Foi assunto das últimas semanas a morte de Nelson Mandela e o manto (sempre estranho) de unanimidade em torno do seu legado (é de desconfiar). Em Portugal o caso teve  cambiantes autóctones e revisionismo q.b.. Deve ter a ver com o regresso à velha  História, à liturgia do “foi exactamente aqui” ou “exactamente assim” ou “exactamente” qualquer coisa,  que vai regressando às carteiras da nossa escola. Declarou o governo português:

«Com as suas reconhecidas qualidades pessoais, e guiado por sólidos princípios e valores humanos, o ‘Madiba’ foi líder da resistência não violenta ao regime de segregação racial, prisioneiro político, pai da moderna nação sul-africana, prémio Nobel da Paz e Presidente da República.

O que é isto? O que aconteceu à política externa do Estado português? Serve para justificar os comportamentos passados do inquilino do Palácio de Belém? É a versão da política em registo de historieta para criancinhas? Então não era o homem de bigode farto e feições de uma beleza austera o iconoclasta, o que apagou Trotsky da fotografia? Será tese vanguardista  das sumidades da nossa Real Politik, do maduro Cavaco  ao imberbe Maçães?

Nelson Mandela lutou pela queda do regime do apartheid e pela instituição de uma democracia multi-racial na Africa do Sul. Foi preso porque era o líder do braço armado do ANC. A sua condenação a prisão perpétua foi por “alta traição e tentativa de derrube do governo (do apartheid) pela força”, tendo por essa razão cumprido 28 anos de prisão. No seu julgamento afirmou, e bem, que quem define os meios de resistência é o opressor. Após a sua libertação, a 11 de Fevereiro de 1990, e até à sua eleição como Presidente da República, em 1994, liderou um ANC em armas  contra o partido zulu Inkatha e a extrema-direita branca, nas violentas convulsões sociais que se deram.

Eleito presidente teve o rasgo e o génio de fazer a transição de um regime segregacionista e de um país à beira da guerra civil para a actual república sul-africana. Como em tudo na política esta opção teve um preço, implicou pesadas concessões e a manutenção de muitas das desigualdades e injustiças na sociedade sul-africana, mas impediu a guerra civil. Questionável (é a política estúpido), mas bem longe da versão da carochinha da nossa Chancelaria. Como com todos os grandes estrategas da História da Humanidade, luta armada e negociação foram questões tácticas ao serviço do objectivo político perseguido. É (foi) um dos grandes do século XX. A anos-luz dos nossos pequenitos dirigentes. É a vida!

QUEM PAGA A NOVA BANCADA DO ESTÁDIO MUNICIPAL?

Cá pela terra correm rios de tinta sobre quem paga a factura da bancada do estádio municipal,  a parte (sempre) aborrecida (de qualquer repasto)! Como foi tudo de boca, têm para mim a mesma validade as três versões: a do político, a do clube, a do mercador. Só a conduta de um dos três importa porém, a do responsável pelo interesse geral, o autarca. Os outros dois gerem interesses mais particulares, não me dizem respeito. Se isto se traduzir em mais encargos para o erário público, só há um responsável, Artur Neves. E não foi por falta de aviso, o processo não só não é de agora como é nubloso desde a nascença.

In jornal Discurso Directo de 20 de Dezembro de 2013

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