A realidade – que o planeta inteiro conhece bem – é que desde há três anos os EUA e as potências imperialistas europeias – e não só os seus aliados da região – estão empenhados em financiar e armar o jihadismo para abater Assad. Criaram o ISIL, tal como criaram Bin Laden. Agora mostram-nos vídeos de cidadãos ocidentais decapitados. Mas durante anos ignoraram todos os vídeos que os próprios «rebeldes» colocavam na Internet, vangloriando-se de decapitar soldados, civis, padres cristãos.

Há quase um mês, Obama anunciou ataques aéreos no Iraque e Síria, alegadamente para «atacar alvos do ISIL», o movimento terrorista também conhecido pela sigla ISIS. O saldo é relatado pelo jornalista P. Cockburn no Independent (12.10.14): «Os jihadistas estão prestes a tomar [a cidade de] Kobani, na Síria, e a parte ocidental de Bagdade está em sério perigo». E acrescenta: «Numa ofensiva […] desencadeada a 2 de Outubro, mas pouco noticiada no resto do mundo, o ISIS capturou quase todas as cidades e vilas que ainda não controlava na província de Anbar, uma vasta região do Iraque ocidental que cobre quase um quarto do país». No vizinho Líbano os jihadistas do ISIL atacaram a importante cidade de Baalbeck (Independent, 6.10.14). Tudo isto, apesar dos bombardeamentos norte-americanos (com numerosas vítimas civis) e do regresso ao Iraque de 1600 soldados dos EUA e «dezenas de soldados das forças especiais» do Canadá (Al Jazeera, 3.10.14). Pouco admira que «no Iraque, [haja] profundas suspeitas de que a CIA e o Estado Islâmico estão unidos», como titulava um artigo no New York Times (20.9.14).

Se dúvidas houvesse sobre as origens do ISIL, o vice-presidente dos EUA Joseph Biden, trouxe uma confissão de peso ao falar na Universidade de Harvard a 2 de Outubro: «Os nossos aliados da região têm sido o nosso maior problema na Síria. Os turcos [… e] os sauditas, os dos Emirados, etc. […] Estavam tão decididos a abater Assad […] que despejaram centenas de milhões de dólares e dezenas de toneladas de armas nas mãos de quem quer que lutasse contra Assad – só que as pessoas que estavam a ser abastecidas eram a [Frente] al-Nusra, e a Al-Qaeda, e os elementos extremistas do jihadismo que vinham de todas as partes do mundo. Pensam que estou a exagerar? Olhem bem. Onde foi tudo isto parar? […] esta organização chamada ISIL, que era a Al-Qaeda no Iraque, quando foi expulsa do Iraque encontrou espaço e território aberto na Síria oriental […]. E nós não conseguimos convencer os nossos aliados a parar de os abastecer» (Washington Post, 6.10.14). A confissão de Biden, que o Washington Post considera «surpreendente», não pelo seu conteúdo, mas por «ter sido expressa em público», é duma falsa inocência. Biden culpa os serventuários. Mas é preciso muita ingenuidade para acreditar que a todo-poderosa superpotência mundial, sempre pronta a castigar recalcitrantes países ou dirigentes em qualquer parte do globo, «não conseguia convencer» os seus aliados. A realidade – que o planeta inteiro conhece bem – é que desde há três anos os EUA e as potências imperialistas europeias – e não só os seus aliados da região – estão empenhados em financiar e armar o jihadismo para abater Assad. Criaram o ISIL, tal como criaram Bin Laden. Agora mostram-nos vídeos de cidadãos ocidentais decapitados. Mas durante anos ignoraram todos os vídeos que os próprios «rebeldes» colocavam na Internet, vangloriando-se de decapitar soldados, civis, padres cristãos. Pior: a BBC (5.7.13) deu-se ao trabalho de entrevistar um «rebelde» que pôs na Internet o vídeo em que, não contente com esfolar vivo um soldado sírio, comia os seus órgãos. E até arranjou motivos para «compreender» o canibalismo. A culpa, claro, era de Assad.

É inteiramente legítima a suspeita de se estar perante uma manobra que, longe de querer combater o ISIL, visa elevar o patamar de intervenção imperialista. O Independent(12.10.14) levanta uma ponta do véu (de novo apontando o dedo a outros): «A Turquia está a exigir […] uma zona tampão […], dentro da Síria, onde viveriam refugiados sírios e seriam treinados os rebeldes anti-Assad. O Sr. Erdogan quer uma zona de interdição aérea que também seria dirigida contra o governo de Damasco, uma vez que o ISIL não tem força aérea. Se concretizado, este plano significaria que a Turquia entraria na guerra civil síria, ao lado dos rebeldes». Os pretextos vão variando e tornam-se cada vez mais delirantes. Mas o imperialismo continua a atear fogo ao planeta, no seu afã de dominação.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2133, 16.10.2014

Anúncios