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O desenrolar dos acontecimentos no Chipre, sujeito a um autêntico assalto comandado pela Alemanha por via do Eurogrupo, levanta um sem número de questões. Tentaremos por isso centrarmo-nos apenas em alguns aspectos chave da situação.

Uma primeira nota vai para o carácter sistémico dos acontecimentos. Não estamos apenas perante um roubo descarado ao Chipre, criminoso de todos os pontos de vista, incluindo o político e de relacionamento entre estados. Nem apenas perante um acto de chantagem descarada sobre todo um povo como o demonstrou o ultimato do BCE ameaçando com uma autêntica bomba atómica financeira.

Estamos também perante um novo patamar de desenvolvimento da crise do capitalismo na União Europeia. Um patamar em que o processo de extorsão de recursos para a esfera financeira e de centralização e concentração de capital atinge um nível superior e é decidido à margem de qualquer controlo político, é esse o «modelo» de que vem agora falar a Comissão Europeia. É a total submissão do poder político ao poder económico, como o comprova o facto de o roubo às poupanças dos cipriotas e aos activos de centenas de pequenas e médias empresas ter sido decidido em Berlim, acordado em Bruxelas e imposto ao Chipre sem passar sequer pelo seu Parlamento.

Mas os acontecimentos no Chipre demonstram ainda um outro traço do desenvolvimento da crise do capitalismo. E esta é a segunda nota: o aprofundamento das contradições entre diferentes sectores do grande capital e por consequência entre potências económicas capitalistas no contexto do aprofundamento da crise. A medida de roubo às poupanças tem objectivos que demonstram até que ponto vai, no contexto da continuação dos processos de desvalorização de capital típico de uma crise de sobreprodução, a guerra económica entre sectores do grande capital.

O confisco criminoso das poupanças depositadas nos dois maiores bancos cipriotas tem duas consequências imediatas: a mais do que previsível fuga de capitais do conturbado Chipre para o «seguro» centro da Europa, mais propriamente para os mesmos mega bancos alemães; e a perda de muitos milhares de milhões de euros por parte de sectores do capital russo. Ora o que motivou parte da violência desta medida foi exactamente o que está por detrás das medidas que até agora vinham sendo tomadas em relação a países como Portugal. Ou seja, as economias do «centro» da Europa tentam a todo o custo construir cordões sanitários em torno do «seu» grande capital. Para isso arrasa-se economias, cria-se o caos económico e social e transfere-se para a periferia as ondas de choque da crise. O que é relativamente novo na situação do Chipre é que essa «exportação» de perdas é feita já não só para a periferia da União Europeia mas também para a Rússia. E é isso que está a irritar de sobremaneira Putin, defensor acérrimo dos interesses do grande capital russo e das suas máfias.

A terceira nota vai para a hipocrisia. Tenta-se justificar esta medida com a ideia hipócrita de que o sector financeiro cipriota estava sobredimensionado porque a sua economia tem uma forte componente de offshore. Ora os que agora afirmam isto são os grandes defensores da liberalização de circulação de capitais, os mesmos que se recusam a taxar o capital e as operações financeiras, aqueles que nem querem ouvir falar do fim de offshores como o Luxemburgo ou a Madeira. Hipocrisia pura para tentar justificar um roubo.

A quarta e última nota vai para o que não se fala. É que em Abril o Parlamento cipriota vai ser chamado a votar o «verdadeiro» memorando da troika. E nesse memorando estão todas as medidas que Portugal bem conhece. Cortes em salários e pensões, destruição de serviços públicos, privatizações, aumentos de impostos, etc… Com um acrescento: os falcões estão de olho nas reservas de gás recentemente descobertas em Chipre. Portanto, como afirma o AKEL, a solução está fora do quadro do memorando, e essa é a única solução!

in “avante” a 28 de Março

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