A ANGÚSTIA DO PENALTY . . .  

(quando marcado em Arouca)

ao amigo Armando (o relatador que a radio consagrou)

B. olha para a bola, pousada na marca de penalty. E vê a baliza: sete metros e trinta e dois centímetros de um poste ao outro, dois metros e quarenta e quatro centímetros entre a barra e o solo, quase 18 metros quadrados por onde a bola pode entrar e beijar as redes, como gostam de dizer os comentadores. B. olha para a bola, vê a baliza. E ouve a multidão, milhares de pessoas à volta do campo, com bandeiras e buzinas, à espera do seu remate, do seu golo, do golpe certeiro que desempate o jogo, que garanta a permanência na I Liga que já brilha sobre aquela enorme camisola – às riscas amarelas e azuis – estendida, pela claque do F. C. Arouca, ao longo da bancada. B. olha para a bola, vê a baliza, ouve o público. E observa o guarda-redes adversário, de braços abertos, sobre a linha branca. O árbitro apitou. Em que estará apensar o guarda-redes, enquanto olha para B., para os seus pés, para o seu rosto, tentando adivinhar a direcção e a força do remate? Pensa no mesmo que B. pensa. Na minúscula diferença que separa o falhanço da glória. B. pode rematar ao poste ou à figura. Chutar para fora está fora de questão. O guarda-redes pode lançar-se para o lado errado ou deixar que a bola raspe nas luvas e entre. Basta uma hesitação, um piscar de olhos, para cair no inferno. B. olha para o guarda-redes, o guarda-redes olha para B. O estádio cala-se. B. levanta a cabeça, corre para a bola, fecha os olhos no último segundo, remata. E só então se apercebe de que nada serve a sua fé e a sua angústia. São figurantes, ele e o guarda-redes (talvez também o árbitro e o público). São as vítimas de um jogo perverso. Porque a bola não tem vontade própria. Não é ela que decide se entra ou não na baliza. Pelo menos, em Arouca.

Em Arouca, a bola depende. Depende se a bola leva gás ou não. Depende se, à falta de luz, a bola se vê ou não. Em Arouca, a bola até depende, inclusivé, da qualidade dos azeites. Dos azeites do dono da bola e dos azeites do dono das balizas.

Já no meu tempo – o tempo em que eu e os outros putos jogávamos à bola no adro da igreja – a nossa angústia era a mesma. Ou aparecia o padre (o dono das balizas) a invadir o campo de jogo e a correr-nos dali para fora ou, mal houvesse um penalty contra a equipa do dono da bola, este pegando logo nela, arrumava-nos à sua dependência, com as velhas frases: «Acabou-se o jogo. A bola é minha!».

Mas, nessa altura, chamava-se a isto – «coisas de garotos».

Álvaro Couto, in Crónicas a Sul, 2014

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