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O escândalo do roubo às contas particulares dos cipriotas decidido pelos 17 ministros da Economia dos países do Euro, evidenciou que os atilados dirgentes da «Europa Connosco» são aventureiros e, sobretudo, gente nada confiável.

Aventureiros porque, julgando velar pelos interesses do grande capital, atiram borda-fora um dos conceitos proclamados pelo capitalismo – o da garantia de que a propriedade privada é inviolável e inamovível. Ao se proporem assaltar as economias dos cipriotas, arriscaram abrir a caixa de Pandora e desencadear uma corrida generalizada aos bancos, o que lançaria o caos. Imagine-se países inteiros, em pânico, a querer levantar todas as suas economias que não estão nos bancos nacionais, mas pairam, algures, no éter da grande jogatana bolsista internacional.

É claro que a imbecilidade foi emendada 48 horas depois, enquanto se verificava um passa-culpas: todos se transformaram nos queixinhas da primária, todos jurando a pés-juntos que «não foram eles», lançando a suspeição sobre todos os outros. Até os 27 ministros responsáveis directos, também se puseram a assobiar para o lado.

Como era de esperar da troika e associados, a emenda foi pior do que o soneto: o confisco dos depósitos nos bancos cipriotas aplicar-se-á apenas aos montantes acima dos 100 mil euros, mas a visar percentagens à volta dos 30%… para já. Acresce o pormenor de a troika apenas disponibilizar 10 mil milhões de euros dos 14 mil e quinhentos milhões e meio de que Chipre precisa, obrigando o país a confiscar os quatro mil e quinhentos milhões em falta às contas privadas acima de 100 mil euros.

É sabido (pela UE, em particular) que muito do dinheiro depositado em Chipre é pertença de uma miríade de «milionários instantâneos» saídos do saque indiscriminado da URSS. Consta que tais depósitos correspondem ao PIB de Chipre, o que demonstra a enorme fortuna ali retida. Tal como também consta que este feroz ataque da UE a exigir que o governo cipriota se aproprie de boa parte dessa fortuna depositada é porque tal fortuna lhe irá parar aos seus bolsos sob forma de «pagamento» cipriota.

Aliás, o ministro das Finanças francês, Pierre Moscovici, expôs com clareza, no início da semana, que «é preciso acabar com a ‘economia-casino’ de Chipre».

Claro que não quis – nem jamais quererá – acabar também com a «economia-casino» do Mónaco (uma «cidade-casino» sob protectorado francês) ou do Luxemburgo e de mais uma miríade de ilhas que só gerem «casinos» do género.

Mas o sr. ministro só quer estrafegar o «casino» de Chipre – o que não é, decerto, uma opinião desgarrada da nata da UE.

Quanto à «caixa de Pandora» aberta com a inacreditável ideia de se assaltar as poupança dos cipriotas, vamos a ver se a UE a consegue fechar.

Entretanto, o que já todos vimos é que já não há nada confiável, nesta gente que manda na União Europeia.

 

in “Avante” a 28 de Março

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