Todas as nações – ou, para ser mais rigoroso, todas as comunidades humanas que acreditam ser nações – se construíram sobre identidades definidas nos últimos 200 anos. A todas elas foram propostos (ou impostos) símbolos sem cuja partilha dificilmente se pode falar de identidade nacional. Que eles sejam efetivamente partilhados, é outra coisa.

Bem podem ter dito aos portugueses do séc. XIX que, por exemplo, Camões ou os Descobrimentos “eram” Portugal; sem terem ido à escola, nem um nem os outros significavam o que quer que fosse para a grande maioria. Já na segunda metade do séc. XX, disseram-nos que Amália e Eusébio “são” Portugal. Um e outro foram nacionalizados.

É neste contexto que devem ser entendidas tiradas como a de que Eusébio está “associado à alma portuguesa” (Passos, PÚBLICO, 6.1.2014) ou de que “se confunde com Portugal” (Bagão Félix, A Bola, 5.1.2014), que “chorou por Portugal” (Cavaco). Na campanha que se abriu para trasladá-lo, como foi feito com Amália, para o Panteão Nacional, Fernando Seara, o comentador desportivo/autarca da direita que se deve ter esquecido do que aconteceu aos feriados da República e da Restauração, entende que “seria grave que se pusessem em causa valores simbólicos de Portugal por motivos financeiros. Quem não o perceber, percebe pouco de Portugal” (TVI24, 6.1.2014). A começar por ele.

Não discuto aqui se Eusébio e Amália são símbolos realmente representativos dos portugueses, ou se o fado, por exemplo, é efetivamente (porque não é…) (um)a “canção nacional”. E talvez fosse interessante perguntarmo-nos se a dimensão nacional destes símbolos lhes estaria identicamente assegurada se ambos não fossem parte intrínseca da cultura popular lisboeta e, pelo contrário, estivessem associados a outra cidade/região do país. O que aqui interessa é que desde há uns 50 anos a grande maioria dos portugueses acha seus estes símbolos. E estes 50 anos são tudo menos um acaso da história. Reclame-se a excecionalidade de Amália e de Eusébio e amplifiquem-se as suas virtudes quanto se quiser, mas há explicações para a adoção destes símbolos que superam em muito as duas personagens em concreto.

Eusébio era um “herói” com o qual os portugueses de vida pobre e dura de há 50 anos podiam empatizar. E podiam-no tanto mais quanto, com a gradual generalização do consumo televisivo, era possível ouvir e ver o “herói nacional”. Numa sociedade em que a grande maioria da população não lia jornais, porque uma boa parte dela nem sequer sabia ler, o futebol começou a ser divulgado nos anos 30 pela rádio e nela ocupou, desde sempre, um espaço privilegiado, que ainda hoje ocupa. Num país onde se trabalhava seis dias por semana (como hoje se volta a trabalhar), o domingo já não era propriamente o dia do Senhor; passara a ser o dia do jogo. 30 anos depois chegou a TV. Mesmo que relativamente rara, porque cara, nas casas dos portugueses até ao fim da ditadura, era vista em grupo no café ou na casa do vizinho, e em grupo justamente como se vê ainda hoje: para ver futebol. Sem rádio ou sem TV, Eusébio ou Amália dificilmente seriam símbolos nacionais. Os dois são dos produtos mais bem sucedidos da cultura de massas portuguesa, de quando esta pôde passar, nos anos 60, a ser partilhada pela grande maioria dos portugueses, e não apenas por uma pequena parte que ia à escola e lia jornais.

Mas não só. Eusébio chegou a Portugal dois meses antes do início da Guerra Colonial. Toda a sua carreira de triunfos coincide com o período em que a ditadura necessitava, como bem escreveu aqui Nuno Domingos, de “defender por todas as formas o mito do pluri-racialismo lusófono”, tentando mostrar que “existia em Moçambique um contexto de igualdade de oportunidades e uma ausência de preconceito racial, bem ilustrados por um percurso de mobilidade social, desde o Bairro da Mafalala até à metrópole e aos grandes estádios europeus” (PÚBLICO, 21.8.2013). O que melhor explica o sucesso da nacionalização de Eusébio é ele ter sido um símbolo de sucesso para milhões de portugueses obrigados a ir para a guerra em África (900 mil), a emigrar (1,4 milhões em 1960-74) para a Europa e as Américas, ou a migrar de todo o país para Lisboa e os seus arredores. Em especial para centenas de milhares de portugueses nas bidonvilles francesas, sujeitos à desgraça universal do desprezo pelo imigrante ilegal, ou para 250 mil soldados, perdidos, depois de dois ou três anos de guerra, no interior de Angola, Moçambique ou Guiné, a dignidade podia ser resgatada, ao menos isso, pelos triunfos do futebol que Eusébio proporcionava. É, aliás, o que o futebol continua a fazer hoje num país devastado, de novo, pela emigração em massa: oferecer Cristianos Ronaldos e Mourinhos (ambos, contudo, com uma presunção cosmicamente oposta à humildade de Eusébio) como “exemplo” para milhões de desempregados, precários, novos (e muitos) emigrantes, todos eles desiludidos, outra vez, com um país onde se lhes quer demonstrar todos os dias que estão a mais, que não são adequados.

Eusébio foi, portanto, um “herói” adequado a um país trágico, que era feito de guerra, desenraizamento e saudade. Salvo a guerra (a colonial, pelo menos), voltámos ao mesmo.

In jornal Público 9 de Janeiro de 2014

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