Um pacote de austeridade?

Vai lá e abusa.

Pensões? Salários,subsídios, reformas?

– Vai lá e rouba.

1 milhão de desempregados, 2 milhões de precários, 3 milhões de pobres?

Vai lá e expulsa.

A entrada do carro na autoestrada? A saída da barcaça do rio?

– Vai lá e cobra.

Um livrinho com a Constituição da República?

– Vai e rasga.

O aparelho de estado?

– Leva,  para o que der e vier.

Os aviões? Os autocarros, os comboios, os metros?

Vai lá e vende ao desbarato.

Pedaços de papel? Acções, aforros, swaps?

-Vai lá e joga.

Licenciaturas? Passaportes, certificados, demais licenças?

– Todos seus.

Os empregos para os amigos no partido?

Vai e usa.

Os hospitais? As escolas, as autoestradas, os aeroportos?

-Vai lá e emparceira.

Uma montanha de recibos? Água, luz, energia,

comunicações, ar, sol, chuva, vento?

– Vai e dá a render.

Os peixes? O leite, as batatas, a fruta, o trigo, o milho?

-Vai lá e destrói.

As páginas do Lusiadas?

-Vai lá e arranca.

Os desenhos suspensos nas paredes do museu?

-Vai e risca.

A canção do hino nacional?

– Vai lá e entrega.

E foi assim que um país escavacado

pelas patas de um coelho

morreu sozinho e pobre,

repetindo o nome Portugal

até à última farpa.

 

5 de julho de 2015, álvaro couto

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