Tema dominante do «comentário político», ponto de referência da linha editorial dos principais órgãos de comunicação social, motivo principal de algumas das candidaturas que se apresentam aos mais diferentes actos eleitorais, o discurso antipartidos alastra, qual mancha de óleo, na exacta medida em que cresce também a degradação das condições de vida, em que aumenta a exploração, o desemprego, a miséria, a corrupção e a impunidade, em que se aprofunda o processo de reconstituição monopolista e se corrói o regime democrático.

Mas mais do que uma expressão genuína do descontentamento justamente sentido por milhões de pessoas, o discurso antipartidos é um discurso fabricado precisamente por aqueles que provocam, com a sua política, tanto sofrimento aos trabalhadores e ao povo português.

O terreno onde germina é fertilizado todos os dias. Desde logo porque tem um fundo de verdade, ainda que apenas parcial e que resulta do facto de, governo após governo, as políticas seguidas – apesar das promessas e ilusões semeadas por PS, PSD e CDS – obedecerem aos mesmos interesses de classe. Ou seja, os governos mudam, os governantes mudam, os «políticos» mudam, mas as opções de fundo, no que diz respeito a salários, direitos, serviços públicos, impostos, justiça, investimentos, condições de vida, essas, mantém-se, ou melhor, agravam-se. De quem é a culpa? Dos partidos. Assim dizem muitos dos chamados comentadores, mas também ex-governantes, alguns dos quais com elevadíssimas responsabilidades na situação a que o País chegou, mas que não têm nenhum decoro em alimentar este discurso, mesmo que isso retire credibilidade às forças políticas que representam. É que, acima dos interesses, que não podemos subestimar, desta ou daquela «clientela partidária», estão os interesses de classe que serviram e continuam a servir. Daí que o discurso antipartidos seja também tema recorrente na boca de banqueiros, especuladores, grandes accionistas, no fundo, a grande burguesia monopolista não se encolhe de cada vez que tem de, do alto da sua arrogância, disparar contra o que eles chamam de «classe política». O discurso antipartidos serve para apagar a grande contradição, não entre o povo e a «classe política», mas entre explorados e exploradores.

O discurso antipartidos é também um branqueador de responsabilidades. Nas últimas décadas da vida nacional houve quem combatesse o fascismo e os que se encolheram ou colaboraram com esse hediondo regime; houve quem impulsionasse as muitas conquistas de Abril e os que abriram as portas à contra-revolução; houve quem se opusesse às privatizações, às alterações à legislação laboral, à destruição do aparelho produtivo, à entrada na UE e no Euro, ao encerramento de serviços públicos e os que, em conjunto, ou à vez, concretizaram cada um desses passos. Não foram «os partidos» que estiveram nos últimos 37 anos em sucessivos governos, que impuseram os PEC, o pacto de agressão assinado com a troika, que entregaram importantes parcelas da nossa soberania, que reviram e desrespeitaram a Constituição da República. Não foi o PCP, ou os seus aliados da CDU, mas sim, o PS, o PSD e o CDS.

Um discurso perigoso 

O discurso antipartidos procura simultaneamente retirar do horizonte das massas a perspectiva de uma política alternativa, neutralizar o cada vez maior descontentamento, empurrar milhões de pessoas para a resignação ou, em momentos eleitorais como o actual, para a abstenção, o voto em branco ou nulo. Um discurso que, acompanhando a desvalorização da intensa luta de massas e o permanente silenciamento das propostas, iniciativas e posições do PCP, procura difundir a ideia de que «os partidos são todos iguais» para a seguir concluir que não vale a pena. Não vale a pena lutar. Não vale a pena votar. As campanhas eleitorais, enquanto importantes momentos de confronto de posições, têm vindo a ser cada vez mais inundadas de figuras que fazem deste discurso a sua principal linha de intervenção e que são altamente acarinhadas pelos media.

Simultaneamente é um discurso que incorpora e abre caminho a concepções antidemocráticas e mesmo fascizantes que tem como objectivo, na base do populismo, facilitar alterações ainda mais profundas no regime democrático alcançado com a Revolução de Abril, romper com o quadro de direitos, liberdades e garantias que a Constituição da República consagra.

O discurso antipartidos é perigoso para a liberdade, a democracia e a soberania. Serve os interesses do grande capital, das forças que como o PS, o PSD e o CDS, querem a perpetuação da política de direita. Serve aqueles que querem prosseguir o ajuste de contas com a Revolução de Abril e fazer a roda da história andar para trás. O discurso antipartidos é inimigo dos trabalhadores e do povo e contrário às justas aspirações de emancipação humana e de transformação da sociedade. É um discurso que precisa de ser combatido no terreno do esclarecimento e da verdade, contra a deturpação e a mentira. É uma tarefa de todos os dias, incluindo, nesta importante batalha que travamos pelo reforço da CDU nestas eleições para o Parlamento Europeu.

in “Avante” a 15 de Maio

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