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francisco

(Discurso Directo) – O que o levou à política, e em especial ao Partido Comunista Português?

As ideias e o gosto pela participação cívica.

Há um marco fundamental na formação das minhas ideias políticas, o fim da União Soviética e a viragem à direita que desde então se operou. Demonstrou que só há dois sistemas, o que existe – o Capitalismo – e o alternativo – o Socialismo – que se vai tentando construir.

O registo mais social-democrata, ou liberal, ou conservador ou até fascista de um ou outro regime, não retiram a natureza nem o horizonte do sistema (capitalista), a acumulação de riqueza para uns poucos e de pobreza para muitos. É o que se tem visto nos últimos 25 anos, em Portugal, na Europa, no mundo.

O Programa do Partido Comunista Português consagra o objectivo da construção do socialismo, defende para Portugal um regime pluripartidário, uma economia mista com controle público dos sectores estratégicos e a soberania do país enquanto nação independente.

(DD) – A liderança da concelhia de Arouca acontece em que circunstâncias? 

Na nossa organização existe um responsável pela concelhia que integra e faz a ligação ao órgão executivo da Direcção Regional de Aveiro. Após as eleições autárquicas de 2009, por necessidade de reorganização regional, foi tomada a decisão de ficar responsável pela concelhia de Arouca, decisão essa que mereceu o aval das estruturas regional e concelhia do Partido.

(DD)- Não sendo arouquense, trabalha em Arouca como docente. Sei do seu gosto pela terra… Fico curioso em saber porque…

Nasci e cresci no Alto-Minho num meio muito semelhante a Arouca. Quando vim para cá, em Setembro de 1997, gostei  da escola, das pessoas que lá estavam (os alunos e o pessoal docente e não docente) e da terra. Hoje, continuo a gostar dos alunos, dos que  trabalham comigo, apesar de muitos dos bons terem saído e o “ciclo” estar em processo de desmantelamento, e da terra. Acho que já faço parte da “mobília da casa” e sinto-me bem assim.  

(DD) -Que razões encontra para o PCP ter dificuldade em se afirmar em Arouca?

Arouca é uma terra conservadora e o voto tem sido  reflexo disso mesmo. O PCP tem que trabalhar muito para ter reconhecimento e tem que trabalhar muito e durante muito tempo para que ao reconhecimento se some o voto. A tudo isto acresce o facto de sermos uma pequena organização e os tempos não estarem muito favoráveis à política. Mas não desistimos.

(DD) -Que leitura faz das últimas eleições autárquicas?

Há uma leitura nacional, o descontentamento popular visível na diminuição de votantes e de votos nos partidos da troika e no crescimento dos votos brancos e nulos. Na leitura mais local, foi visível a maioria absoluta clara do PS / Artur Neves, alguma recuperação do PSD, o castigo ao CDS pelo comportamento de Paulo Portas enquanto deputado municipal e a subida da CDU, particularmente a votação para a Assembleia Municipal em Arouca/Burgo e os 83 votos que faltaram para eleger um deputado municipal.

(DD) – Apesar de não eleito, ao longo do último ano, temo-lo visto particularmente ativo, intervindo na Assembleia Municipal no período destinado ao público. Com que lógica e sentido o faz?

Desde 2009 que temos assumido esse compromisso de participar enquanto munícipes na Assembleia Municipal. O direito de participação dos cidadãos  nas reuniões de Câmara e nas Assembleias Municipais e de Freguesia é um dos elementos diferenciadores, para melhor, do poder autárquico. Ora, os direitos defendem-se exercendo-os. Se os arouquenses exercessem mais este direito, mesmo com os mesmos eleitos, eram melhor governados, para além de ficarem melhor habilitados para eleições futuras. Há deputados municipais que passam o mandato sem fazer uma única intervenção.

(DD) -Neste órgão autárquico já o vimos a ser especialmente crítico sobre a rede escolar em Arouca, nomeadamente no que diz respeito ao fecho das escolas do 1º Ciclo. O que podia e pode ser feito de diferente?

Podia-se ter tentado cumprir a Carta Educativa, pequenas escolas de proximidade. Vingou a orientação  do poder central de concentrar e encerrar escolas. Agora temos as escolas mais centrais sobrelotadas e as outras sublotadas com várias salas de aula vazias e o processo ainda não acabou. Procurar estancar o encerramento das escolas mais periféricas e inverter o fenómeno da concentração tentando uma distribuição mais racional pela rede existente devem ser as prioridades. 

(DD) -Encontra explicações para que o PS ganhe sucessivamente as eleições autárquicas numa terra sociologicamente social democrata (atendendo aos resultados nacionais)?

O PS aproveitou, nos anos chave, as divisões internas do PSD. Depois tirou partido do estilo sóbrio de Armando Zola e do registo popularucho de Artur Neves, qualidades pessoais ainda muito apreciadas. Veremos no futuro o que pesará mais na escolha dos autarcas, os estilos ou as propostas.

(DD) -Que análise, que visão crítica tem da ação da Câmara Municipal?

 O executivo de Artur Neves apostou em duas grandes linhas de acção, profundamente interligadas,  a construção de todos os equipamentos  susceptíveis de financiamento por fundos europeus e uma política de eventos e entretenimento permanente .

Da primeira resulta o mito de uma grande gestão económica, uma vez que a autarquia tem boas contas e um rácio custos do pessoal / orçamento de acordo com a orientação do governo. Do ponto de vista da contabilidade  a autarquia está bem. Do ponto de vista da política económica já temos que considerar outros elementos. Será que os serviços disponibilizados são suficientes, designadamente nos transportes escolares? Será que não haveria obras e intervenções, por exemplo no ambiente, mais onerosas à autarquia, mas mais prioritárias para o concelho? É boa gestão económica construir equipamentos sobredimensionados como é o caso das escolas ou equipamentos, com fundos comunitários e nacionais, que não são utilizados ou que se degradam por falta de manutenção (parque milénio, obras na serra, por exemplo)?

A segunda é publicidade em dose cavalar. Sendo verdade que é importante projectar o nome de Arouca, não é por haver eventos e entretenimento todas as semanas em Arouca que, por si só, o concelho se desenvolve. Seria talvez interessante comparar o investimento da autarquia em entretenimento com o gasto em apoios à produção local.  Mas percebe-se a aposta, garante inaugurações e palanque q.b..

(DD) -Como vê o trabalho dos partidos da oposição, ou se quiser da oposição?

Se o PS tem um projecto, e tem de facto, dos partidos da direita ainda não deu para perceber qual é a sua alternativa. O PSD está mais organizado, quer ser poder em 2017 e crê que a “maioria sociológica” que tem tido nas eleições nacionais é suficiente. Falta é o projecto, as propostas, e resposta às questões: o que fariam? o que fariam diferente se fossem poder?  O CDS não tem sido visível.

(DD) – Como caracteriza o atual estado de desenvolvimento do concelho?

Um concelho que perde população, particularmente no segmento mais jovem, que tem baixo poder de compra, um baixo salário médio mensal e demais indicadores  de desenvolvimento pouco famosos não se pode considerar desenvolvido. 

(DD) – Qual o principal entrave?

O principal problema do concelho é a desertificação e o encerramento de serviços. Arouca está a perder  população, são mais os óbitos que os nados-vivos, muitos emigram (por isso vale de pouco o baixo desemprego relativo). Quanto ao encerramento de serviços, desapareceram freguesias, escolas, grande parte do Tribunal. Teme-se por mais encerramentos de escolas, de extensões de saúde, do serviço de urgência básico, dos correios, da repartição de finanças.  Não há territórios atractivos sem serviços públicos de proximidade e qualidade.

(DD) – Na sua análise como está a lidar Arouca com o impacto da crise económica?

Como o país em geral,  reduzindo custos e procurando novas receitas. Uns emigram, outros fazem uns biscates, cultivam-se umas coisas, a família substitui a Segurança Social. Sobrevive-se. Arouca não é um oásis, muito menos auto-suficiente. 

 (DD) – Considera os avultados investimentos no setor do turismo justificados e relevantes para o desenvolvimento município?

De acordo com a conceptualização e a linguagem “geoparqueana” está tudo justificado e muito certinho. Há aqui uma desfocagem, a centralidade deve estar na produção autóctone e essa é garantida pelos que trabalham, cujo rejuvenescimento tarda. Apoiar a produção da terra, certificar, criar certames, concursos e prémios para os produtos e produtores, por forma a aumentar e valorizar a produção. É aí que está o potencial de Arouca.      

 (DD) – O que terá falhado para que a principal obra (via estruturante) não esteja ainda concluída, e muito menos iniciada? O que pode e deve ser feito?

Anos e anos de negociatas em auto-estradas e PPPs. Milhares de quilómetros de alcatrão depois, quando acabou a festa, tínhamos auto-estradas a mais e vias complementares essenciais (como a Variante) por fazer. Enquanto não for reatado o investimento público não há Variante.

 (DD) – O que pode e deve fazer Arouca para ser um território competitivo?

O desenvolvimento de Arouca passa pela valorização da produção local, pela política ambiental e por serviços públicos de proximidade de forma a fixar os jovens da terra. Sendo verdade que muitas destas questões só podem ser resolvidas por políticas nacionais e que enquanto se mantiver o rumo dos últimos anos isso será muito difícil, a autarquia tem, também, uma palavra a dizer. E isso nem sempre tem acontecido.

Entrevista de Daniel Silva

 

 

in Discurso Directo a 21 de Novembro

 

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