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Intervenção de Jerónimo de Sousa, Secretário-Geral do PCP, Lisboa, Sessão Cultural Evocativa

Permitam-me que vos dirija umas escassas palavras que serão essencialmente de agradecimento a todos os que proporcionaram esta magnifica iniciativa e para desde já, expressar a nossa imensa alegria de vermos reunidos neste acto eminentemente cultural evocativo de Álvaro Cunhal, personalidades oriundas de diversos quadrantes ideológicos e com uma actividade marcante nas mais diversas áreas da nossa vida colectiva.

Queria, em primeiro lugar e em nome do Partido Comunista Português, expressar a nossa gratidão à Comissão Promotora desta Sessão Cultural Evocativa, às prestigiadas individualidades da cultura, das artes e do espectáculo, do desporto, das ciências, do jornalismo, aos militares, a todos os que a compõem e que muito nos honraram com a sua disponibilidade e iniciativa.

Agradecer à Universalidade de Lisboa na pessoa do seu Reitor Prof. António Sampaio da Nóvoa, pela sua inclusão na Comissão Promotora e por todo o apoio à realização deste relevante evento.

Agradecer a todos os artistas e técnicos participantes no espectáculo que se vai seguir e em relação ao qual todos estamos desejosos de conhecer e acompanhar, certos de que será um êxito e um momento de prazer e longa recordação.

Agradecer a todos os presentes nesta Aula Magna, cuja participação valoriza e amplifica a dimensão humana e popular das comemorações do Centenário do nascimento de Álvaro Cunhal e que no fundo são os principais destinatários destas celebrações.

Nesta Sessão Cultural Evocativa, como o afirmam também os seus promotores, homenageamos o homem, o militante, o intelectual e o artista que foi Álvaro Cunhal.

Homenageamos essa figura fascinante e de invulgar inteligência do nosso Portugal contemporâneo que se afirmou como uma referência na luta pela liberdade, a democracia, a emancipação social e humana; o homem de coerência, de firmes convicções, inteireza de carácter; o político de acção e de diversificada e profunda produção teórica, o estadista, mas também o homem de cultura e o artista, e que a presente iniciativa quer tornar particularmente evidente e homenagear.

Uma iniciativa que assume todo o significado ser aqui realizada nesta Instituição, neste espaço produtor e transmissor de cultura, na sua Universidade, onde foi estudante na Faculdade de Direito, membro da Direcção Académica e do Senado Universitário em representação dos alunos. Nesta Universidade, onde praticamente iniciou a sua actividade revolucionária e a ligação ao seu Partido de sempre e onde sob prisão e escolta de uma brigada da polícia política da ditadura fascista, apresentou e defendeu, em Julho de 1940 a sua tese de licenciatura “O aborto, causas e soluções”. Um estudo corajoso e inovador em relação ao flagelo social e humano do aborto clandestino que dilacerava a sociedade portuguesa, num tempo em que os direitos das mulheres eram em Portugal inexistentes e em relação ao qual se apresentava uma solução que só nos primeiros anos deste século conheceu resposta.

Num dia de Festa da cultura como o da iniciativa de hoje, evocar Álvaro Cunhal não é apenas recordar o criador de cultura que foi – lembrar e celebrar a sua expressiva produção artística no campo da estética, da criação literária e nas artes plásticas, a sua reflexão sobre todas as actividades artísticas, da pintura à arquitectura, da música ao bailado, da obra literária, ao teatro e ao cinema –, é acima de tudo mostrar o homem de cultura que era e que está bem patente na forma como via a arte, o papel do artista e a própria cultura.

Autor de uma arte assumida como elemento participante na modificação da sociedade movida por ideais de fraternidade, justiça social e liberdade e por onde perpassa o povo que sofre e luta, Álvaro Cunhal, via e defendia o fenómeno da criação artística como acto autónomo e profundamente livre de imposições. Livre de directivas, de “regras” obrigatórias, de escolas ou tendências estéticas pré-estabelecidas.

A «Arte é liberdade» dizia-nos Álvaro Cunhal. «É imaginação, é fantasia, é descoberta e é sonho (…) Matar a liberdade, a imaginação, a fantasia, a descoberta e o sonho, seria matar a criatividade artística e negar a própria arte, as suas origens, a sua evolução e o seu valor como atributo específico do género humano».

Numa sociedade onde crescem tendências de ostracização do que é diferente, se estigmatiza os que procuram novos caminhos, onde a desesperança é servida quotidianamente em elevadas doses de cinismo, o exemplo de vida de Álvaro Cunhal, a sua força interior, a sua luta e a sua obra continuam a ser fonte de optimismo e confiança e um incentivo para quem luta e acredita na força criadora e libertadora dos homens e dos povos, armados com as armas da sua identidade e da sua cultura.

Bem hajam pela vossa homenagem e presença!

 

 

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