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O Governo reagiu ao chumbo de medidas do Orçamento do Estado pelo Tribunal Constitucional com uma dramática encenação, desta feita em três actos, tão grotesca que seria hilariante se não fosse trágica a situação do País.

O primeiro acto consistiu na convocatória de uma reunião extraordinária do Conselho de ministros para o dia seguinte à decisão do TC, sábado, como se de uma calamidade de imponderáveis consequências se tratasse – tremam que vem aí a Constituição! Os membros do Governo ficaram de prevenção e cancelaram compromissos. O único dispensado foi Paulo Macedo, despachado para a Arábia Saudita em substituição de Portas, onde tratou de negócios e afirmou que «não está em cima da mesa» a sua eventual ida para a pasta das Finanças.

Concluída a reunião do Conselho, para o exterior apenas transpirou o pedido de audiência urgente ao Presidente da República, a qual teria lugar no próprio dia – quase se podia ouvir o rufar de tambores criando o suspense – e sem especificação do motivo. Driblando os repórteres, Passos e Gaspar, qual dupla Dupont e Dupont, terão entrado e saído em Belém pelo Pátio das Damas como conspiradores, para apimentar a cena. A Presidência divulgaria mais tarde uma nota reiterando o apoio ao Governo. Caía o pano sobre o segundo acto.

O epílogo ocorreu no domingo com a comunicação de Coelho ao País – às seis e meia da tarde para escapar à concorrência do futebol – e foi o que se sabe: arvorou o Tribunal Constitucional em inimigo público número um, responsabilizando-o pelas «consequências muito sérias» de ter declarado inconstitucionais medidas no valor de 1300 milhões de euros; garantiu que não vai aumentar os impostos, sem dizer que é porque essa fonte já «secou»; reafirmou o apego do Governo às funções sociais do Estado e por mor disso anunciou mais cortes na saúde, segurança social, educação e empresas públicas; e jurou fidelidade total aos objectivos do programa da troika. Numa palavra, o que sempre quis fazer.
Terminada a farsa, o palco foi invadido pelos comentadores. Salvo erro, apenas um aventou cortes nas rendas excessivas, nas PPP e coisas assim. Sem sucesso. Todos à uma se viraram para os suspeitos do costume. A ver se aguentam… Ou NÃO!

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº2054, 11.04.2013

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