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 Três gerações de trabalhadores gregos

Quando a Grécia entra no sexto ano da pior depressão económica da Europa, com 30% da sua força de trabalho desempregada e mais de 52% da sua juventude sem emprego, todo o tecido social está a dilacerar-se; a taxa de suicídios está a disparar e cerca de 80% da população caminha para o declínio. As relações de família e inter-geracionais sofrem impacto profundo; convicções anteriores evaporaram-se. Incertezas, medo e cólera inspiram protestos em massa diários. Mais de uma dúzia de greves gerais levaram os gregos, desde alunos da escola secundária até octogenários, a uma luta desesperada para conservar os últimos resquícios de dignidade e sobrevivência material.

A União Europeia e os colaboradores gregos pilharam o tesouro, cortaram empregos, salários e pensões, executaram hipotecas de habitações e elevaram impostos. Os orçamentos familiares contraíram para a metade ou um terço dos seus níveis anteriores.

Num crescente número de famílias, três gerações estão a viver sob um mesmo teto, mal sobrevivendo das pensões em redução dos seus avós: algumas famílias à beira da indigência. A prolongada – nunca acabada e a piorar – depressão capitalista provocou uma ruptura profunda no ciclo de vida e nas experiências de viver de avós, pais e filhos. Este ensaio será centrado nos avós, pais e filhos devido a maior familiaridade com as suas experiências de vida.

A rutura inter-geracional pode ser melhor compreendida no contexto das “experiências de vida” contrastantes de três gerações. O foco será sobre as experiências de trabalho, política, família e lazer.

Experiências de trabalho: Os avós

Os avós das famílias, na maior parte dos casos, migraram de áreas rurais ou pequenas cidades durante o período pós guerra civil (1946-49) e muitos estabeleceram-se nos subúrbios pobres de Atenas. A maior parte mal acabou a escola secundária e encontrou emprego mal pago no têxtil, construção e empresas públicas. Os sindicatos não existiam, “semiclandestinos” e sujeitos a dura repressão pelos regimes direitistas apoiados pelos EUA no princípio da década de 1960. Entre os meados e o fim da década de 1970 os avós gravitaram em direção a partidos de “centro-esquerda” e ao renascimento da atividade sindical. Isto ocorreu especialmente entre a crescente indústria de montagem e entre trabalhadores do sector público e nas indústrias elétricas, de telecomunicações, portos marítimos e de transportes. O golpe de 1967 apoiado pelos EUA e a resultante junta militar (1967-1973) teve um impacto duplo: Colocou fora da lei sindicatos e negociações coletivas, por um lado, e estimulou o investimento estrangeiro conduzido pelo clientelismo de estilo corporativo, por outro.

A luta anti-ditatorial clandestina, o levantamento estudantil e o infame massacre na Universidade Politécnica (1973) e o colapso da ditadura militar a seguir ao seu golpe abortado em Chipre, radicalizaram os avós. A legalização de partidos políticos e sindicatos levou a uma explosão de organizações sindicais, lutas e avanços sociais. Aumentos de salários acompanharam a queda da junta. A entrada na União Europeia e o influxo em grande escala de “fundos de coesão social” levou a uma expansão do emprego no sector público e a um agravamento do clientelismo dos partidos políticos, estendendo-se bem além do existente em regimes de direita tradicionais.

Segurança de emprego, pensões e aumentos de indemnizações em caso de demissão criaram uma força de trabalho relativamente segura e estável exceto nos sectores manufatureiros, os quais foram prejudicados pelas importações dos “parceiros” mais industrializados da UE.

Com a eleição do Partido Socialista Pan Helénico (PASOK) em 1981, legislação populista de bem-estar social e aumentos de salários serviram como substitutivo para qualquer socialização consequente da economia. Os ganhos em segurança económica e social foram constantes, cumulativos e levaram a padrões de vida ascendentes. Os avós aderiram aos sindicatos, seus líderes negociaram salários e melhorias nos locais de trabalho e eles enfrentavam o futuro com relativo otimismo. Uma reforma confortável, filhos mais bem educados, um modesto apartamento pago à vista e um pequeno automóvel. Consideravam daí em diante desfrutar o tempo de lazer com a família, amigos e vizinhos. Ou assim parecia na corrida para a Catástrofe Grega de 2008.

Como veremos, o progresso económico da Grécia foi construído sobre fundamentos apodrecidos – sobre empréstimos da UE que foram assegurados através de contas fraudulentas, de um tesouro público pilhados por cleptocratas de dois partidos e por “investimentos” públicos improdutivos em grande escala, atividades clientelistas com “parceiros” de negócios corruptos. Numa palavra, os “anos dourados” da reforma confortável dos avós estavam baseados na ilusão de que um meio século de trabalho e avanços sociais traduzir-se-iam numa respeitável vida digna.

Os pais: Trabalho e diversão

Os pais nasceram urbanos, melhor educados que os avós e altamente influenciados pelo espírito de consumo que permeava a Grécia. Eles entraram no mercado de trabalho no princípio da década de 1990. Viam-se como mais “europeus”, menos nacionalistas, tinham menos consciência de classe e estavam menos envolvidos em lutas sociais do que a geração anterior. O interesse no desporto e em celebridades e o seu próprio avanço social impediam qualquer empenhamento nas grandes lutas sociais dos avós. Eles experimentavam elevações salariais através de negociações do topo para a base. Não davam qualquer atenção ao grotesco enriquecimento da cleptocrática elite política socialista e ignoravam as dívidas crescentes, tanto pessoais como públicas, que “financiavam” suas férias além-mar, a segunda casa e os carros alemães importados. Pagavam generosamente explicadores para prepararem seus filhos para o exame de entrada na universidade. O seu futuro estava assegurado pelos sempre otimistas dados (falsificados) do governo e as avaliações positivas de peritos da UE. Os sindicatos e associações empresariais centravam-se exclusivamente nos aumentos correntes de salários, rendimentos, crédito barato e acesso aos mais recentes brinquedos tecnológicos.

Os pais falam inglês, saúdam uma ainda maior integração europeia e descartam as dúvidas e críticas que os avós dirigem à NATO e guerras israelenses, às desigualdades dentro da UE e aos efeitos da liberalização económica. Eles ignoraram a crítica aos laços estreitos entre os cleptocratas do PASOK, banqueiros locais e estrangeiros, proprietários de navios e plutocratas milionários.

O cinismo era a sua “resposta modernista” à corrupção generalizada e ao endividamento crescente. Desde que recebessem o seu, por que desafiar o status quo? Com o início da Catástrofe Grega, os pais perderam tudo – empregos, segurança social, casas, carros e férias. Os “europeístas” entre eles subitamente tornaram-se críticos violentos dos euro banqueiros – “a Troika” –, os quais determinavam que os pais deveriam sacrificar tudo o que possuíam a fim de salvar os dominadores cleptocráticos, os evasores fiscais milionários e os banqueiros endividados. A catástrofe económica gradualmente corroeu e finalmente estilhaçou a consciência consumista de “europeu moderno” dos pais da classe média e trabalhadora em processo de ascensão social.

Primeiro sofreram sucessivos cortes salariais e a então perderam sua segurança de emprego, seguida por despedimentos maciços com e sem indemnização.

Desalento, medo e incerteza foram seguidos pelo reconhecimento de que estavam a enfrentar o pelotão de fuzilamento financeiro. Eles perceberam que estavam aprisionados numa queda livre sem fim. Foram às ruas e descobriram que toda a sua geração e toda a sua classe fora erradicada e descartada. Os pais descobriram que eram inúteis e tinham de marchar e lutar para reafirmar a sua autoestima.

Filhos: “Quem trabalha?”

A vasta maioria dos filhos está desempregada. Mais de 55%, no princípio de 2013, nunca teve um emprego. A cada dia e semana os seus números crescem quando famílias inteiras são empobrecidas e lares se desintegram. O comparecimento à escola caiu, pois as perspectivas de emprego desaparecem e o espectro do desemprego a longo prazo em grande escala assombra a vida diária. As perspetivas de estabelecimento de casais estáveis e novas famílias entre os jovens são não existentes.

A cultura de rua multiplicou-se e as lojas de vídeo games são mais frequentemente lugares de encontro do que de jogo. O comparecimento a “concertos pop” caiu ao passo que os filhos agora voltam-se em maior número para manifestações em massa de protesto. A crescente politização e radicalização dos filhos agora começa na escola média e aprofunda-se na secundária e nas escolas técnicas e na universidade.

Muitos, com quase 30 anos, nunca tiveram um emprego, nunca saíram da casa dos seus pais ou avós e não podem considerar um futuro casamento ou família. A falta de experiência de trabalho significa uma falta de local de camaradagem e de sindicalização. Em vez disso está a centralidade do informal, a solidariedade entre iguais. As perspetivas de trabalho centram-se na emigração, atropelarem-se por um miserável biscate ou aderirem à luta. Hoje eles vagueiam pelas ruas com cólera, desespero e frustração profunda. À medida que os anos passam, os filhos votam cada vez mais pela esquerda (Syriza) mas estão fartos da ineficaz oposição parlamentar, das manifestações rituais e dos fóruns sociais inconsequentes, caracterizadas por conferencistas locais e estrangeiros que dissertam teorias sobre a crise mas aos quais nunca faltou um emprego ou falhou um cheque de pagamento. A vasta maioria dos jovens desempregados sentem que “palavras são baratas”. Os intelectuais, políticos da nova esquerda e gregos do exterior não ecoam a sua experiência do dia-a-dia nem apresentam soluções tangíveis. Os filhos aderiram a combatentes de rua anarquistas. Até agora poucos dos filhos desempregados responderam favoravelmente ao apelo neonazi da Aurora Dourada. Mas eles dificilmente se entusiasmam com a adoção pela esquerda dos imigrantes que procuram trabalho, especialmente quando os seus bairros são vitimizados por traficantes de droga e proxenetas albaneses, do Médio Oriente e balcânicos.

Experiência política: Os avós e a herança radical

A trajetória política dos avós difere drasticamente dos seus descendentes. Muitos dos seus próprios pais foram guerrilheiros no movimento de libertação nacional (ELAS-EAM), com um milhão de membros, liderados pelos comunistas. Eles combateram os fascistas italianos e o exército de ocupação da Alemanha nazi e tomaram parte ativa na guerra civil. A seguir à intervenção anglo-americana e a derrota dos insurgentes, centenas de milhares de gregos foram enviados para trabalho escravo / campos de concentração onde muitos morreram. Habitantes de aldeias e agricultores foram reprimidos de modo selvagem e expulsos da sua terra. A propriedade foi confiscada e milhões migraram para as cidades em busca de anonimato e emprego. Quando o Partido Comunista foi posto fora da lei, muitos membros e ex-membros aderiram a “partidos progressistas”, a Esquerda Democrática Unida (EDA) em busca de uma alternativa.

Os avós chegaram à idade política com o renascer de “políticas populistas” no princípio da década de 1970, promovidas pelo Partido União do Centro. Após o golpe de 1967, eles enfrentaram seis anos de ditadura militar apoiada pelos EUA (1967-73). Sob o domínio da junta, alguns avós empenharam em atividade política e sindical clandestinas. Com o colapso da junta, a maior parte dos avós aderiu ao recém-formado Partido Socialista dirigido por um Andreas Papandreu radicalizado.

A década de 1970, pós junta, foi um período de intenso debate político e de proliferação de livros, palestras, jornais, fóruns marxistas e eventos de cultura popular. Mikis Theodorakis, o grande compositor comunista, atraía dezenas de milhares aos seus concertos, muitos deles trabalhadores, evocando cenas semelhantes das leituras de poesia de Pablo Neruda a milhares de trabalhadores e camponeses no Chile. Na eleição de 1981, os avós votaram massivamente pela esquerda. O PASOK ganhou mais de 50% dos votos e os comunistas receberam perto de 15%. Quase dois terços dos gregos, e mais de 80% dos trabalhadores gregos, votaram pelo socialismo (ou assim pensavam!).

Os avós celebraram a derrota da extrema-direita e mais de meio século de domínio militar nazi, estado-unidense e da extrema-direita. Os avós tinham grandes esperanças de que Papandreu cumpriria sua promessa de “socializar” a economia. Eles viram a ascendência eleitoral da esquerda como um prelúdio para uma rutura com a NATO e como transição para um estado previdência socialista independente. Apesar de várias conferências socialistas e sindicais sobre “autoadministração dos trabalhadores numa economia socializada” e da bancarrota de grande número de firmas privadas endividadas, Papandreu argumentou que “as crises” impediam uma “transição imediata para o socialismo”. Ele argumentou com a recuperação capitalista da direita e que só depois as políticas “socialistas” podiam ser implementadas. Ignorou o facto de que foi a própria crise capitalista que levou à sua eleição! Muitos avós ficaram desapontados, mas Papandreu, com os hábeis discursos de um demagogo populista, propôs uma série de aumentos de salário substanciais legalizados, ampliou direitos trabalhistas, implementou e aumentou a previdência social e pagamentos de pensões. Os avós contentaram-se com as reformas populistas e a desradicalização do processo político. A partir de meados da década de 1980, os avós continuaram a votar socialista, mas agora exclusivamente com objetivos de ganho económico e expansão da cobertura social em benefícios de saúde e pensões.

Sob Papandreu, o PASOK degenerou num “moscardo” inconsequente dentro da NATO. Sua entrada entusiástica na CEE e sua manutenção de bases militares dos EUA desgastaram os últimos vestígios de atividade anti-imperialista entre os avós. Eles reduziram a sua ênfase e passaram a encarar o PASOK como uma máquina política clientelista, necessária para assegurar emprego e garantir suas pensões.

Com o início da Catástrofe Económica em 2008 e os cortes sociais selvagens implementados pelo absolutamente inepto, corrupto e reacionário George Papandreu Jr., os avós sentiram as primeiras ondas de choque de instabilidade e a ameaça de perderem suas pensões de reforma. Em 2010, os avós abandonaram totalmente seu apoio ao PASOK. Revelações de corrupção e o corte de pensões em 35% levaram os avós às ruas em protestos maciços. Posteriormente, uma maioria votou pelo novo partido de esquerda SYRIZA.

Os avós fecharam o círculo. A re-radicalização acompanhou o retorno do domínio autoritário da direita sob os ditames coloniais da Troika europeia.

Mas agora as pensões dos avós tinham de suportar três gerações. Mais uma vez, a busca de uma novo partido político é tão urgente quanto durante o período imediatamente após a queda da junta militar.

Os pais: A política da mobilidade descendente

Os pais chegaram à política na altura do clientelismo eleitoral. Durante a década de 1990 votaram PASOK, sem quaisquer dos ideais ou ilusões dos avós, nem tão pouco empenharam em quaisquer lutas históricas. Eles votaram os candidatos e partidos que proporcionavam acesso a crédito e empréstimos a juros baixos e oferecia concessões ou promoções lucrativas dentro de uma administração pública altamente politizada. Os pais raramente tratavam de grandes questões ideológicas. Eles viam os debates “capitalismo versus socialismo” como um anacronismo do passado. Estudavam inglês e anglicizaram seus discursos e escritos. Já não prestavam mais atenção às consequências negativas da filiação da Grécia à NATO e à União Europeia. As grandes questões eram o patrocínio da Grécia da Olimpíadas e como lucrar com a profusão de gastos e derrapagens de custos. Os líderes do PASOK deram o exemplo ao tomarem a sua fatia em todo contrato de construção, cozinhando as contabilidades, evadindo-se a impostos e consultando com a Goldman Sachs sobre como acumular dívidas e converter défices em excedentes.

Quando a crise económica os atingiu, os pais foram apanhados desprevenidos. A princípio, eles racionalizaram isso, esperando que “a crise” fosse temporária, que novos empréstimos fluiriam para o resgate; que eles – especialmente aqueles no sector público – não seriam afetados. Como Catástrofe prosseguiu, os pais abandonaram sua apatia e indiferença. Decisões políticas agora afetavam seus salários, seus benefícios sociais e sua capacidade para pagarem suas hipotecas e dívidas de cartões de crédito. A conformidade cínica foi substituída a princípio pela incerteza e ansiedade.

Quando o regime PASOK reduziu o boom e terminou nos despedimentos maciços de trabalhadores do sector público e reduções salariais, os pais primeiro protestaram em vão junto aos “seus” líderes e então puniram-nos através da urna eleitoral. A maior parte virou-se para a esquerda, juntando-se ao SYRIZA, na esperança de recuperar o passado assim como de construir um novo futuro socialista.

Filhos: A política de nenhum futuro

Os filhos chegaram à idade política sem terem experiência anterior de luta ou de mobilidade ascendente. Eles estão cravados na base ou em descida perpétua. Nunca tendo um emprego ou qualquer oportunidade, eles agem para afirmar a sua existência, a sua presença e a sua capacidade para atuar na sua vida diária contra a corrente após a onda de assaltos selvagens patrocinados pela UE. Eles juntaram-se aos seus pais e avós nas enormes manifestações: solidariedade inter-geracional.

Mas só eles carregam o fardo de nunca terem sido membros de um partido político ou sindicato e nunca terem experimentado “a boa vida”. Nunca receberam empréstimos ou favores políticos, mas deles se espera que agora sacrifiquem o seu futuro a fim de enriquecer os credores, os evasores fiscais e os cleptocratas. A sua visão política radica no reconhecimento de que toda a classe política está apodrecida; eles têm as suas próprias dúvidas acerca daqueles políticos que abandonaram o PASOK, juntaram-se ao SYRIZA e agora clamam serem os seus salvadores.

Eles viram as costas àqueles filósofos políticos académicos e jornalistas que falam uma linguagem e elaboram um discurso totalmente divorciado da sua experiência diária. Questionam francamente se a linguagem esopiana de um filósofo italiano falecido (Gramsci) pode levá-los à saída desta catástrofe. Os teóricos de além-mar podem vir e ir, mas a vida torna-se cada vez mais desesperada. Alguns filhos acreditam que só aqueles que atiram um cocktail molotov podem trazer alguma luz temporária no túnel negro da sua vida diária. Os filhos mais combativos empenham-se no combate de rua e aderem ao bloco negro. Os menos audaciosos esquadrinham a Internet em busca de meios para se relocalizar, para emigrar. Raciocinam que seria melhor emigrar para os centros imperiais do que sofrer uma vida inteira nesta colónia devastada e pilhada.

Família: Os avós e o retorno da família ampliada

O jantar de domingo era uma característica do tempo do avô: Uma família reunia-se com carneiro assado e batatas, uma salada camponesa com queijo feta e azeitonas e doces como sobremesa.

Os avós mantiveram a prática até a Catástrofe acabar com mais esta “bela tradição familiar” – assim como tudo o mais que era agradável. Três gerações a viverem juntas, sob o mesmo teto, com uma única fonte de rendimento (a pensão contraída do avô) é uma situação que não conduz a sustentabilidade de boas relações. Poupanças a decrescerem, dívidas a acumularem-se e frustração levam a conflitos e ressentimentos. A cólera é ocasionalmente dirigida àqueles mais próximos do coração. A perda de independência leva a disputas; empréstimos familiares nunca são reembolsados. Os tempos de refeição tornam-se momentos para relatar dificuldades. A brincadeira fácil, o bom humor e o contar de histórias desaparecem num miasma de preocupações acerca da próxima refeição, o orçamento precário da família e a busca infrutífera de emprego.

As refeições tornam-se um tempo de cogitação acerca das tensões da sobrevivência diária.

Pais: Famílias – uma rede de segurança precária

Os pais perguntam: O que acontecerá quando o meu pai morrer e a sua pensão desaparecer? “Como podem cinco de nós sobreviver quando o regime, sob as ordens da Troika, reduziu a pensão do meu pai pela metade? “Como podem duas famílias viver com 500 euros por mês? A última barreira para a privação absoluta para muitos pais é a família ampliada, pois cortes sociais reduzem pagamentos de desemprego e as poupanças estão esgotadas.

Antes da Catástrofe, os pais levavam suas esposas a uma tasca com outros casais na sexta-feira ou sábado à noite para ouvir o buzuki e desfrutar uma refeição completa com mezedes, uma garrafa de bom vinho e muito riso. Ao contrário dos avós, que eram clientes do talhante e do padeiro da vizinhança, os pais compravam em supermercados multinacionais e centros comerciais, sinais de modernidade europeia, “eficácia em termos de custos” e pagavam com o seu cartão de crédito.

As férias em Londres tornaram-se uma memória distante. A casa de família no Egeu foi vendida há muito e as receitas gastas para liquidar dívidas. Eles podem esperar no máximo uma excursão às apinhadas e poluídas praias da Ática para escapar a um abafado fim-de-semana de Agosto.

Os filhos: As famílias estão onde as encontram

As famílias tornaram-se um assunto amargo, não um alívio do mundo exterior sem esperança. Em casa, é sempre “tempo de sofrer”. Os filhos vão e vêm. Eles ouvem música sozinhos. Quem é que quer trazer uma namorada a um quarto apertado sob o olhar desaprovador da avó e caras azedas por todo o lado? Eles vão ao centro da cidade, a zona da Exarcia, ancoram numa loja de vídeo jogos ou carregam uma bandeira negra numa marcha contra a confusão apodrecida, contra os ladrões, banqueiros e credores. Se os seus professores ousarem falar acerca de “democracia e deveres cívicos” – e muito poucos o fazem, até mesmo porque os seus empregos estão em perigo – uma risadinha solitária transforma-se num tsunami de gargalhadas e insultos, a aula interrompe-se e os escolares partilham uns poucos momentos de camaradagem escapando assim à amarga austeridade das suas famílias em desintegração.

Quem torce por sua equipe de futebol? Quem zomba do falso Papandreu, da face suína de Venizelos, dos sugadores de sangue Stumaras e Samaras… Políticos fedem como peixe podre que mesmo um gato faminto não tocaria. Os filhos comparecem a reuniões do SYRIZA. É tudo imbuído de altos ideais e denúncias ferozes com apelos à ação – mas uma outra manifestação? Um outro apelo para “atrair a juventude?” Mas os filhos pensam: Aqui sentamos, nunca estamos nas filas da frente, nós os ouvimos; eles parecem conhecer uns aos outros; falam em códigos que só eles entendem… Assim, perambulamos para fora e fumamos em conjunto ou esmolamos uma cerveja ou encontramos amigos e conversamos dos nossos próprios assuntos.

Paternalismo, patriarcado e piedade filial estão todos mortos. Relações casuais sem perspetivas a longo prazo são a nova realidade.

Lazer: Avós: O café como refúgio

Os avós têm os seus próprios cafés favoritos no bairro. Eles passam ao longo de negócios fechados com tábuas – mais de 160 mil bancarrotas desde o início da Catástrofe. Nos dias de hoje, uma chávena de café é o bilhete para uma mesa, um maço de cartas esmaecidas que ainda mostra algumas das cores dos reis e rainhas. Houve um tempo, quando no decorrer de uma tarde um avô podia encomendar copos de uzo e pratos de mezedes – queijoKasseri e azeitonas – para os seus companheiros do jogo de cartas. Então o estalar dos dominós e o movimento rápido das fichas do gamão ecoariam no café ruidoso e cheio de fumo. Agora um empregado move-se entre a clientela à procura de uma ponta de cigarro. Mesmo empregados profissionais estão com dificuldade em sobreviver numa sala apinhada de sobreviventes. Onde está a geração que substituirá os avós? Os pais não terão qualquer pensão para pagar a sua chávena de café e sentarem-se ali.

Os pais: O fim do tempo livre europeu

Os pais, uma vez gastas horas infindáveis na internet, liam anúncios destinados ao consumidor num ambiente de música pop com canções em inglês enquanto planeavam excursões no fim de semana. Eles assistem na TV os jogos de futebol de domingo para discutirem segunda-feira com amigos ou colegas de trabalho. Não era uma vida luxuosa mas era uma rotina confortável. Tempo de lazer gasto com amigos ou família, com colegas e vizinhos, era uma quebra agradável da tensão do trabalho diário, um impulso para a costa ou para um aprazível sítio rural para um jantar de fim-de-semana.

Com a Catástrofe, o tempo de lazer agora é forçado e abundante. Não há tensões nos empregos, não há empregos e nenhum dinheiro. Tilintam moedas no fundo do bolso, talvez o suficiente para comprar um litro ou dois de gasolina para bater a portas fechadas que não respondem – ou têm editais de bancarrota pregados. Assim, quem é que você vai ver e para onde vai?

Há outra reunião política onde se pode encontrar amigos, invejosos daqueles que ainda possuem um emprego ou aqueles que pedem uma refeição. Há manifestações de protesto e o calor e solidariedade do momento. Há as explosões de vaias a cleptocratas bem vestidos, enfiados no Congresso ou a esgueirarem-se pela porta das traseiras depois de assinarem mais uma sentença de morte – chamada uma Ordem de Austeridade – condenando outra dúzia ao suicídio na próxima semana. O tempo de lazer agora já não é agradável, é de preocupação. Quem pagará as contas médicas dos avós, as injeções de insulina, as taxas escolares do filho, os pagamentos do carro? Certo, os pagamentos da hipoteca já não estão em causa: O apartamento foi retomado. O pai está “livre” daquela obrigação, razão porque ele dorme com a sua esposa numa num quarto vago dos avós. Aquelas noites de fazer amor são agora noites insones de ansiedade profunda. O sono agitado evoca pesadelos de busca paranoica – ou real – através de labirintos escuros, a correr por toda parte sem direção ou familiaridade com as ruas, os edifícios ou as pessoas! O propósito na vida foi-se, juntamente com as memórias de excursões felizes e planos futuros. Agora, a realidade predominante é encontrar um emprego – o que domina tudo. O pai enfrenta o fim dos seus subsídios de desemprego. Será que ele e a sua família irão para uma fila da sopa: Será a do SYRIZA ou da Aurora Dourada? Qualquer dos partidos oferece uma coxa de frango na sopa?

O filho: Lazer: Luz, ruína e combates de rua

Havia grande divertimento, após a saída da escola: As brincadeiras, as ligações, os abraços e beijos públicos. As viagens com mochilas nas costas e o tempo gasto a estudar com amigos … os exames, corridas difíceis e a ansiedade de ter de escolher uma carreira dentro de poucos anos. Aquelas “preocupações” desapareceram. A catástrofe eliminou o “problema do curso”, a dificuldade de escolher carreira… agora mesmo os professores deixaram as salas de aula – saída involuntária – os despedimentos emagreceram as ofertas. Os filhos enfrentam um futuro arruinado… qualquer “carreira” será o mesmo.

Os maiores vigaristas não roubam um banco, eles possuem um – disse um estudante de filosofia numa multidão de filhos quando demonstrava como fazer um cocktail molotov. Um bom em matemática calculou o número de vezes estudantes revolucionários locais e além-mar haviam mencionado a “crise” em uma hora e propôs uma equação, que dava zero resultados positivo. A perda de perspetivas futuras e o fardo de uma vida amarga em casa estão a desgastar todo o respeito por um sistema político e legal que impõe privação, indignidades e humilhação a fim de pagar credores estrangeiros. “Nós pagamos-lhes, assim eles podem acocorar-se ao sol nas nossas praias, comprar as nossas casas, comer a nossa comida, nadar com o rabo despido no nosso oceano e então dizer-nos que somos preguiçosos e merecemos a miséria que estamos a ter”.

Os filhos, tímidos, brincalhões ou timoratos, estão a crescer rapidamente. A maturidade começa aos quinze. As manifestações começaram antes. As lealdades a políticas radicais seguiram-se. O que vem a seguir, “homenzinho”?

Os filhos são um exército crescente de desempregados e amadurecem rapidamente. Hoje estão dispersos. Alguns querem sair – deixar a Grécia… Mas a maior parte permanecerá… Será que se organizarão e moverão para além da atual oposição eleitoral e moldarão um novo movimento radical rompendo com o apodrecido sistema eleitoral repressivo?

Poderão eles tornar-se os militantes de um novo movimento de resistência heroica? Aquele cujo neto escalará as paredes do Parlamento e desafiará os colaboradores coloniais e os seus mestres da Troika.

Quem irá hastear a bandeira de uma Grécia livre, independente e socialista?

 James Petras

25 de Março

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