Se Maomé não vem à montanha – a montanha vai a Maomé. Se a província não vai a Lisboa – Lisboa vem à província.

País macrocéfalo (embora macrocéfalo de Lisboa), não mudámos quase nada ao século XIX.

O urbanismo é uma forma de política, assim como a política é uma forma de urbanismo. Daí, o termos, ainda, o Terreiro do Paço no sítio onde o deixaram.

Verifica-se, de súbito, explosivamente, que o telefone não chega. E que, para além das inaugurações dos crisântemos, das crianças das escolas e das barracas nas feiras, é possível ir fazer à província, Terreiro do Paço. Que é possível, ir fazer a Arouca e a Castelo de Paiva, à Feira e a Vale de Cambra, Lisboa. Activamente. Participadamente.

É a Operação Visitas-Relâmpago ao Eleitorado da Província (OVREP).

Toma-se, na carta, um ponto de nevralgia sócio-eleitoral. O que não é difícil. Alinham-se, num papel, os problemas mais angustiantes. O que, sendo tantos, já é mais difícil. E rompe-se pela província adentro, em alguns casos com pompa e circunstância, noutros sem pompa nem festa, mas sempre em carros topo de gama e com bandas filarmónicas à frente.

A província, que já perdera, de Lisboa, a noção, e a proporção, que estava, no tempo, de lado, e, no espaço, na outra ponta, a província, que fizera a festa e a colgadura, fica, de súbito, atarantada e espessa.

Tem, na sua frente, de perna traçada e Assembleia Municipal aberta, uns indivíduos rápidos e demagogicamente sérios, que vêm, inesperadamente, registar a reivindicação, a queixa, o reparo.

É aqui que a província, treinada para a festa e a colgadura, fica completamente desarmada. Política é coisa que não faz, a não ser no café e em voz baixa. Política é coisa que não quer fazer, a não ser anedoticamente e toda contra pessoas, apelidos, nomeações, tricas.

Quem distribui as cartas, ou quem, hoje, faz as vezes, chega-se-lhe agora e anuncia que está tudo mudado. Que a mesa é outra. Que o trunfo é outro.

E, de novo, a província perde. Antes, porque não tinha trunfos. Agora, porque ainda não sabe jogar.

E é quase perante o silêncio da província que se decide, na província, com a província – o futuro da província.

Severa, incauta, informada, Lisboa tem, na sua frente, uma sala febril e desorganizada. Povo não há. Só cartolas. Só gravatas. Algumas generosas. Algumas exaltadas. Algumas reivindicativas. Mas tão impreparadas. Tão infuncionais.

Dizem, mais ou menos mal, o que têm a dizer, de memória, ou por um longo papel barroco.

Lisboa faz um sinal. É a sua vez. Acendem-se, imediatamente, os projectores da televisão. Crepitam as máquinas dos jornais filmados. Ajustam-se os microfones. Ajustam-se os microfones das Emissoras da Propaganda.

E Lisboa fala, a Lisboa, por sobre a cabeça da província. Fala, em frente do cenário natural do OVREP, com figurantes e tudo.

Fecha-se, estalidamente, metalicamente, dentro do espanto e da hesitação, a Assembleia Municipal. Morrem, em magnésio, os projectores. Desmontam-se, em mecano, os microfones. Levantam-se, de súbito mais escura, de súbito mais fria, onde tudo ficou por resolver, sobretudo as gentes, os político-visitantes. Ronronam, lá em baixo, na estrada encurvada (que serão, em dois mil e troca o passo, afirmou-o o quinquenalismo de Guterres e Sócrates, de Portas e Cristas, de Passos e Cavaco, vias rápidas directas à auto-estrada), os carros topo de gama. Abrem-se e batem-se as portas. Tossem os escapes. E é, finalmente, o regresso de Lisboa a Lisboa.

Fica, na província, o que é da província.

E é então, e só então, que toda a gente se lembra do que devia ter dito, em força e em audácia, com números, com dados, com estatísticas.

Mas já é tarde, Lisboa já está na província seguinte.

E assim sucessivamente.

É tão difícil, afinal, fazer Lisboa. Fazer Lisboa na planificação, na orçamentação. Só Lisboa, afinal, é que tem os números, os dados, os arquivos. Só Lisboa, afinal, é que tem a linguagem, a técnica, a desenvoltura tecnocrática.

Generosa é Lisboa em ir à província, em ir dialogar sociologia, Europa, management, marketing, mundo, perante a face atónita, e imóvel, da província. E está provado que Lisboa veio, que Lisboa quis vir, que Lisboa não quis deixar de vir, decidir, in loco, num esforço, rapidamente montado, de assembleia em assembleia, a descentralização e, quem diria, a regionalização. Está provado que Lisboa tentou a descentralização e a regionalização. Está provado que Lisboa tentou a democratização e a igualização do país.

Macrocefalia, sempre, mas itinerante.

Lisboa ninguém a apanha. É por lá que as coisas começam e é por lá que as coisas acabam. É lá que são; as visitas-relâmpago do sr. Cavaco Silva, do sr. Passos Coelho, da srª Assunção Cristas, os pseudónimos das manigâncias e dos livros do sr. José Sócrates, o Instituto Nacional de Estatísticas, os contratos de estradas, as cinematográficas RTP, SIC, TVI, as consternantes listas VIP’s da responsabilidade de mais um, ensonado, ineficaz, mal-pago, funcionário público.

Ou seja, tudo.

E depois queixem-se. A província teve a sua oportunidade – e perdeu-a. Perdeu-a em plena regionalização. Perdeu-a em plena oportunidade eleitoral. É, depois, inútil tentar reavivar, em jornais locais, e distantes, o eco impossível de uma assembleia que – é claro – concedeu plenos poderes ao presidente da Câmara. Ao tecno-presidente. Ao oficial-de-cerimónias a Lisboa. A um sr. Regedor  qualquer.

A não ser.

A não ser que nada disto possa. Ser.

A não ser que a regionalização autêntica só comece, mas só, na consciência, e no usufruto, do município, da região. E que a democratização participativa só comece, mas só, na consciência, e no usufruto, da democracia. E que, não começando, não o sejam.

De outra forma, todas estas coisas não passam de raids de demagogia.

De outra forma, todas estas coisas são cicatrizes tecno-aristocráticas em faces elitistas e interesses pessoais instalados.

Tem, de tudo isto, consciência, quem fez festa e colgadura? E quem, não fazendo nem festa nem colgadura, ficou quieto, e calado, ao fundo do café? E quem, não fazendo nem festa, nem colgadura, nem fundo do café, tem sido, só, província?

País macrocéfalo.

E nisto vamos até que, para além do Instituto Nacional de Estatísticas, da RTP, da SIC, da TVI, das visitas-relâmpago do sr Cavaco, do sr. Portas e da srª Cristas, e das manigâncias e livros do sr. Sócrates, para além de Algés, de Moscavide e de Benfica – atulhado o último comboio para o estrangeiro, despachado o último emigrante, fechada a última luz da última aldeia, já não haja mais nada, nem ninguém. Só lobos.

E, muito depois, muito mais longe, a América, o Estado Islâmico, a ONU.

Pior.

Muito pior.

Isso.

A Lua.

Álvaro Couto in jornal Discurso Directo 10-04-2015

Anúncios