É possível que entre ingénuos e distraídos tenham causado surpresa as considerações da ministra das finanças, derretida em elogios aos «méritos» do FMI e do programa de exploração, empobrecimento e destruição da vida dos portugueses. Surpresa que se esvai olhando para o anúncio agora conhecido do convite dirigido pelo FMI a Vítor Gaspar para ocupar lugar de topo naquela organização. Recorrendo aos vasto e sabedor acervo proverbial «branco é, galinha o põe» tem aqui aplicação integral. Cúmplices e parceiros daquela mesma agremiação de malfeitoria internacional cuja missão é a de assegurar em escala massiva a extorsão de recursos aos países e povos, Gaspar e Maria Albuquerque revelam o que são e o papel indigno, mas seguramente recheado de proveitos pessoais, a que se prestam. Nada de novo em bom rigor se observado o manancial de antecedentes e factos presentes, que enxameando o núcleo da vida governativa e do poder dominante, revela à exuberância o que os move. Aos que não estranharam ver uma instituição financeira como a Goldman Sachs – epicentro do processo de especulação financeira – destacar para secretário de Estado da Finanças um dos seus homens de mão, talvez não estranhem agora ver um proeminente dirigente do partido do Governo ser colocado em funções do topo daquele banco. Sempre se compreenderá que os que não tendo estranhado nem um coisa nem outra, se esforcem por maioria de razão a convencer todos os outros a que se não estranhe o facto de a Goldman Sachs se ter apossado dos CTT, apresentando-a como uma mera coincidência fruto de um daqueles acasos imprevistos em que se conjugam a oferta e a procura, a ocasião e a oportunidade. Não querendo recorrer ao que a sabedoria popular nos diz sobre o que a ocasião propicia, ficar-nos-emos por um mais corriqueiro «gato escondido com rabo de fora». Do que aqui se deve retirar para lá das personagens que tanto podiam ser estas como outras, é que por detrás deste aparente papel de serviçais se esconde uma teia de relações de poder comandada pelo grande capital destinada a impor ao serviço dos seus interesses uma cruzada de espoliação de recursos, rendimentos e direitos aos trabalhadores e aos povos.

In jornal Avante – 17 de Janeiro de 2014