Etiquetas

,

(ao meu Tio Rui Rubim, mestre em linguajares)

o grito__

Estou de regresso à Paiva, ao rio de mestre Manel Vinagre. Este é o meu lugar de encontro, onde não chega televisão, jornal ou Borda D’água. Aqui, para saber novidades, só através do velho mestre. É ele que leva a magia deste lugar aos viajantes. Ou seja, é ele que nos abre os pinhões, os favos e os rebentos. Que nos lê o interior das cascas, o fundo dos leitos e o miolo de um silvo.

Correm, assim, os olhos como garças pelo rio e é daí que venho para vos dizer que hoje, o mais tardar amanhã, está de chuva.

No meio da ponte de Meitriz, com um sol de esplendor, uma temperatura primaveril e o céu limpo, mestre Manel deu-me essa garantia. Ele não permitiu sequer que se instalasse a dúvida: então não escutava eu os petos reais, as bogas ou as lontras, pelos troncos das árvores ou pelas golas do rio, aos gritos.

– Quais gritos, mestre Manel?

– Aqueles gritos suspensos no ar: Friu-friu-friu! Fuué-fuué-fuué! Fuap-fuap-fuap!

Aqueles gritos suspensos no ar do rio, de tronco em tronco, de margem para margem, são sinais de fome e anúncios de chuva. A cadeia alimentar no seio da natureza, soprada pelo vento e pela ordem animal, auto-suspendeu-se desde a floresta até ao fundo do rio, singular local de culto de pescadores e caçadores, altar perdido na imensidão verde das encostas da Arada a que o velho mestre chama, com inflamado orgulho, paraíso perdido.

Mestre Manel apontou o dedo para uma carvalha e, dando um exemplo, explicou que por vezes, inesperadamente, as formigas recolhem ao interior das árvores e, dali, não saem. Durante esses dias, os petos bicam no tronco, feito loucos, mas formigas nem vê-las. Desesperados e esfomeados, os pássaros desatam, então, em estridente gritaria. E que quando acontece este fenómeno – a que, por aqui, chamam de rinchar  – a chuva não tarda.

Ontem vi levantar-se lá para os lados da ria de Aveiro, onde o Vouga se espreguiça até à entrada da Barra, a rede vazia de mestre Francisco. O meu vizinho, lá na Costa Nova, é um mestre de mar e de pescarias. Agora, metido a pensamentos vadios, ao volante em cima do cheiro de Cacia, um céu violáceo de fumos, de cegonhas e gaivotas diante dos olhos, imagino como seria o grito do meu amigo vizinho, à entre-mesa da sua embarcação, espalhando sinais de chuva e de fome em redor da grande estrada de água onde a ria é rainha e o vento é rei.

O antigo mercantel, que mestre Francisco abilhou e adaptou, com os últimos proventos de faina no bacalhau, já se chamou «Vai com Deus», transportou lixo e sal em Aveiro, foi casco abandonado, chama-se agora «Pela Santa Liberdade» e, ontem, não levava peixe, só carregava o espectro da fome. Tal como carregam três milhões de pessoas por todo o País, ao que estão dizendo, agora mesmo, as notícias da rádio.

Não sei se alguma vez hei-de vislumbrar mestre Francisco deixando escorrer, pela ria, o grito esfomeado dos pescadores da Costa Nova. Ainda menos saberei, no que diz respeito aos gritos dos tais 3 milhões de esfomeados. Sei que, o mais tardar amanhã, vem aí chuva.

Se mestre Manel Vinagre leu bem os sinais.

Calhando sair-me furado o vaticínio, peço nova oportunidade: não é uma viagem a Meitriz que me faz doutor em meteorologia. E, muito menos, em sinais de fome.

Arouca, 22 de Abril

Outros artigos do autor: Álvaro Couto

Anúncios