(ao amigo portista, António Ataíde/pai)

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Lá do alto, da cobertura do Estádio da Luz, o vento começa por empurrar farrapos em lã de rocha sobre o relvado. Pouco depois, os farrapos são já brilhos de estrela a cintilar caindo do céu, a lembrar bonecos de peluches, imitando águias ou leões que descem em rajadas. Neste último domingo, saindo da casa de sonhos do estádio, não vinha o futebol, áspero, másculo, bairrista, do derby lisboeta. Apenas, chegava um temporal dos diabos a ensopar-nos de chuva e vento até à medula. Porém, nem isso desmobilizou das bancadas a respectiva paisagem humana que, eufórica e impaciente, se foi maravilhando, durante quase uma hora, com os olhos postos lá em cima. Lá em cima, era o esplendor do tecto da Luz, tão perto do céu, para onde todas as cabeças se viravam, como no ralo duma espécie de confessionário público.

Cinquenta mil papalvos, numa casa de sonhos, olhando felizes para cima e assobiando distraídos para o lado, com a imaginação a arder.

Na mesma noite, já o próprio primeiro-ministro nos tinha preparado para as falsas ideias de desmoronamento do país, que alguns andam para aí a espalhar. Diz ele, que se quisermos reagir aos arautos da desgraça, «é preciso que mudemos o chip das mentalidades».

Foi assim que a Benfica/TV nem precisou de sair dos caminhos das bancadas da Luz para nos mostrar a nudez ou impor a transcendência da alma lusa, ao confrontar-se a evidência de mais um desgraça nacional.

A pala do Pavilhão de Portugal enche, então, as máquinas de sonhos das duas claques ligados por vermelhos e verdes cachecóis ao luar e ao vento. Sussurram os benfiquistas, junto aos ouvidos dos rivais, que estão sentindo a mesma emoção dos que passam sob a pala de Portugal, «a obra impossível» desenhada por Siza Vieira. Dizem eles, que quando isso acontece, se sente uma espécie de «medo feliz». O medo de que a pala possa cair, mesmo sabendo que não se tratando de uma obra de engenharia tão genial como a do estádio da Luz (até sabendo nós que a pala sofre, actualmente, infiltrações de água por todo o lado), ela nunca cairá.

Na bancada vip, também o ministro da Economia sonha que neva numa estância de inverno transalpina e ele está esquiando. Porém, como o que tomba do céu engrossa cada vez mais, Pires de Lima projecta depois vertiginosas descidas das taxas de juro, em telas de lã de rocha, com os gurus dos mercados bolsistas lançando-se, montanha abaixo, em prova de slalon gigante.

 Entretanto, na mesma bancada, o rosto de Miró enche a máquina de sonhos do presidente da Câmara de Lisboa. A lã de rocha, caindo do céu da Luz, não é senão que uma exposição naturalista dos famosos quadros do pintor espanhol. Toda a sua colecção impressionista, despenhando-se assim das alturas, para o ar livre, revelando ao público, finalmente, o milagre da sua observação e do seu desenho. Exposição de pintura impressionista e ultramodernista, há tanto tempo desejada, quase palpável, quase relevo, ancorando-se aos pés, não de algum BPN, mas do povo que pagou pelo espectáculo mais de 7 mil milhões de euros.

De repente, uma enorme chapa de zinco enche o ecrã, despertando um país que, sentindo esse medo feliz, afinal se encontrava tranquilamente sentado, debaixo de uma pala, a sonhar Índias, a admirar quadros do Miró e a assistir aos altos e baixos das taxas de juros da dívida nacional.

Por sorte, a primeira chapa metálica não encontrou ninguém pela frente. Se encontrasse, era quantas vidas ceifava.

Os papalvos, pela primeira vez naquela noite, aperceberam-se das eventuais consequências da tragédia anunciada há uma hora atrás.

O árbitro, no balneário, que também esteve a sonhar durante esse tempo todo, lá espreitou à janela, donde lhe chegou a notícia de mais desmoronamentos iminentes, cabendo-lhe desligar então a casa de sonhos do estádio.

O derby da capital afundou-se, de vez, ao fim de longos sessenta minutos.

Nem a capital, investida de todo o seu Poder, escapa à evidência destes tempos.

Ao chip do tempo.

Álvaro Couto, in Crónicas a Sul, 2014

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