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– A estreita margem da liberdade consentida

Hoje há mais censura em Portugal do que antes da Revolução de 25 de Abril de 1974. Mas trata-se de uma censura camuflada, que não se assume como tal. Os censores já não são funcionários do Estado e sim empregados, com carteira de jornalista, das empresas que dominam os media portugueses. Eles são contratados (quando não precarizados) preferencialmente pela sua afinidade com a ideologia dominante. Assim já não precisam sequer de auto-censurar-se, aquilo sai-lhes naturalmente. Para os recalcitrantes, há as regras não escritas impostas pelo patronato e pela publicidade que os financia. Nem por serem não escritas elas são menos respeitadas. Pode-se dizer, até, que as regras mais estritamente cumpridas são as não escritas. Os empregados das empresas de TV que não tiverem antenas afinadas para captá-las não terão ali uma carreira muito longa, pouco importando se os canais são estatais ou privados.

Tal como noutros países, os media portugueses (TV e não só) adoptam o sistema da “margem de liberdade consentida”, bem explicado por Chomsky [1] . A diferença com os outros países é que no Portugal de hoje esta margem é extraordinariamente estreita. Entretanto, eles precisam promover algum debate ou fingimento de debate para dar a ideia de democracia. Mas o mesmo tem de ter, necessariamente, limites precisos e rígidos que não podem ser ultrapassados. Devem, de preferência, centrar-se em questões acessórias e ignorar as essenciais. Promove-se assim a ilusão do debate, mantêm-se as pessoas entretidas e faz-se perdurar a ideia de que ainda há liberdade de imprensa.

Para os neófitos nessas lides, aqui vão algumas das regras não escritas da TV-empresa que domina Portugal ministrando-lhe a sua dose diária de desinformação.

  • – É proibido dizer ser desejável, necessário e indispensável que Portugal recupere a sua soberania monetária. Na verdade, a TV portuguesa prefere nem sequer mencionar o assunto: a pertença à Zona Euro é por ela considerada eterna, definitiva, imutável e irrevogável – jamais pode ser posta em causa.
  • – É proibido igualmente recordar que, com o programa da troika, a dívida pública portuguesa aumenta e aumentará cada vez mais, mencionar que já é absolutamente impossível liquidá-la e que por sua causa as riquezas do país estão a ser saqueadas.
  • – É proibido dizer que Portugal já é um contribuinte líquido da UE pois paga mais do que dela recebe. Para esta TV, mencionar a possibilidade da saída de Portugal da UE é o mais terrível dos pecados.
  • – É proibido falar do estado catastrófico em que se encontra hoje a economia e o povo grego sob a ditadura da Troika BCE/UE/FMI. E é ainda mais proibido recordar que em relação a Portugal a Grécia tem apenas dois anos de avanço temporal quanto à imposição de medidas da Troika.
  • – É proibido mostrar imagens com gente jovem em manifestações do PCP.
  • – É proibido falar da existência do Pico Petrolífero e, muito menos, da necessidade de Portugal tomar medidas urgentes a fim de minimizar os seus efeitos.
  • – É proibido falar das munições com urânio empobrecido, das regiões do mundo por ele devastadas, dos soldados que morreram devido à sua contaminação e das suas pavorosas consequências entre as populações civis atingidas.
  • – É proibido condenar os alimentos geneticamente modificados. Se deles se falar será sempre em tom neutro ou apologético, com muito respeitinho para com as transnacionais que os comercializam.
  • – É proibido dizer que o chamado “aquecimento global” (agora ridiculamente rebaptizado como “alterações climáticas”) é uma impostura.
  • – Foi permitido discutir extensamente a localização do novo aeroporto de Lisboa, mas rigorosamente proibido discutir se havia alguma necessidade real de um novo aeroporto (agora o projecto está adiado sine die devido apenas à ruína do país, não por ter sido objecto de uma decisão racional e consciente de rejeição).
  • – É proibido por em causa quaisquer das várias versões incongruentes e absurdas do governo estado-unidense acerca dos acontecimentos do 11 de Setembro de 2001.
  • – É proibido chamar a invasão do Iraque de invasão (e o mesmo quanto as invasões/agressões ao Afeganistão, Líbia, Mali, Síria, Jugoslávia, Sudão ou qualquer outro país por parte da NATO ou de membros da NATO).
  • – É proibido chamar o imperialismo de imperialismo.
  • – É proibido convidar para quaisquer programas televisivos quem possa dizer verdades como estas acima.

[1] Manufacturing Consent: The Political Economy of the Mass Media, Edward S. Herman e Noam Chomsky, Pantheon Books, Nova York, 1988, 412 p., ISBN 0-679-72034-0

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

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