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bruno_carvalho_01Há 50 anos, um grupo de 46 homens e duas mulheres resistiram às vagas sucessivas de ataques de um exército formado por milhares de soldados apoiados por carros de combate, bombardeiros da força aérea e forças norte-americanas de elite. A operação militar ordenada pelo governo conservador de Guillermo León Valencia deu lugar à épica resistência de um punhado de camponeses cuja luta é hoje acompanhada por milhares de guerrilheiros em prol do progresso e da justiça social. O primeiro combate dá-se no dia que marca a criação das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia: 27 de Maio de 1964. Sob o comando de Manuel Marulanda, Isaías Pardo e Jaime Guaracas, os combatentes conseguem superar o assédio militar e organizar em Julho desse mesmo ano uma conferência que produz um dos textos políticos fundamentais da resistência colombiana. No Programa Agrário, dirigido aos camponeses, operários, estudantes, artesãos e intelectuais revolucionários, dá-se conta da existência de um movimento insurgente, em quatro diferentes regiões, que, desde 1948, sofre a brutal repressão estatal e latifundiária.

Nesse ano, a oligarquia abriu uma profunda ferida na tensa situação que o país vivia assassinando o candidato presidencial que acalentava as esperanças das classes populares colombianas. Dado como provável vencedor, Jorge Eliécer Gaitán foi abatido e o país explodiu de raiva. Nas cidades e nos campos, as populações pegaram em armas e rebentou a guerra entre liberais, comunistas e conservadores. Só em Bogotá morreram mais de 500 pessoas nos dias que sucederam o assassinato. Durante mais de dez anos, a violência vitimou cerca de 300 mil e levou à migração forçada de dois milhões de colombianos num país que não tinha então mais do que 11 milhões. Sobre esse período, um dos históricos fundadores das FARC, Jaime Guaracas, destacou que “foram as circunstâncias, a necessidade de defender a vida” que os obrigou a ser guerrilheiros. No sul da região de Tolima ficaram zonas inteiras desoladas “porque todas as famílias fugiram e as que não o fizeram foram assassinadas”. Com a radicalização do discurso político à esquerda, o governo militar de Rojas Pinilla declara que “o comunismo soviético procura apoderar-se da pátria”. Aprovam legislação copiada das medidas que aplicam nos Estados Unidos, em plena Caça às Bruxas, contra a esquerda norte-americana. Nesse âmbito, proíbem a entrada de Pablo Neruda na Colômbia. Em 1958, um acordo – que acabou por durar até 1977 – entre os partidos conservador e liberal para acabar com a contenda conduz à formação de um governo de unidade entre as duas organizações. Uma amnistia geral levou à desmobilização e ao desarmamento dos principais grupos em confronto mas em várias regiões, sob a direcção dos comunistas e de liberais dissidentes, o campesinato acossado pelas consecutivas agressões dos latifundiários decide não entregar as armas.

Em 1965, já um ano depois da fundação das FARC, o número de guerrilheiros triplica. Hoje, são a maior força popular comunista em armas da América Latina. Combatem um dos mais importantes exércitos do mundo com cerca de meio milhão de soldados e com o apoio directo dos Estados Unidos. O investimento norte-americano na guerra colombiana é superado apenas pelo apoio que Washington oferece a Israel. Para além das tropas oficialistas, as FARC-EP e o povo colombiano sofrem ainda o acosso militar das forças paramilitares carniceiras financiadas pela oligarquia e pelos cartéis da droga que controlam o poder político. Este conflito que dura há mais de 50 anos é o tema central das negociações de paz que decorrem em Havana entre as forças beligerantes e dominou a campanha para a segunda volta das eleições presidenciais que se realizaram em Junho. De um lado, estava o reeleito Juan Manuel Santos, ao qual a esquerda decidiu dar o seu apoio para manter acesa a chama do processo de paz. Do outro , estava Óscar Zuluaga.

O único sangue não derramado é o da oligarquia

«Se ganhar as eleições, suspendo os diálogos», foi assim que o candidato apoiado pelo ex-presidente Álvaro Uribe reagiu aos resultados que o colocaram na dianteira da primeira volta das eleições presidenciais. Mas para lá da retórica sanguinária de quem prefere o país mergulhado em violência, há quem se questione por que são sempre os filhos dos trabalhadores a empunhar as armas da oligarquia. A guerra que se trava na Colômbia há mais de meio século é entre classes distintas. Contudo, nas montanhas, selvas, campo e cidade, enfrentam-se mulheres e homens com o mesmo historial de miséria. Apesar da mesma condição social, a adesão à guerrilha e ao exército faz-se por diferentes razões. Nos bairros mais pobres das principais cidades colombianas, as forças armadas são muitas vezes uma das poucas opções que restam para a fuga à tragédia social do país mais desigual da América Latina. Por outro lado, quem adere às FARC-EP fá-lo por convicção política e pela necessidade material de conquistar um futuro colectivo de dignidade.

Há quadros que multiplicados por mil revelam a dureza das condições de vida de milhões de colombianos. Num dos seus últimos livros, o jornalista Jorge Enrique Botero revelava a vida de uma jovem cuja experiência atesta a violência sobre quem vive nas traseiras dos Estados Unidos. Filha de uma prostituta e de um comerciante de coca, Solangie era maltratada pela família. Em pequena, os irmãos atiraram-lhe ácido sobre a barriga e, aos 12 anos, ela própria esfaqueou um padrasto que a tentara violar. Habituada a ver passar colunas de guerrilheiros pela sua aldeia, nas profundezas da Colômbia, facilmente se sentiu fascinada pela forma organizada e educada com que tratavam a população. Ali, junto ao rio Guaviare, não havia Estado. Era a própria guerrilha que patrulhava as ruas e ajudava a resolver os diferendos locais. Foi assim que Solangie começou a colaborar com as FARC. Primeiro dando-lhes informações sobre quem havia começado determinada rixa e, posteriormente, sobre quem eram os homens mais ricos da região. «Sabia trabalhar no campo, sabia andar de bicicleta e a cavalo, sabia ler, escrever e pintar. Adorava pintar. O melhor que desenhava eram os mapas e foi pelos mapas que vim parar à guerrilha», descreveu Solangie.
Pelas características da guerra que trava e por óbvias razões históricas de uma organização construída por camponeses, as FARC-EP subsistem, principalmente, no campo. Mas é falsa a ideia de que a organização guerrilheira está arredada das cidades e que resiste apenas circunscrita nas zonas mais inóspitas do país. Há uma semana, centenas de jovens estudantes encapuzados comemoraram o 50º aniversário das FARC-EP dentro da Universidade Nacional, em Bogotá. Cá fora, impedidos de violar a autonomia universitária, tanques militares disparavam jactos de água para o interior do edifício ao mesmo tempo que recebiam o impacto de pedras e cocktails molotov. Há décadas que muitas gerações perseguidas de jovens universitários, sindicalistas e comunistas abandonam as comodidades próprias da vida na cidade e dão o difícil salto para uma realidade que lhes é alheia. Aprender a viver nas montanhas é como aprender a andar de novo dizem muitos dos que o fizeram. Mas isto não significa que as FARC-EP não operem nas grandes cidades. Seja através do Partido Comunista Colombiano Clandestino (PCCC), seja através das Redes Urbanas Antonio Nariño (RUAN), a actividade nos principais centros populacionais da Colômbia é reconhecida pelas próprias forças policiais e militares.

As FARC lutam pelo fim do narcotráfico

Forjada pelo Pentágono, a grande mentira veiculada pela imprensa é a de que os guerrilheiros comunistas se dedicam à produção e tráfico de cocaína. De facto, as FARC-EP controlam territórios em que os camponeses não têm outra forma de subsistir senão através do cultivo das folhas de coca e da sua venda. Sucessivamente, os comandantes farianos têm proposto a erradicação da produção e tráfico de droga através de um programa de substituição de cultivos que dignifique o campesinato e lhe dê condições para viver da produção agrícola. É esse um dos temas centrais que está em cima da mesa nos diálogos de paz e o programa apresentado pelas FARC-EP é claro nos seus objectivos: «Gerar condições materiais e imateriais para o bem-estar das comunidades agrícolas e dos núcleos familiares que as conformam – que, na actualidade, conseguem a sua precária subsistência através do cultivo da coca, amapola e marijuana – num contexto de transformações estruturais da sociedade rural, próprias do processo de reforma rural e agrária integral, socio-ambiental, democrática e participativa que o país e os despojados do campo reclamam».

A justiça social é o caminho para a paz

A oportunidade para a paz, fortalecida pela mobilização das organizações de trabalhadores, camponeses e indígenas, só tem um caminho segundo as organizações guerrilheiras. Como as FARC, também o Exército de Libertação Nacional (ELN) defende que não é possível o fim do conflito sem a erradicação das razões que conduziram à violência: a injustiça social e a perseguição e criminalização das organizações de esquerda. Desde que os combates começaram, há mais de 50 anos, foram várias as ocasiões perdidas para um cessar-fogo definitivo. Em 1984, durante a governação conservadora de Belisario Betancur, as negociações conduziram à formação do partido União Patriótica (UP) composto não só por alguns membros da própria organização mas também do ELN e activistas de importantes movimentos sociais, sindicalistas e militantes do Partido Comunista Colombiano. O processo de paz rompeu-se com a tragédia genocida que se abateu sobre a UP e com o ataque militar ao acampamento onde estavam instalados os comandantes do secretariado das FARC. Nos dolorosos anos em que os guerrilheiros e as organizações de esquerda tentaram abrir caminho à paz, foram assassinados mais de 5 mil militantes da UP e, entre eles, dois candidatos presidenciais, oito deputados, 13 deputados regionais, 70 vereadores e 11 presidentes de câmara. Muitos dos candidatos e dos eleitos encontraram na selva e nas montanhas, abraçando a luta armada, a única forma de sobreviver.

Só uma década depois é que as FARC-EP se voltaram a sentar à mesa das negociações. Em 1998, as imagens do presidente Andrés Pastrana à espera do comandante Manuel Marulanda, em San Vicente del Caguán, abriram telejornais em todo o mundo. Nesse processo, o governo aceitou desmilitarizar um pedaço de território do tamanho da Suíça para facilitar os diálogos de paz. O conturbado processo terminou em 2002 com a posterior eleição de Álvaro Uribe, ex-autarca e suspeito de ligações ao narcotráfico, para presidente da República com a instauração da política de «Segurança Democrática» que levantou duras críticas de organizações de Direitos Humanos e se traduziu em milhares de mortos. A modernização das forças armadas colombianas e o envolvimento cada vez maior dos Estados Unidos e da sua tecnologia na guerra traduziram-se em perdas importantes para a organização guerrilheira. Durante os dois mandatos de Álvaro Uribe, faleceu por razões naturais Manuel Marulanda, líder histórico, e caíram em combate vários comandantes do secretariado do Estado-Maior Central das FARC: Ivan Ríos, Raul Reyes, Jorge Briceño e Alfonso Cano.

Apesar dos duros golpes, as FARC-EP adaptaram a sua actividade à nova realidade militar. Depois do extraordinário desenvolvimento da sua estrutura, entre os anos 80 e 90, e de assumir uma linha táctica que lhe permitia suster, em alguns casos, uma guerra de posições, as FARC-EP regressaram à mobilidade necessária para atacar e retroceder sem que isso represente importantes custos para a organização guerrilheira. A verdade é que nos últimos anos têm conseguido manter uma estrutura estável e chegaram aos diálogos de paz com o necessário poder negocial para arrancar importantes vitórias nos acordos que já foram assinados com o governo.

A Colômbia lidera anualmente muitos dos rankings mundiais de sindicalistas e jornalistas assassinados. É também o país com o maior número de deslocados internos do mundo. A luta pela paz não está, por isso, confinada a quem luta também através dos canos das metralhadoras. Partidos, sindicatos e movimentos representativos de importantes sectores sociais da Colômbia têm batalhado para conquistar a paz. Porque a guerra não é apenas entre as organizações guerrilheiras, o exército e os grupos paramilitares. É também contra os trabalhadores, os estudantes e os indígenas, privados da liberdade política de se poderem expressar e lutar num contexto legal por um mundo melhor.

Mas é também injusto dizer que as FARC apenas se dedicam à guerra. Muitos camponeses recorrem aos médicos guerrilheiros para cuidar da saúde. Entre a folhagem da selva e das montanhas, erguem-se verdadeiras cidades. Em muitos casos, é a fronteira da dignidade. Os guerrilheiros estudam, levantam hospitais nos sítios mais improváveis, erguem as suas emissoras clandestinas de rádio, jogam futebol em campos improvisados e organizam peças de teatro. Acordam todos os dias às quatro da madrugada e adormecem às oito da noite. Sonham com o dia em que Bogotá esteja nas mãos dos trabalhadores. Inspirados pelos princípios de Marx e Lénine, e pelo exemplo de Simón Bolívar, as FARC-EP mantêm-se fiéis às razões que levaram aqueles 48 camponeses a levantar-se em armas em 1964. Ao contrário do que dizem as agências internacionais de notícias, as FARC seguem uma trajectória própria que deve ser entendida dentro das circunstâncias da difícil realidade que tentam transformar. Esta organização guerrilheira que em meio século não se vergou ante a oligarquia colombiana e o imperialismo mantém-se firme no objectivo de conquistar a paz e o socialismo. Mas não a paz dos cemitérios em que jazem milhares de revolucionários e progressistas colombianos assassinados. É a paz com justiça social por uma democracia em que os trabalhadores e o povo sejam protagonistas.

in “Diário info” a 30 de junho

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