Na passada segunda-feira, o jornal i sintetizou assim a visão do  Presidente da República para o futuro de Portugal, síntese retirada do seu último documento político, “Roteiros VIII”. A tese, da austeridade para sempre, segundo parece até 2035, encerra duas leituras: a da constatação, será de facto assim se as políticas forem as do Tratado Orçamental da União Económica e Monetária  (assinado por Portugal em 2011), seja com saída à irlandesa, à grega, ou à portuguesa; a da concordância com ela  e, no seu dizer, com as “medidas indispensáveis para a defesa dos superiores interesses nacionais no período pós-troika”.

A constatação tem a vantagem de por a nu a falácia do propagandeado “fim do protectorado” de Paulo Portas e mostra que o pós-troika será a continuação do mesmo, o mesmo que  suscitou a Cavaco Silva a seguinte conclusão:   “a austeridade associada ao Programa de Assistência deixará também marcas que não favorecem o crescimento da economia. É o caso do elevado nível de desemprego, a debilidade da procura interna (….) o enfraquecimento da classe média, a desmotivação dos funcionários e agentes da administração pública e os baixos níveis de confiança económica, social e política”.

A concordância com esta política é que já nos cria uma certa confusão – então se é má a política porquê mantê-la? Pairará sobre o primeiro magistrado da nação  um certo professor de finanças, também ele presidente, mas do conselho, defensor das “virtudes da pobreza”? Segundo alguns escribas é um novo conceito da economia política, a Austeridade Expansiva. Voltando à visão de Cavaco Silva, para o tal rumo é necessário “um compromisso de estabilidade política e de governabilidade, de adoção de políticas compatíveis com as regras fixadas no Tratado Orçamental que Portugal subscreveu, de controlo do endividamento externo, de reforço da competitividade da nossa economia e de estabilidade do sistema financeiro”. Traduzindo em miúdos: estabilidade do sistema financeiro é manter os portugueses a pagar os prejuízos da banca e a financiar a sua recuperação; reforço da competitividade da nossa economia significa aprofundar a política de contenção e redução dos salários e pensões e os elevados níveis de precariedade e desemprego; controlo do endividamento externo traduz-se na não renegociação da dívida (única forma de encontrar os recursos necessários ao investimento público e à  recuperação dos salários e rendimentos roubados aos trabalhadores e pensionistas), endividamento externo este, qual espada de Dâmocles,  que garante a continuação da política de austeridade.

Não satisfeito com o papel de seguro do governo, o que o Presidente da República quer, já há algum tempo, é garantir o instrumento de aplicação do programa pós-troika, o tal compromisso de governabilidade entre PS, PSD e CDS. Isto é, Cavaco quer garantir o que directório europeu destinou aos países periféricos. Saindo a troika estrangeira a troika lusa assumirá o seu papel, teremos troika para sempre. Pobre Pátria! Cada época tem sempre os seus colaboracionistas, os seus Miguéis de Vasconcelos.

O estranho caso do Estádio Municipal, episódio 7.3.2014 – Faz hoje oito dias o jornal O jogo agraciou a Câmara Municipal de Arouca com a medalha de latão, situação por certo desagradável a edis tão fascinados pela boa imagem mediática. Caricato é o caso,  a autarquia possui e equipou a única infraestrutura concelhia de futebol profissional. Arouca tem um único clube de futebol profissional sem infraestruturas próprias. A paixão foi forte no início e como era paixão não se clarificaram as coisas. Agora, não se entendem. Aguardam-se as cenas dos próximos episódios. O que aí vem, provavelmente, não será bonito.

In jornal Discurso Directo 14/03/2014

Anúncios