Nas noites de Natal e de Ano Novo, o primeiro-ministro e o Presidente da República entrarão nas nossas casas e, com a habitual hipocrisia, repetirão o essencial do que nos disseram, hipocritamente, eles ou os seus gémeos, há um, há dois… há trinta e sete anos – sendo certo que, de ano para ano, tudo está pior, muito pior, para a imensa maioria dos portugueses, e tudo está melhor, muito melhor, para aquela escassa minoria para a qual a «crise» constitui um verdadeiro maná.

Neste Natal, é maior o número dos que não têm posses para fazer a Consoada, porque as troikas predadoras lhes roubaram esse direito. E é maior o número dos que irão implorar a ceia de Natal à tradicional caridadezinha, em cerimónias sempre bem propagandeadas e enaltecidas pelos média dominantes, como é da praxe (amiúde recordando-nos salazarentas más memórias), e sem receio de infringir o Evangelho – Mateus o disse: «quando dás uma esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a direita»… Tudo isto a confirmar também esta verdade por demais conhecida: «os ricos dão mais facilmente esmola a um pobre do que um salário justo aos trabalhadores»…

Vem a propósito, então, recordar uma vez mais as primeiras páginas dos jornais que recentemente nos fizeram chegar, em tom triunfal, épicas notícias sobre os aumentos das fortunas dos mais ricos: no ano que passou, o número de milionários cresceu 10% e as fortunas dos 25 mais ricos galgaram todas as fasquias, chegando mesmo a duplicar… Ao mesmo tempo, do outro lado dessa dourada realidade, estão milhões de portugueses aos quais foram roubados empregos, salários, pensões, reformas, saúde, educação, habitação, direitos humanos fundamentais – como o direito a uma Consoada farta e em família…

Os ricos são cada vez mais e estão cada vez mais ricos, os pobres são cada vez mais e estão cada vez mais pobres: eis o resultado de 37 anos de política de direita, nos últimos anos reforçada com o pacto de agressão definido pela troika ocupante – FMI, BCE e UE – e fielmente acatado pela troika colaboracionista – PS, PSD e CDS – com os aplausos entusiásticos do Presidente da República.

«E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à infâmia, à ignorância crapulosa, para produzir um rico?» – assim colocava a questão, no seu tempo, Almeida Garrett.

Cento e cinquenta anos passados, a pergunta mantém igual actualidade e não menor pertinência. E a resposta é a mesma: para produzir um rico, são precisos muitos, muitos, muitos trabalhadores explorados, humilhados e ofendidos, aviltados, assaltados nos seus direitos humanos fundamentais, condenados às privações, à pobreza e à miséria.

Que assim é, vemo-lo todos os dias olhando para a política de direita e para as suas consequências.

Que assim não será no futuro, mostra-o a luta organizada das massas trabalhadoras e populares, tendo como objectivo derrotar essa política e substituí-la por uma política ao serviço dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País. Essa luta que constitui o caminho certo e seguro para dar a volta à situação existente e que nos últimos tempos tem vindo a assumir significativa expressão. Essa luta que não pára, mesmo na quadra natalícia, como nos dizem, entre muitos outros, os trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo – batendo-se pelo direito ao trabalho e pela economia nacional –, os Professores – combatendo as provas da humilhação –, os trabalhadores dos CTT – rejeitando a privatização da empresa e defendendo os seus postos de trabalho –, os milhares de trabalhadores e populares que, por todo o País, participaram na Semana de Indignação e Luta convocada pela CGTP-IN e que culminou com a vigília junto à Presidência da República e com manifestações em Coimbra, Covilhã, Portalegre, Portimão, Vila Real e Castelo Branco. Essa luta que continuará, mais forte e mais participada, no ano que aí vem, prosseguindo até alcançar os seus objectivos – que, mais cedo do que tarde, alcançará.

Nessa luta, esteve e estará profunda e decisivamente envolvido o colectivo partidário comunista, confirmando um grau de militância extraordinário e único, na sua natureza e no seu conteúdo, no panorama partidário nacional – a militância só possível de existir em quem é portador de um ideal feito de liberdade, de justiça social, de paz, de solidariedade, de fraternidade.

Analisando os milhares de grandes, médias e pequenas lutas levadas a cabo no ano que agora finda, um facto emerge, incontestável: o PCP esteve em todas. Organizando-as directamente, ou colaborando na sua organização, ou apoiando-as, os militantes comunistas, enquanto dirigentes e activistas sindicais, ou membros de comissões de utentes, ou participantes em movimentos de protesto e reivindicação, ocuparam sempre a primeira fila da luta unitária, organizada, dos trabalhadores e das populações. E, paralelamente, levaram por diante as muitas outras tarefas partidárias, este ano acrescidas da realização de centenas de iniciativas ligadas ao centenário do nascimento do camarada Álvaro Cunhal, as quais, terminando nos dias 3 e 4 de Janeiro com a evocação, em Peniche, da Fuga Vitoriosa, Rumo a Abril, terão a natural continuidade nas comemorações, durante todo o próximo ano, do 40.º aniversário da Revolução de Abril. Com a consciência de que comemorar Abril, hoje, é lutar por Abril e pelos seus valores alvos de odientos ataques por parte da política das troikas – mas que, contra a vontade das troikas, constituem referências essenciais para o futuro de Portugal.

In jornal Avante de 24 de Dezembro de 2013

 

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