor da dívida dos bancos a essa data.
  • no 3º trimestre de 2012, a dívida externa (dois anos após a assinatura do Pacto de Agressão) é já de 231 mil milhões, dos quais 117 correspondem à soma da dívida da administração pública com a do BdP. A esta data, a dívida da banca é de 65 mil milhões.

Ou seja, além dos encargos com os juros da agiotagem e da ocupação estrangeira do nosso país, existe uma evidente transferência da dívida privada da banca para a dívida pública. Num contexto em que a soma da dívida externa bruta aumenta, toda a dívida pública aumenta quase 27 mil milhões num período de um ano. A da banca privada diminui 20 mil milhões.

in Kontra Korrente

Anúncios