(Queridos líderes e Grandes Sucessores)

Já aviso: esta estória eu não inventei. Se há parecenças com o culto da personalidade na sociedade norte-coreana, a culpa não me pertence. Ficção e realidade são as gémeas e convertíveis filhas da vida. Sendo que a pergunta permanece irrespondida: as cores do jornal do Pólo Escolar de Rossas constam das mãos dos seus alunos ou são do mundo do marketing  para fins de curral eleitoral?

Este jornal dos alunos não será, pois é o presidente da Câmara de Arouca que, de início ao fim, nele se apresenta. Ali, o que ele é, sempre foi. Não há ninguém que o não reconheça. Kim Yong –위원장 – em versão local, rodeando-se de palmas na inauguração de mais umas paredes novas, com um sorriso cheio de orgulho de si mesmo.

Introduz, de seguida, a presidente da CAP. A professora Adília. Mulher cheia de retrato, com mais cara que rosto. O que ela era, já foi. Ninguém hoje a reconhece. Antes, ela existia na simplicidade, mais miúda que chuva. Agora, lhe subiram os ombros, promoveram-se as pestanas. Mudou quando a professora Adília? Foi quando chegou a presidente da CAP? Coincidência verdadeira, dizia a vizinhança, vendo-a passar mostradiça, em espectáculo de si mesma. Igualmente coincidente, um outro jornal local se enchia também de frases assertivas, lantejoulações pedagógicas, dourados políticos. Nem ela tinha já onde guardar tantas dúvidas e certezas. Tamanho futuro. Presidenta sou, procurando não retaliar ninguém e pouco satisfeita com o Conselho Geral–21 pessoas sem espécie de representatividade. Palavras dela, em saliva de luxo. A professora Adília: ela e o seu universo.

Sucede-se, depois, um tal professor Costa. Mandante no pólo de Rossas, mandado no Agrupamento de Escolas e nos meandros políticos – reescrevo o ditado. Pois o prof. Costa se apagava frente ao presidente da Câmara e à presidente da CAP. Nem lhe valia a idade: debaixo da cuja ele não ganhava nenhuma sombra, nem tão-pouco algum verniz. Costa, reboloso, se meteu pelo jornal dos alunos adentro. Ele já tinha a vantagem de ser o coordenador de estabelecimento, logo director do jornal escolar, mas com a presente edição propangandística se aparentava, pelo menos, com um presidente ambulatório. E assim, pela vida política-partidária, ele se feirava, barquejando as ancas. Ele imaginava o pestanejo do mundo descendo sobre o seu rasto.

Descendo no pedestal do mando, ainda duas páginas para os rascunhos de uma tal de Isabel e do presidente da Junta local. Confesso que já não os li, pois as repetidas fotos coloridas dos personagens anteriores, espalhadas por tudo o que era página, ditaram-me a ameaça do que já se previa: em cimado jornal – usurpado aos alunos do pólo de Rossas pelos Queridos Líderes e pelos seus Grandes Sucessores – vomitei!

Ufa!!! Graças a Deus o pasquim não tinha letra de miúdo!

Arouca, 24 de Junho de 2013

Álvaro Couto

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