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Transcrevo agora os capítulos decisivos da actual crise governamental, não sendo nada do que dizem pr’aí. Isso, nem aproximado é. Para registo da História, aqui segue a particular natureza dos factos:

Por uma bela tarde do último mês de Junho, à hora de intervalo da azáfama governativa e do Falcon da tropa, entrou num supermercado, em Lisboa, de volta ao dulcíssimo remanso familiar, à modorra aprazível das compras lá para casa, o senhor Gaspar, ministro das Finanças, a quem o amor da pátria não movido de prémio vil – embora o seu homólogo alemão se referisse a uma fabulosa carreira como futuro condutor da sua cadeira de rodas – mais uma vez arrastara até Bruxelas, no propósito difícil e aspérrimo de convencionar com os credores deste reino um modo complacente de pagamentos reduzidos das dívidas nacionais, airoso para nós à face da Troika, conveniente para eles à face dos seus interesses.

A julgar por aquilo que os noveleiros do regime afirmaram e os prognósticos do Borda d’Água deixavam adivinhar quanto às melhorias do tempo para os próximos meses, dir-se-ia que o ministro da Finanças sofrera a mais violenta provação para um patriota da sua estirpe, de tamanha competência e desmesurado sacrifício, quando, os clientes daquele supermercado lisboeta, descobrindo o sr. Gaspar também na fila da caixa, desataram a protestar, chegando ao ponto de lhe cuspir no píncaro da cara . . .

Assim, pertinaz no nobre empenho de se esforçar, até ao sacrifício do escarro público, pela defesa dos interesses pátrios, o que é de lusos valorosos carácter, costume, e lei, o alquebrado estadista, em jeito 33 rotações, olhou às agruras de uma jornada portuguesa num supermercado, e certo foi que, ao cabo de uns minutos fechado numa casa de banho com segurança à porta, o sr. Gaspar atingiu o cume desse inenarrável calvário português – levar, diariamente, comida para casa – e de lá expediu ao primeiro-ministro (também a 33 rotações), na asa liberta de um pombo-correio, estas palavras tão brancas como as penas da asa que as levava, cortando o ar em direcção segura, sem o desvio de um único zig-zag, seguindo, tranquila e recta, a linha do dever

– Vossa Excelência, por manifestas erosão social e falta de apoio interno, demito-me!  Do teu Victor Gaspar 

Por isso, á hora anunciada da sua demissão na bocarra da casa de banho, a desconfiada clientela do supermercado por inteiro, ainda acompanhou o sr. Gaspar até à caixa registadora, num largo amplexo nacional.

Ao dia seguinte, porém, assombro indescritível! Esfuziava da banda dos bairros de Alcântara, e corria como doida pelas ruas da Baixa, berrando e zenindo no Largo do Rato, gritando e gemendo no Palácio da Bolsa, guindando-se ao ar em torcicolos no Largo do Caldas, rojando-se por terra em convulsões para os lados de Belém, a notícia que se dera uma explosão no seio do governo, dizendo-se que rebentara o convénio entabulado entre os parceiros de coligação e, obviamente, entre o País e os credores externos. E apontavam-se vítimas e culpados.

Afinal, quando foi possível restabelecer o sossego dos ânimos, e se procedeu a pesquisas, averiguou-se que o sr. Gaspar, cujas distracções e previsões económicas se tornaram lendárias desde este último tempestuoso inverno, com água a potes, em que o ilustre estadista chegando a casa encharcadíssimo fora enfiar e aconchegar no seu orçamento rectificativo, com grande medo das pneumonias, o seu guarda-chuva, para, acto contínuo, a um canto, de pé, lá nos explicar, através das condições climatéricas, o escorregadio deficit do país . . . – o sr. Gaspar, irremediavelmente, distraído e nervoso, dizia-se, rodeado pela desconfiada clientela na fila do supermercado, já confortado de tanta cuspidela e colocada a sua carta de demissão no saco de compras, que havia deposto ao seu lado, enquanto fazia o respectivo pagamento, deitava mãos de um outro embrulho, que fora colocado por mão ignota sobre a passadeira da caixa registadora; e, sobraçando-o, intimamente satisfeito de ter cumprido todos os ditames da sua consciência, pôs-se a caminho de casa, definitivamente.

No dia seguinte, 29 de Junho, por essa tarde de sábado, quando o Primeiro-Ministro Passos Coelho desenrolava aquilo que sr. Gaspar lhe enviara como sendo o escrito da sua demissão do governo e dando-se a fatalidade de estar presente o ministro Paulo Portas que, nesse instante, riscava um fósforo e acendia um cigarro, depois de perguntar: « . . . quanto ao deficit o que determina Vossa Excelência como novo ministro da Finanças?», enquanto o outro respondia: «Ora! . . . Determino a promoção da secretária Luiza «Swap» Albuquerque, para que, à semelhança do sr. Gaspar, haja sol na eira e chuva no nabal!», aconteceu que o lume se comunicou à matéria do escrito e foi então que a explosão se deu . . .

Fora o caso que um grupo de anarquistas, tendo preparado uma vindicta pelo facto de, neste ano, não se repetir a «campanha de 50% nos preços» no 1º de Maio, contavam fazer saltar o supermercado do sr. Alexandre Soares, onde um acaso diabólico levara o ex-ministro a retemperar a dispensa doméstica. Fácil é depreender-se que as bases da demissão do sr. Gaspar substituíram, graças a mais uma das suas famosas distracções, o terrível dinamite que lá estava pronto, esperando o momento em que algum perturbador da paz burguesa, caso do irrevogável Paulo Portas, lhe chegasse o rastilho inflamado da revolução social!

Não tardaram os noveleiros do regime em estabelecer uma analogia terrível entre o ilustre sr. Gaspar e o irrevogável Portas . . .

E alguns conselheiros em matéria de supermercados chegaram mesmo a cogitar numa fulminante proposta de acusação criminal contra eles – os anarquistas!

Só que, por vezes, o País tem destas coisas. O inefável presidente Cavaco, como terapêutica anarquista, mandou regressar os rapazes ao governo, pedindo-lhes mais um sacrifício em nome da Pátria e de maneira a evitar explosões em algum supermercado:

– Sugiro que em cada Conselho de Ministros se faça explodir, pelo menos, . . . uma bomba!

5 de Julho, 2013

Álvaro Couto

alvaronuno@iol.pt

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