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Quem teve a paciência de ouvir o discurso de Passos Coelho no encerramento das «jornadas parlamentares» conjuntas do PSD e CDS, realizadas na AR, ficou decerto perplexo entre a realidade que conhece, porque a vive, e a ficção dessa realidade, porque a ouviu do primeiro-ministro. A tautologia (mesmo em voz bem colocada, como a deste chanceler), nunca deixa de ser um imenso tédio, nem consegue eximir-se de consistir na mesma coisa dita de várias maneiras. Com a agravante de que a coisa repetida é muito esgrouviada – o «novo paradigma» com que Passos julga «ficar na História» – e insuportável, por ser dita ad nauseam

Aliás, esta técnica tautológica da chancelaria Passos funda-se na frase de Goebbels «uma mentira repetida mil vezes transforma-se em verdade». Mas o ministro da propaganda nazi tinha, sobre Passos, a vantagem de dispor de uma ditadura selvática, que controlava com uma ferocidade extrema tudo e todos, enquanto Passos está limitado por um regime democrático, embora repetidamente a sua governação seja inconstitucional.

Mas, para além do mar de rosas que a sua oração derramou sobre o País, o chanceler juntou às suas famosas galegadas (os portugueses são «piegas», os desempregados «que emigrem», etc.) um fossado sobre os jornalistas e comentadores, a quem acusou de «preguiçosos» e «patéticos», proferindo «inverdades», como a de dizer que a despesa pública não diminuiu, que a dívida saltou em três anos de 90% do PIB para 134% e que foram inúteis tantos sacrifícios.

O acossamento tem destas coisas e, como afirmou Jerónimo de Sousa, Passos «é pobre e mal agradecido», ao virar-se agora contra o sector da comunicação social, que tem carregado ao colo a sua governação desastrosa.

Aliás, se a diatribe mal-agradecida de Passos contra os jornalistas fosse verdadeira, provavelmente o seu Governo já teria sido apeado.

A desfaçatez desta gente não tem medida nem a mais rudimentar baliza moral, o seu discurso é um enxurro de incongruências e mentiras, o seu procedimento sempre foi casuístico, a única «reforma» que fizeram (e diligentemente) foi a desarticulação do Código do Trabalho deixando os trabalhadores nas mãos do patronato, as medidas brutais que têm aplicado em matéria de cortes de salários, de pensões e de apoios sociais não são estudados e, muito menos, avaliadas as suas consequências, em três anos aumentaram o desemprego para um milhão e meio de pessoas e dezenas de milhares de falências, desarticularam o ensino público e lançaram o caos com uma «reforma da Justiça» às três pancadas e, no final disto tudo, garganteiam tautologicamente «retomas» e «relançamentos», que ninguém vê, pela linear razão de que não existem.

E ainda têm o descoco de se dizerem os «vencedores» nas próximas eleições a haver.

Hão-de sê-lo, mas com as cores do burro quando foge.

 

in “Avante” a 30 de outubro

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