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(aos camaradas e amigos arouquenses)

Melhor seria um almoço ou um jantar. Comparado com isso, poucas são as palavras. No entanto é o que tenho para despedida, palavras. E memórias, também elas feitas e desfeitas de palavras. Tudo o que numa carta cabe (e que não é, valha-nos Deus, nem crónica nem grande coisa), tudo o que é possível compreender e dizer com palavras, serve-me para quê, eu que sempre fui de encontros de rua, inconforme por dentro (e, provavelmente por fora) e quando a maioria dos meus amigos, ignorantes de livros, são rostos que gostam mais de falar, e de sorrir, e gritar, e cantar, e exultar, e saudar, e tocar, e abraçar, pois são feitos de uma ternura solidária posta à nossa disposição, diariamente, para celebrarmos todos os sentidos da vida?

Seja lá isso o que for: amizade, camaradagem, cumplicidade, conhecidos, colegas, mãe, esposa, companheiro (a) de um só dia, partilhando connosco o mesmo extremo e (in)concreto lugar da vida. E, no entanto, a despedida é algo impensável, algo que o coração e a razão se negam a compreender, e por isso mesmo quando a esperamos não a esperamos, sobretudo a despedida dos amigos e dos lugares a que nos habituámos a estar e a gostar. Os livros místicos bem podem falar de libertação e de recomeço, a despedida está para além (ou para aquém, sei lá) da possibilidade de sentido.

Embora reconheça que, entre a despedida da última escola onde estive (Rio de Mouro/Sintra) e a minha vinda para Arouca, a minha vida se tenha libertado e, assim, eu tenha recomeçado de algum modo. É que, há quatro anos, qualquer bardo cínico que – como eu – chegasse aqui, se reconciliava com o mundo. O mundo era o mesmo, as pessoas eram as mesmas, a existência não deixava de ser a tragédia absurda de sempre. Porém, de súbito, o lugar abria-se todos os dias, calmo e pacato, de gente boa, o Sol rompia gloriosamente entre as ramagens descarnadas das árvores, o céu era alto e limpo, a luz quase magoava sobre o vale, de tão branca, e então, insensatamente, tudo, mundo e existência, pareciam fazer sentido. Talvez, quem sabe?, o meu coração precisasse de um pretexto para repousar por um momento da desesperança citadina e os olhos para se abrirem para o calor das coisas e para a alegria próprias da província. Mas em dias assim, numa terra assim, dir-se-ia que tudo se conjuga numa imensa conspiração contra o cepticismo. Um amigo telefona para saber se preciso de alguma ajuda, o vizinho convida-me para jantar em casa dele e, na rua à nossa volta, as pessoas são amigáveis, ninguém parece ter pressa, como nos outros sítios, zangados consigo mesmo e com a vida. Até os adversários políticos, apesar de levarem com algumas crónicas mordazes, devolvem-nos sempre uma extrema simpatia.

Que sei eu então, que li quase todos livros que me interessavam, para insistir com palavras que, ainda por cima, a maioria dos meus amigos e camaradas dizem não entender. Dizem eles: as palavras não servem para complicar, mas sim para descomplicar! Como eles têm razão. Tivesse eu metade da agilidade do velho Borges, e não fosse apenas um perro professor de ginástica, e como contaria, de forma simples, as suas histórias. Afinal, trata-se da história de um só homem que desenha, ao longo de anos, um mapa, cobrindo o papel de rios e montanhas, de terras e animais, de flores, de constelações, de céus, e que, antes de morrer, descobre que todo aquele emaranhado de linhas traça a imagem do seu próprio rosto. O que é a vida de cada homem senão o esforço desolado da ordenação do caos num cosmos onde se reconheça?

Porém, pudesse eu, por um só instante, perceber porque, num qualquer sítio dentro de mim, tudo isto tenta agora transformar-se em palavras. E em memórias: gritando também odores desordenados da nossa festa e dos nossos co(r)pos durante todos estes anos, cantando também as vossas vozes, os vossos rostos, os vossos risos, as vossas discussões, que se derramam agora nos meus sentidos como uma música ouvindo-se a si própria. Talvez, só parafraseando um S. João Baptista ou um Aquilino Ribeiro em inversão de marcha, que (ao contrário de mim) foram santo e beirão austeros, dados tanto à palavra como à acção mais do que às euforias existenciais e às tertúlias intelectuais, eu possa explicar esta minha fixação nas palavras: é preciso que eu cresça e que vocês diminuam.

Porque mais do que fazermos amigos, somos deles feitos. Mal nos conhecemos, inaugurámos logo as palavras «camarada» ou «amigo», eu, o Tadeu e o Ataíde e as tribos. A tribo do Partido (com o seu colectivo). A tribo da Escola (o Francisco, o Óscar, o Dias Costa, o Pinho, o Manel, o António e a Sandra e todos os auxiliares educativos e administrativos, o Ângelo e a Rosa juntamente com maior parte dos colegas, e os alunos, com o Pedro Rocha, o Miguel, o Zé, o Vicente, o Gustavo e o Rui à cabeça). E a tribo do coração: o Armando, o Zeferino, o Tó e o Nuno, o Ferrinho, o Luís, o A. Saavedra, o Ramos, o Betinha, o Victor, o M. Vinagre, o Pedro, o Mil-Homens, o sr. Ataíde (pai), o sr. Adão, o sr. Melo, a Drª Eduarda, o Raimundo e o São José, e tantos outros. Agora tenho que conceber um mundo sem a sua existência e viver nesse mundo para sempre, aprendendo de novo cada caminho, cada porta, o novo lugar de cada coisa. Ultimamente tenho feito isso muitas vezes, voltar sobre os meus próprios passos para outro lugar, tentando esquecer o quanto fui feliz em Arouca. O maior problema são a mulher e os filhos à minha volta que, quando volta e meia alguém lhes pergunta «donde são?», eles, orgulhosamente, respondem:

– Somos de Arouca!

A prova de que, para mim e para eles, toda esta gente são deuses demiurgos, construtores do mundo.

Pena é que o mundo não seja composto, apenas, com a mesma elevação e pudor dos deuses. Por exemplo, ainda hoje não faço a mínima ideia, como é que no meu e-mail, uma dúzia de empresas «com a perícia indústria-específica em qualquer tipo de transporte, sejamos ele pela terra, o ar ou o mar», souberam do meu mais guardado segredo: que estou desempregado. É que se, hoje, estou a ir embora de Arouca, não se deverá a um atropelamento na esplanada provocado por um hoteleiro – ou era um camionista? – destravado (que porventura, sabe-se lá, não terá tomado a medicação naquele dia), mas porque me aconteceu o que aconteceu a mais de um milhão de portugueses nos últimos anos: emigrei ou imigrei «sejamos ele pela terra, o ar ou o mar».

Mas, seja lá para onde for, certo é que, nesse algures, levarei Arouca às costas. Arouca e tudo o que isso implica. Dizem que os arouquenses são frequentemente gente de fé. Embora «os» arouquenses seja apenas um conceito e eu bem saiba que «é preciso, imperioso e urgente» desconfiar dos conceitos. Em Arouca não há conceitos, há indivíduos, e mesmo esses são seres mutantes, desiguais de si mesmos. Pensamos com conceitos, mas o pensamento é um exercício de cepticismo. E, algo que, pensando, se aprende é a ser céptico em relação aos conceitos. Acreditei em muitas coisas (e, hélas!, em muitas pessoas) ao longo dos anos. Muitas das coisas e conceitos em que acreditei tinham afinal um rosto sórdido, e a maior parte das pessoas em cuja fé confiei desertou, desistiu de «transformar o mundo e mudar a vida» e anda hoje por aí a tratar da «vidinha».

Tudo se desmoronou? Não. Como nos livros do Astérix, esta pequena/grande terra resiste ainda e sempre ao invasor, a da amizade (que ó mais elevado modo do amor). E a da camaradagem, essa particular espécie de amizade. Sobre tão frágil e melancólica pedra, ou sobre o que dela resta, construí aqui o meu lugar. A amizade e a camaradagem são, nestes dias, uma forma de resistência, talvez a mais radical de todas.

Porque a amizade não é uma dádiva do céu, é uma espécie de tesouro escondido onde só se alcança depois de ter vencido caminhos e tempestades. Por isso é que despedindo-nos dos amigos, nos despedimos de facto de nós mesmos. (Manuel A. Pina)*

Até sempre, meus camaradas e amigos!

* Como, esta carta, é incapaz de amargura, recorri a algumas citações deste autor que, não sendo da minha particular estima, é (ou foi), no entanto, um dos gurus predilectos do Tadeu. Aonde se chega, só para agradar a este camarada e amigo muito especial!

 

 

31 de Agosto de 2013

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